Manifestações e anseios da juventude no espaço urbano são iluminados pelo II Colóquio Diálogos Juvenis

por Antonio Laudenir - Repórter
Grafite
Grafite, música, Intervenção urbana e cultura pop são alguns dos temas do evento ( Foto: Thiago Gadelha )
Conversar com a diversidade das práticas, invenções, subjetividades e repertórios culturais dos jovens é um desafio em constante mutação para a pesquisa acadêmica. Adentrar este território, permeado por uma faixa da população por vezes marginalizada e pouco questionada quanto a seus desejos é um dos muitos objetivos do II Colóquio Diálogos Juvenis Sentimentos Intensos: Cidade e Arte.
Reunindo pesquisadores, docentes e público em geral, o encontro tem início nesta terça-feira (31), no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) e segue até 2 de agosto com uma série de conferências, mesas-redondas, apresentações de trabalhos, performances e palestras no departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e no Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
A atividade de abertura conta com a presença da Profa. Dra. Cornélia Eckert. Representante do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a convidada apresenta a conferência "A arte de narrar as (nas) cidades: Etnografia de (na) rua, alteridades em deslocamento".
Através do encontro entre diferentes agentes sociais como as universidades, estudiosos e personalidades com atuação no campo das juventudes, o evento tem como intenção refletir acerca dos repertórios juvenis diante de referentes como cidade, arte e outros dispositivos de intervenção e interação com o espectro urbano.
A premissa é identificar as pluralidades de temas estudados neste campo, articulando e fortalecendo toda uma rede de pesquisa tanto em nível teórico como metodológico. Como alternativa para uma percepção mais profunda sobre os rastros dessa juventude, o perímetro urbano ergue-se como território de observação. A cidade, assim, eleva-se como palco destas relações comunicativas e sociais. Em constante modificação ao longo das décadas, a urbe interfere nos anseios dos jovens e estes, por sua vez, buscam resistir nesse ambiente através de manifestações e dispositivos de intervenções próprios.
Histórico
A proposta do "Diálogos Juvenis" surgiu no momento da criação do Laboratório das Artes e das Juventudes (Lajus), em março de 2012. À época foram promovidas ações mensais que se constituíram base para a construção do atual Colóquio. Foram realizados encontros temáticos entre narradores-chave e pesquisadores com o intuito de identificar as intercessões entre o discurso acadêmico e as falas e percepções dos grupos estudados. Com esse estímulo, o Lajus organizou o I Colóquio Internacional Diálogos Juvenis: Diminuindo distâncias entre Narradores e Pesquisadores.
Nessa primeira atividade, a missão foi identificar e dialogar com as práticas diversas de juventudes e suas demandas por direitos. Sem dúvidas, um caminho para possibilitar o estreitamento de relações entre o âmbito do Ensino Superior e o desenvolvimento de ações inter-setoriais, ampliando a atuação da pesquisa para além dos muros das instituições de ensino.
Urgência
A segunda edição que tem início nesta terça-feira reflete os esforços conjuntos do Lajus, em parceria com a Rede Luso-brasileira "Todas as artes, todos os nomes" e com a pós-graduação em sociologia da UECE. Outro apoio decisivo é mediado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Instituto Dragão do Mar, Galeria Sem Título e Rede Luso-Brasileira de Pesquisadores em Artes e Intervenções Urbanas (Raiu).
A lista de trabalhos selecionados para discussão nos Grupos de Trabalho (GTs) reverbera a atuação tanto de acadêmicos locais como de diferentes pontos do País e do exterior. Cada artigo se lança como um documento que aprofunda os muitos aspectos culturais, sociais e políticos pelos quais os jovens protagonizam ou estão a mercê cotidianamente.
São quatro grupos divididos tematicamente por "Afetos, memórias e intervenções artísticas nos contextos urbanos"; "Sociabilidades Juvenis e seus Circuitos: entre afetos, redes e consumos"; "Territórios, sonoridades, estéticas e cenas"; e "Metamorfoses artísticas e criativas nas sociedades contemporâneas".
Ao todo, 76 artigos serão apresentados na quarta-feira (1). Os autores e coautores estão organizados por blocos e sessões e a riqueza de temas e manifestações pesquisadas é um dos destaques dentro da programação.
A diversidade de pensamento e apreciações intensifica a proposta de intercâmbio entre narradores, pesquisadores, estudantes e demais interessados em discutir as juventudes em seus entrelaçamentos afetivos, simbólicos e materiais com a cidade.
Assuntos urgentes e carentes de aprofundamento, tanto por parte da sociedade como da mídia tradicional, integram a lista de trabalhos. Muitos desses temas são comuns ao dia a dia de jovens e atravessam experiências ou manifestações mediadas pela música, grafiti, identidade racial, políticas públicas, violência, intervenção urbana, cultura pop, sexualidade, afirmação social, esporte e expressão corporal. Algumas pesquisas chamam atenção pelo ineditismo ou pertinência das abordagens.
São resíduos e expressões ancoradas em diferentes campos e realidades geográficas. João Augusto Neves Pires (Unicamp) comparece com o artigo "Circuitos e afetos dos jovens punks na cidade de São Paulo na década de 1980", enquanto Raquel Cristina Araújo Freitas (UECE) e Diógenes Werne da Costa Lopes (UECE) recortam "Singularidade e produção fílmica na praia das Goiabeiras". Tereza Rafaella Cordeiro Maciel (UFC) ilumina questões pertinentes de mobilidade através de "O Ciclo ativismo Feminista Contemporâneo: um movimento de luta das mulheres pelo direito à cidade".
Plural
O corpo e a atitude política abastecem Joana Darc Oliveira Gomes/ Maria Dedita Ferreira de Lima (UEVA), autoras de "Meu cabelo minha identidade: a (re) construção social da beleza e a identidade em disputa entre as estudantes da escola carmosina, na cidade de Sobral - CE".
Vyullheney Fernandes de Araujo Lacava (UFRN) monta uma observação de campo em "Cartografia de sonoridades drags - territórios musicais, rostidades e montações". Expressões subterrâneas como o heavy metal, a cultura gótica, o surf, funk, cultura geek são algumas das muitas manifestações esmiuçadas e cuidadas pela rede pesquisadores.
Performances e lançamentos editoriais também integram os três dias de atividade. Thomas Saunders interpreta "REGinger", às 9h, no Auditório José Albano, do Centro de Humanidades I (UFC). Às 18h do mesmo dia, Waldírio Catro (Porto Iracema das Artes) e Eduardo Bruno (USP) participam com "I am a jingle, isso é um aviso". Na quinta (2), 9h, será a vez da bailarina/performer Sílvia Moura destrinchar a performance "Tempestade".
No dia da abertura do II Colóquio Diálogos Juvenis, Alexandre Barbosa Pereira lança "A Maior Zoeira na Escola: experiências juvenis na periferia de São Paulo" (editora Unifesp); Antonio Sabino da Silva Neto (organizador) chega com "Incursões Socioantropológicas: pesquisas de campo no Ceará". Outros títulos presentes são "Perecível (fotografias, haicais e outros escritos)" (Felipe Camilo); "Juventudes e ensino médio: transições, trajetórias e projetos de futuro" (Maria Alda de Sousa Alves); e "Quem é o melhor DJ do mundo? Disputas simbólicas na cena de música eletrônica", de autoria de Marcelo Garson.
Diário do Nordeste

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