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Os muitos significados de Iracema

Gustavo Simão - Especial para O POVO
Gustavo Simão - Especial para O POVO
Ela dá nome à praia e ao bairro. Está no bloco de carnaval, casando com o Bode Ioiô. No teatro musical, em adaptação do dramaturgo e diretor Ilclemar Nunes. Na dança, no atual projeto da bailarina Rosa Primo. Está também esculpida em cinco monumentos espalhados por Fortaleza. Mais de 150 anos depois, a Iracema de José de Alencar continua como uma das figuras da literatura cearense mais representadas e referenciadas no Estado.
Entre as cinco estátuas da personagem na Capital, três são mais conhecidas: a da praia do Mucuripe (1965), de Corbiniano Linsa; a Iracema Guardiã (1995), de Zenon Barreto, que fica na Praia de Iracema; e a da Lagoa da Messejana (2004), de Alexandre Rodrigues. Completam a lista a Iracema de Descartes Gadelha (2002), localizada em frente ao Rotary Club Fortaleza, e a de Francisco Zanazanan (2005), no Palácio Iracema.

Em visita na manhã da última sexta, 27, à Iracema Guardiã, a reportagem encontrou a funcionária pública piauiense Iara Moraes Sousa, que, de férias na Capital, tirava selfies com o mar e o monumento ao fundo. Questionada se conhecia a figura representada, ela titubeou. "Eu já ouvi falar Ela foi uma pessoa muito importante para o Estado, sei que foi abandonada grávida, né?", arriscou. A mistura de elementos da ficção original com a realidade costuma ser comum, como explica o doutor em Memória Social Tiago Coutinho. "A repetição contínua de Iracema coloca a ideia que ela existe, é respeitável, importante para a nossa história", afirma.
Como contextualiza o pesquisador, o movimento de relembrar a personagem faz parte de uma política elitista que data da época do Império, quando José de Alencar escreveu o livro e encontrou sucesso nacional. "O Estado teve orgulho. Para a elite intelectual letrada, a entrada de um escritor cearense na história da literatura nacional foi importante, o que até se justifica, já que historicamente as políticas culturais são desiguais entre o Sudeste e o resto do Brasil", ressalta. "Até hoje existe esse sentimento (de orgulho) quando se vê um ator cearense na Globo, por exemplo. A gente comemora, mas isso é importação de inteligência", traça um paralelo. Vale lembrar que, apesar de cearense, o autor passou grande parte da vida no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 11 anos e, também, onde faleceu em 1877.

Como política elitista, Tiago observa que as estátuas e suas localizações apontam para processos de desigualdade. "Os monumentos não são baratos, precisam de bronze e outros materiais, então surgem pelo Estado ou por algum grupo rico que decide bancá-las. Por isso, é natural que estejam em lugares elitistas. Isso não é um fato isolado de Fortaleza", aponta. "Você não costuma ter grandes monumentos em bairros periféricos porque as políticas não são voltadas para eles. É a elite contando a própria história para si mesma. Resta aos demais estudarem-na nos livros e, então, se organizam visitas, excursões", pondera. Quando se coloca uma estátua num local não-turístico, como a Lagoa de Messejana, Tiago argumenta que a intenção dos grupos econômicos é a "valorização" do espaço.
"Estátuas, em geral, são imposição de memórias. Quando se escolhe fazer uma, está se querendo dizer que aquilo é importante para ser lembrado. Elas são uma tentativa da elite impor uma lembrança", reforça. Os contextos históricos, sociais e políticos têm grande influência nesse panorama. "A primeira estátua de Iracema foi inaugurada em 1965, justamente nos 100 anos de publicação do livro. Naquele ano, quem é o presidente do Brasil? Castelo Branco (o primeiro da época da Ditadura Militar). Que é o quê? Cearense. Por isso, ele vai para Fortaleza inaugurar a estátua", reconta. Essa inauguração ocorre temporalmente bem próxima, inclusive, da conquista de Castelo Branco de tombar a Casa de José de Alencar junto ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. O equipamento, então, é entregue à administração da Universidade Federal do Ceará.

Entre presenças físicas e simbólicas, o doutor critica que uma das principais consequências da reiteração da memória de Iracema são os recorrentes gastos de recursos públicos e privados. O pesquisador contrapõe as ações de reforço da figura da índia ao longo dos anos com as ações práticas relacionadas às causas indígenas. "A consequência mais drástica dessa memória é que não se faz um debate mais honesto sobre a violência da colonização. Desde quando Iracema foi publicado, já se tratava como se não houvesse mais indígenas no Brasil. É uma questão seríssima que foi sendo apagada do debate público, enquanto o que o ocupa é a idealização de uma índia que nunca existiu. O exagero de Iracema é reflexo de uma política conservadora em relação à memória do Ceará", considera Tiago.

Leia Amanhã
A casa de José de Alencar enquanto referência do autor e sua obra para a Cidade
O Povo

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