Famoso grupo de bonecos chega a Fortaleza com espetáculo

por Adriana martins - Editora assistente
Ainda havia material pelo chão e paredes a serem preenchidas. Mas mesmo durante a montagem, a "Mostra Mundo Giramundo" já deixa claro a preciosidade de sua passagem pela capital cearense. Com pouco mais de 10% do acervo total do Museu Giramundo - equipamento que guarda os 1.500 bonecos e outros itens do famoso grupo mineiro, localizado em Belo Horizonte - a exposição aterrissa na Caixa Cultural Fortaleza, após passar por Recife, Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba.
A abertura ao público acontece nesta sexta (24), e a visitação segue até 21 de outubro, com apresentação de espetáculo de 24 a 26 de agosto e de 12 a 14 de outubro, além de palestra neste domingo (26) e no dia 14/10.
Espalhados pela sala de exposições da Caixa estão em torno de 150 bonecos que representam a trajetória de quase 50 anos do Giramundo, definido por Beatriz Apocalypse não mais como um grupo de teatro de bonecos, mas "de bonecos", frente a sua amplitude de atuação - que além de espetáculos cênicos para crianças e adultos, inclui trabalhos editorias, para TV, cinema e outras linguagens. Para ficar em exemplos recentes, são do Giramundo os bonecos Groco e Ziglo, da turnê "Música de Brinquedo", trabalho da banda Pato Fu dedicado ao público infantil; e as marionetes que apareceram na novela "Pega Pega", da Rede Globo (2017).
É a primeira vez que Groco, Ziglo e seus colegas da TV aparecem em uma exposição itinerante - eles são algumas das adições que a "Mostra Mundo Giramundo" recebeu ao vir para a Caixa Cultural Fortaleza, graças ao espaço amplo da sala do equipamento. Outro exemplo é a coleção de projetos técnicos de alguns bonecos, itens incluídos pela primeira vez em uma mostra do Giramundo no circuito da Caixa.
"Todo boneco tem um projeto técnico. Nesse caso trouxemos cópias, os originais permanecem no Museu. Aí cada desenho aparece ao lado de seu respectivo boneco, para os visitantes poderem observar e entender melhor", destaca Beatriz.
Repertório
Um dos grupos de bonecos mais premiados em todo o mundo e com intensa atuação profissional, o Giramundo conta hoje com uma equipe de 35 a 40 pessoas, que se dividem entre as mostras itinerantes e os espetáculos pelo País. Concomitantemente à temporada do grupo em Fortaleza, por exemplo, acontecem apresentações em algumas cidades e exposições em Niterói (RJ) e no próprio Museu da trupe.
Tanto na capital cearense quanto em outros lugares, a linha curatorial das mostras segue uma perspectiva de repertório - ou seja, um recorte que inclua montagens importantes do grupo e uma variedade significativa de técnicas de construção e manipulação de bonecos.
Assim, há desde produções dos primeiros anos do Giramundo, na década de 70 - como "A Bela Adormecida" (1971), "O Reino Negro" (1972), "Saci" (1973) e "El Retablo de Maese Pedro" (1976) - até criações mais recentes, como das peças "Pinocchio" (2005) e "Giz" (2009), passando ainda por tesouros dos anos 80 e 90 ("As relações naturais", 1983; "O Guarani", 1986; "O Diário de um Tímido Forasteiro", 1990; "Le Journal", 1992; "O Diário de Um Louco", 1997). Personagens de espetáculos mais atuais não integram as mostras itinerantes porque estão sempre viajando em "turnê".
A exposição em Fortaleza é a última viagem dos bonecos do espetáculo "A Bela Adormecida", que após longa carreira devem se aposentar. "Agora eles são muito frágeis para viajar, então ficam de vez no Museu em Belo Horizonte", adianta a diretora. Oportunidade única.
Vale destacar ainda a última coleção de bonecos criada por Álvaro Apocalypse - pai de Beatriz e fundador do Giramundo ao lado da esposa Terezinha Veloso e da amiga do casal Maria do Carmo Martins, a Madu -, antes de seu falecimento, em 2003.
São cinco marionetes em madeira crua, que impressionam pela riqueza das formas mesmo com um acabamento mais rústico.
Cronológico
Para facilitar a visita, a disposição do acervo segue um caminho mais ou menos cronológico, em "U", dando a volta em torno da sala.
Há ainda espaços exclusivos para bonecos de projetos editoriais (fotografados para ilustrarem livros) e para a série audiovisual "Miniteatro Ecológico", além de uma "mesa de anatomia", que detalha a construção de um boneco.
Segundo Beatriz, esse processo começa com pequenos desenhos, dos quais um é escolhido e transformado em projeto técnico - elaborado em um ou dois dias. "Depois o projeto vai para a oficina do grupo, onde o tempo de fabricação varia dependendo do tamanho e da complexidade do boneco. Uma marionete média, por exemplo, como a da mesa, demora cerca de um mês para ficar pronta, com cerca de oito horas de trabalho diário", detalha.
Além de marionetes (manipuladas com fios), há bonecos a tringle (semelhantes, também necessitam de fios, mas incluem uma haste metálica fixada na cabeça; sua movimentação é mais brusca, menos "doce") e outros cujas técnicas sequer têm nome - como os intrigantes personagens de "Giz", de tamanho maior e manipulados com o ator em cena. "Vamos desenvolvendo de acordo com a necessidade do espetáculo, do tema", justifica Beatriz.
O Giramundo trabalha ainda com técnicas de luva, de balcão (manipulação feita sobre mesa), de mochila (semelhantes aos bonecos gigantes de Olinda, mas com hastes para movimentação dos braços) e outras.
"Quisemos trazer uma mostra bem completa para o público conhecer essa diversidade de técnicas, de formas e materiais, e perceber a presença versátil do boneco, não apenas no teatro", completa a diretora. "Temos aqui bonecos de espuma, de fibra, isopor, couro", contabiliza.
Novidade
Apesar da atuação intensa e regular, o Giramundo não é diferente de outros grupos artísticos que precisam das leis de incentivo à cultura e de políticas públicas direcionadas ao setor para manter seu trabalho. "É uma luta", resume Beatriz.
Além dela, seu marido e também integrante do grupo Ricardo da Mata e o diretor Ulisses Tavares vieram a Fortaleza para a montagem da exposição e apresentação de "Pedro e o Lobo", espetáculo mais apresentado da história do Giramundo.
Também dentro da programação, no dia 26 (domingo) haverá a palestra "Processo de Montagem Teatral", que irá demonstrar como são elaboradas as montagens.
No fim da entrevista, Beatriz adiantou ainda uma ótima notícia: em novembro deste ano o Giramundo volta a Fortaleza dentro do festival Sesi Bonecos do Mundo, com um dos espetáculos recentes de seu repertório, "Alice no País das Maravilhas" e o projeto "Música de Brinquedo 2", com o Pato Fu. Desejamos desde já: voltem sempre, com a família toda.

Fique por dentro

Montagem é clássico reeditado

A versão para bonecos do espetáculo reforça, com imagens, a ideia central da versão musical original de Sergei Prokofiev: compartilhar com as crianças a estrutura elementar de uma orquestra, seus principais timbres e grupos de instrumentos. O Giramundo optou pelo marionete a fio e sua ampla gama de movimentos e possibilidades de expressão. Os cenários foram substituídos por desenhos em um quadro negro, as vozes dos personagens surgem ao vivo e o plano do palco é o do chão, mesmo nível dos pequenos espectadores. Tanto o espetáculo quanto a palestra têm o propósito de aproximar o espectador do ofício do marionetista e de sua realidade prática, enquanto o principal objetivo da "Mostra Mundo Giramundo" é a formação de plateia e criação de um espaço de reflexão crítica sobre o teatro de bonecos através de atividades multidisciplinares.

Programação

"Mostra Mundo Giramundo"
De 24 de agosto a 21 de outubro, na Caixa Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema). Visitação: terça a sábado, das 10h às 20h; domingo, das 12h às 19h. Classificação: Livre. Gratuito
Espetáculo "Pedro e o Lobo"
De 24 a 26 de agosto e de 12 a 14 de outubro, às 17h. Classificação: Livre.
Ingressos: R$ 16 (inteira) e R$ 8 (meia). Vendas: 2 horas antes de cada espetáculo.

Palestra "Processo de Montagem Teatral"
Dias 26 de agosto e 14 de outubro, das 18h30 às 19h30, no teatro após cada espetáculo. Classificação: Livre
Diário do Nordeste

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