III Feira do Cordel Brasileiro acontece na Caixa Cultural Fortaleza neste fim de semana

Arte de Eduardo Macedo
Gênero da literatura que remonta ao século XVI, o cordel insere-se, sobretudo, na cultura popular, como uma extensão natural da oralidade. Elaborado sob o formato de rimas, cada qual com suas inúmeras particulares, o gênero impresso nos folhetos tornou-se, à época, a única forma oficial de comunicação. No Nordeste brasileiro, especialmente, a literatura de cordel sempre teve a sua importância e, apesar das crescentes e visíveis inovações tecnológicas, ainda mantém-se firme. Exemplo recente foi o Espaço Cordel e Repente, que integrou a programação da 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, encerrada no último domingo, 12, no Anhembi.
"O espaço é uma cria da Praça do Cordel, da Bienal Internacional do Livro do Ceará, que tem sido, ao longo de várias bienais, um grande sucesso de público e crítica", resume o escritor, editor, cordelista, quadrinista e ilustrador Klévisson Viana. "O público sempre valorizou muito a literatura popular, e as escolas estão redescobrindo esse tesouro cada dia mais. O meio acadêmico e a mídia também têm percebido o valor dessa manifestação literária e, por essa razão, editoras de várias partes do País têm procurado editar textos de literatura de cordel. É importante dizer que milhares de brasileiros aprenderam a ler através dessa literatura", contextualiza.
Bráulio Tavares profere a palestra Imagens da Ficção Científica no Cordel (Leonardo Costa/ Divulgação)
Bráulio Tavares profere a palestra Imagens da Ficção Científica no Cordel (Leonardo Costa/ Divulgação)
Natural de Quixeramobim, no Sertão Central cearense, Klévisson é o responsável pela curadoria da Feira do Cordel Brasileiro, que, em sua terceira edição, acontece de hoje a domingo, na Caixa Cultural (Praia de Iracema). Iniciativa da Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (Aestrofe), o evento irá homenagear as figuras do 'Rei do Baião' Luiz Gonzaga e do paraibano Leandro Gomes de Barros, além de reunir, ao longo dos quatro dias, uma programação de palestras, shows de repentistas e violeiros, recitais e lançamentos literários. O público poderá visitar ainda uma exposição com obras raras e, de quebra, adquirir camisetas e CDs alusivos ao evento.
"Leandro Gomes de Barros é paraibano e autor de inúmeros clássicos dessa literatura. Se fizéssemos uma eleição dos 20 maiores clássicos de todos os tempos, teria de constar nessa lista, no mínimo, cinco obras de Leandro", exalta Klévisson. O autor viveu na segunda metade do século XIX e início do século XX, deixando um legado de quase mil obras publicadas. "Basta lembrar que Macunaíma (de Mário de Andrade) e O Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna) foram inspirados na obra de Leandro Gomes de Barros. Esse ano está completando 100 anos de sua morte", explica o curador.
Na parte de palestras, o destaque será o paraibano Bráulio Tavares, que irá discorrer sobre o tema Imagens da Ficção Científica no Cordel. "Bráulio é um dos maiores pensadores da cultura de nosso tempo, um gênio no trato com a palavra", define Klévisson, contando que, além de cordelista e compositor, o convidado é roteirista de cinema e televisão com nome que consta na antologia dos 100 maiores poetas brasileiros de todos os tempos. "É autor - com o repentista Ivanildo Vila Nova - da música de protesto Nordeste Independente e, para acabar de completar, é especialista em cordel e ficção científica", ressalta o curador, que ainda cita o músico Gereba Barreto e o mestre Bule-Bule, este lançando seu livro Orixás em Cordel, como presenças confirmadas.
O mercado consumidor da literatura de cordel, segundo Klévisson, segue confiante. "Muito embora o país esteja passando por uma época politicamente muito delicada e economicamente incerta, o interesse pela cultura não foi interrompido", avalia. Segundo ele, há muita coisa boa sendo publicada, e o número de leitores aumenta a cada ano. "Uma das coisas boas dessa geração de cordelistas da qual faço parte é que nós estamos, cada vez mais, nos capacitando para ministrar palestras, oficinas, recitais, e isto tem ampliado muito nosso mercado de trabalho. Sem contar que nenhum evento cultural atualmente se considera completo, a exemplo do Festival Vida & Arte, se a linguagem do cordel não estiver contemplada", concluiu.
III Feira do Cordel Brasileiro
Quando: de hoje a sábado, 18, das 14h às 21h; e domingo, 19, das 14h às 19 horas
Onde: Caixa Cultural Fortaleza (avenida Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema)
Entrada franca
Programação: www.facebook.com/IIIFeiradoCordelBrasileiro
Outras informações: (85) 3453 2770 / (85) 3023 3064
O Povo

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