Projeto ganha 1º livro e mantém debate sobre importância da alimentação

por Adriana Martins - Editora Assistente
Feijão,rapadura,pamonha: exemplos de alimentos registrados durante a etapa de campo da pesquisa. Equipe percorreu 63 municípios ( FOTOS: MAURÍCIO ALBANO )
A gente não quer só comida, diz a canção. Bom, nunca é "só" comida. É que planta, quem colhe, quem abate. É o transporte, os desafios da estrada. De onde vem, para qual destino. É a chuva, abençoando o campo, ou a ausência dela repetindo história. É a feira, barulhenta, colorida, perfumada. É a conversa de comadres na frente da banca de verdura, ou a dica preciosa do vendedor.
É o cheiro da panela, o chiado da frigideira. O debulhar do milho, o embate pra abrir o coco seco. O assado suculento, o caldo untuoso, a salada fresquinha. Os potes de doce desafiando a parcimônia. A louça em dia de festa, a marmita do trabalhador. Os restaurantes, o serviço, a hotelaria. O carvão na falta do gás em tempos de retrocesso. As festas, as romarias, as pescarias. A nutrição, a gula. A memória, a pertença, a saudade. Aquele instante em que comida te diz quem você é, de onde veio. É dedicação, é um jeito de amar.
Comida nunca é só ingrediente e receita. Envolve tantos saberes quanto qualquer outra linguagem dentro de uma cultura - com significados sociais, religiosos, políticos, estéticos, sexuais. Passível de investigação e pesquisa, já foi eleita objeto por gigantes como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre. No Ceará, exemplo recente - quentinho, saído do forno - é "Além da peixada e do baião - histórias da alimentação no Ceará".
Organizado por Valeria Laena, Domingos Abreu e Fátima Farias, o livro é um dos resultados de extensa pesquisa, iniciada há pelo menos 10 anos, a partir da proposta de uma exposição de longa duração no Museu da Cultura Cearense (MCC), ligado ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC).
O equipamento abriga uma mostra permanente sobre o universo dos vaqueiros, derivada de investigação semelhante. Sua equipe também já se debruçou sobre as brincadeiras infantis (que culminou na exposição "Brinquedo - A Arte do Movimento") . Em 2008 foi a vez da alimentação, dentro do projeto batizado "Comida Ceará".

Entendimento
Já naquele ano, o grupo envolvido na iniciativa caiu na estrada, percorrendo municípios em busca de sabores, fazeres e modos de comer. O objetivo era fazer um levantamento etnográfico sobre os sistemas alimentares do Estado. De lá para cá, entre interrupções (os recursos, oriundos do Governo estadual, nem sempre estiveram disponíveis) e retomadas, o "Comida Ceará" rendeu seminários, palestras e outros eventos.
Agora, o livro chega como primeiro registro publicado da pesquisa, que desde o início tem consultoria do antropólogo e museólogo Raul Lody, autor de estudos no campo das religiões afro-brasileiras, da cultura popular e especialista em antropologia da alimentação. Curador da Fundação Gilberto Freyre (Recife), da Fundação Pierre Verger (Salvador), do Museu da Gastronomia Baiana do Senac Bahia e do Instituto de Arte e Cultura do Ceará - Dragão do Mar, em 2005 Lody foi um dos pesquisadores responsáveis pelo tombamento do ofício das Baianas do Acarajé como patrimônio nacional, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
"Fui convidado a integrar o grupo de curadores do MCC. A partir disso, fizemos vários encontros e levamos essa ideia de um projeto sobre sistemas alimentares no Ceará, como uma ação de pesquisa voltada ao entendimento sobre o homem cearense", resume Lody sobre como passou a integrar a equipe.
"Presto consultoria técnica e acompanho as ações, enquanto a idealização e coordenação são de Valeria Lena. Mas há muita gente envolvida, pelo porte da iniciativa", justifica, referindo-se às dezenas de bolsistas, fotógrafos, pesquisadores e outros profissionais do projeto.
Entre eles, ressalte-se a participação dos fotógrafos José e Maurício Albano, responsáveis pela hercúlea tarefa de registrar em imagens todas as descobertas da pesquisa durante a etapa de campo. Entre 2008 e 2011, o "Comida Ceará" percorreu cerca de 30 mil quilômetros, 63 municípios (e mais de 100 localidades), registrou mais de 789 processos culinários. O acervo resultante acumula, atualmente, em torno de 300 horas de entrevista 48 mil fotografias e 1.500 objetos relacionados ao mundo da cozinha.
"O livro, portanto, é apenas um dos resultados, porque a pesquisa é grande e não se encerra nele. Todo o material coletado deverá ser trabalhado e utilizado", reforça Lody - e não apenas na futura exposição do MCC (ainda sem data prevista), mas em escolas, universidades e nas recém-inauguradas Escola de Hotelaria e Gastronomia da Estação das Artes (do Estado, sob gestão do ICCA) e Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (doação do grupo empresarial ao Governo do Estado).
"O material é de utilidade par ajudar esse entendimento, a valorização da comida cearense", resume Lody.

Pioneirismo
Entre os objetos coletados estão utensílios para fazer rapadura, farinha, pilões, panelas, louças e até engenhocas como uma batedeira construída com uma furadeira. "Trata-se de um acervo extenso e único no País, inexistente em outro estado brasileiro", elogia o curador. Para ele, o livro e as etapas que a ele se sucedem iniciam uma etapa de "dar voz e sentido a esse acervo. É uma pesquisa que recupera, que joga luz no trabalho de cozinheiros, agricultores, comerciantes, nas feiras, nos mercados, nas festas, revela interpretações estéticas dos pratos, do uso do artesanato local, tudo trabalhado pelo viés da identidade e, sem dúvida, da economia criativa", completa.
Nesse âmbito, vale ressaltar a iniciativa de fazer com nosso baião de dois o mesmo alcançado com o acarajé da Bahia: torná-lo patrimônio imaterial na esfera estadual. "Já foi dada entrada para solicitação do registro patrimonial no governo do Ceará, o que não implica, em outro momento, o impedimento de uma solicitação federal", adianta Lody, sem, no entanto, dar detalhes das etapas do processo.
O curador explica, no entanto, que comida e seus processos representam um repertório ainda pouco explorado no âmbito do patrimônio imaterial. "Precisa ser mais divulgado, quando ocorrer mais as pessoas se sentirão mais motivadas a fazer novas solicitações", prevê.
A aposta no baião descortina a representatividade do prato na alimentação cearense. Mas, para Lody, não existe uma cozinha no Estado, e sim várias. "É como música, dança, teatro popular. As manifestações conversam entre si e mostram uma diversidade, uma ecologia, uma riqueza que é o verdadeiro forte dessa identidade. Na questão da comida, há os alimentos, as técnicas, os ingredientes, são muitos fatores".
Por que comemos? Quais as preferências, as dissidências?As farturas, as ausências. E por que elas existem dessa maneira? Quais as festas? Grande parte do que somos está nessas respostas. De fato, bem além do baião e da peixada.

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Diário do Nordeste

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