Em briga de marido e mulher se mete a colher

Grecianny Carvalho Cordeiro*

A Lei Maria da Penha completa 12 anos de idade e, com certeza, podemos dizer que foi um marco importantíssimo na luta contra a violência doméstica e a violência contra a mulher.
A despeito do passar dos séculos, da avançada tecnologia, da evolução da garantias de direitos nas legislações, muitos homens ainda agem de forma truculenta, selvagem, segregativa contra a mulher, esposa, namorada, amante, ex-mulhere.
As estatísticas mostram que a violência contra a mulher alcança índices alarmantes.
Estima-se que, a cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil; a cada onze minutos, uma mulher é estuprada; a cada 7,2 segundos, uma mulher é vítima de violência física, e por aí vai.
Recentemente, vimos pela televisão, cenas de um homem agredindo a companheira dentro do carro, na frente do prédio onde moravam, no Paraná. Depois, uma série de agressões, com chutes, solavancos e puxavancos pelos cabelos. A mulher tenta fugir de seu algoz. Em vão. Entram no elevador, ela tenta fugir, é contida. Em seguida, é arrastada para fora do elevador. A mulher cai da janela do apartamento. O homem vai buscar o corpo no meio da rua e volta a limpar o elevador sujo de sangue. A polícia chega. Ele consegue fugir. 
A despeito das nítidas filmagens de sua inominável bestialidade, o homem nega o crime. 
Um cena aberrante, revoltante, a carecer de adjetivos capazes de descrevê-la.
Gritos da mulher foram ouvidos. 
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Ninguém ousou sequer chamar a polícia ou sequer ligar para o disque denúncia de forma anônima.
Ninguém quis se meter, afinal, ainda impera o antigo entendimento de que em briga de marido e mulher não se mete a colher, como se estivéssemos em um tempo em que a mulher era considerada um mero objeto, uma propriedade do homem.
O fato é que hoje, existem várias formas de meter a colher em briga de casal, pois um simples telefonema para a polícia ou para o disque denúncia pode salvar uma vida, pode evitar uma desgraça, pode ajudar o próximo.
Meter a colher em briga de casal é, sobretudo, um gesto de pura solidariedade. 
E caso falte coragem para se meter, para denunciar, basta imaginar que aquela mulher agredida covardemente, humilhada de forma absurda, poderia ser sua filha, sua amiga ou alguém muito caro a você.
E se isso não bastar, se coloque no lugar do pai e da mãe dessa mulher ao assistir tais cenas.
Talvez assim, jamais hesitaremos em meter a colher em briga de marido e mulher.


*Promotora de Justiça

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