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Biografia reconstitui a cotidiano das mulheres no cangaço

por Dellano Rios - Editor de Área
Maria Bonita
Maria Bonita e Lampião, em um dos registros feitos por Benjamin Abraão ( FOTO: CIA. DAS LETRAS/ DIVULG. )
Oitenta anos após o massacre na Grota de Angicos, em Sergipe, quando Lampião e seu bando foram mortos e decapitados, o rei do cangaço vem sendo relembrado em um sem fim de narrativas. E, mais uma vez, a fama e os feitos do capitão Virgulino Ferreira da Silva ameaçam ofuscar os demais personagens daquela trama.
 
Em meio a lançamentos editoriais sobre o tema, se destaca "Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço", da jornalista Adriana Negreiros. O livro chega às livrarias nesta sexta-feira, 31, pela editora Objetiva. A reportagem biográfica acerca da cangaceira, companheira de Lampião, mostra o quão rica e complexa são as outras histórias daquele tempo. Trajetórias como a da baiana Maria Gomes de Oliveira, que largou a vida que levava para ingressar no cangaço, contribuem para a evidenciar perspectivas outras que seguem silenciadas.
No correr de 296 páginas, Adriana Negreiros enfrenta o desafio de montar um quebra-cabeças com muitas peças escondidas e outras tantas faltando, por vezes descartadas deliberadamente. A ideia da autora era a de fazer uma biografia, num formato clássico. Mas Maria Bonita não era qualquer personagem. "Faltavam, por exemplo, mais informações sobre a infância dela", cita a jornalista.
Apesar da fama de Maria Bonita - heroína, anti-heroína e vilã de tantas histórias, escritas ou guardadas pela tradição oral -, foi difícil para a autora reconstituir seus passos. Afinal, mulher, de origem pobre, com uma vida de fora da lei, Maria Bonita teve sua vida inscrita numa espiral de exclusões. O silenciamento sistemático daqueles que vivem à margem fez com que sua história fosse fragmentada, persistindo mais no imaginário do que em vestígios documentais.
Ela e elas
Maria Bonita viveu apenas 27 anos. Nascida no sertão baiano, casou cedo e foi infeliz ao lado do marido mulherengo. Apaixonou-se por Lampião e aceitou o convite do capitão de acompanhá-lo no cangaço. Maria Bonita foi a pioneira, iniciando a transformação do bando, então exclusivamente masculino.
Fugindo de interpretações moralistas e simplistas do quadro, Adriana Negreiros reconstitui uma história crua e violenta. Nela, Maria Bonita é a personagem central e um ponto de referência para que a autora possa desvelar uma história muito maior: a das mulheres numa sociedade violenta, em que o cangaço não era o único elemento opressor do gênero.
"Algumas mulheres, como a Maria Bonita, entraram no cangaço porque quiseram. Foi decisão dela acompanhar o homem que amava. Foi o caso também da Durvinha. Ela se apaixonou pelo Virginho, considerado o cangaceiro mais bonito do bando, e resolveu acompanhá-lo; Dida, namorada do Canário, a mesma coisa. Ela disse pra ele 'com você eu vou até pro inferno'. E de fato foi", conta Adriana Negreiros.
O inferno se traduzia numa vida de fora da lei, por caminhos errantes em estradas desoladas e no meio da mata. A fome, a sede, a polícia, os jagunços dos coronéis e a violência contra elas, exercida por seus companheiros de bando, eram alguns dos tormentos que essa vida reservava.
"Havia também um grande número de meninas que viraram cangaceiras, mas, diferente de Maria Bonita, foram contra a sua vontade. Elas foram raptadas pelos cangaceiros. Caso da Dadá, por exemplo. Ela foi raptada pelo Corisco aos 12 anos. Foi violentamente estuprada, passou vários dias com hemorragia e quase morreu", descreve.
A violência em casos assim era ainda mais totalizante. "Quando as mulheres entravam no cangaço, elas passavam a ser vistas como cangaceiras, não como vítimas. Mesmo que estivessem ali contra a sua vontade. Quando eram pegas pelas forças volantes, isso não importava. Eram mortas, decapitadas, ou violentadas sexualmente. Não era resgatadas, como se poderia esperar. Elas não poderiam sair do grupo, nem se quisessem", detalha a biógrafa.
Nos bandos, as mulheres eram proibidas de criar seus filhos. Aquelas que engravidavam e levavam até o fim uma gestação, eram obrigadas a deixar a criança ao cargo de outras famílias.
Diário do Nordeste

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