Novo livro de Antônio LaCarne traz inquietações íntimas

por Diego Barbosa - Repórter
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O escritor Antônio LaCarne: "decidi sair da minha zona de conforto", diz, sobre o novo trabalho ( Foto: Filipe Sales )
A carreira literária de Antônio LaCarne começou oficialmente em 2009, quando da publicação de "Elefante-Rei: Poemas B", pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE). Já nessa época, o cearense demonstrava forte inclinação para a poesia e a prosa poética, gêneros que o acompanharam nas demais obras que assinou.
Entre elas, constam "Salão Chinês" (Patuá, 2014) e "Todos os poemas são loucos" (Gueto Editorial, 2017), além de participação nas antologias "A polêmica vida do amor" (Oito e meio, 2011), "A nossos pés" (7Letras) e "Golpe: antologia-manifesto" (Nosotros Editorial), essas últimas publicadas em 2017.
Com uma produção consistente na área, é a primeira vez, porém, que LaCarne se aventura no gênero conto, a partir da recente publicação de "Exercícios de fixação". O novo trabalho saiu neste ano pela A. R. Publisher Editora, de Maringá (PR), e tem ganhado destaque pela qualidade, feito que se traduziu no esgotamento da primeira remessa.
Embora o lançamento em Fortaleza aconteça somente para outubro, o livro já pode ser adquirido através do site da editora (ar-publisher.Miniestore.Com). Segundo Antônio, desenvolver histórias sob outra perspectiva - especialmente no que diz respeito ao gênero - foi uma maneira de dar novo fôlego à sua produção.
"Dessa vez, decidi sair da minha zona de conforto e partir para o conto, muito motivado também por uma revolta pela forma como as pessoas hoje em dia se relacionam, principalmente nas redes sociais. Vivemos em uma espécie de pós-modernidade que oprime e deprime, em que as relações são muito baseadas na questão do alpinismo social e numa espécie de orgulho, que faz com que determinados indivíduos se sintam como que uma entidade, acima do bem e do mal", avalia.
"A meu ver, temos problemas bem mais sérios para resolver nessa vida. Abordo algumas dessas questões no livro", completa, citando aspectos como a sexualidade e o processo de envelhecimento - com toda a complexidade de pensamentos e situações desse período. Esses e outros temas compõem o pano de fundo dos 17 contos do livro.
Subjetividade
Atingindo um alto grau de correspondência com a maneira de narrar de autores como Victor Heringer (1988-2018) - cuja estrutura textual tende a seguir um padrão econômico em palavras e forte em significados -, a escrita de LaCarne é atenta a pormenores e assume uma vestidura sintática elegante para mergulhar nos atravessamentos do cotidiano sob um ponto de vista intimista.
Suas personagens são pessoas comuns, que poderíamos encontrar facilmente na movimentação apressada do dia a dia das metrópoles, o que talvez explique a ausência de nomeação dos lugares onde ocorrem as ações. Poderia ser no quarto ao lado do seu, embaixo da sua cama, na esquina da rua onde mora ou envolvendo algum vizinho. As pessoas, afinal, são um grande emaranhado de "eus".
"No livro, as personagens estão em um constante exercício pessoal, em busca delas mesmas, numa tentativa de se encontrar ou se resolver no mundo", justifica LaCarne, afirmando que o título do livro esbarra nessa espécie de pesquisa da própria identidade, o que estabelece um paralelo inclusive com o ofício de escritor. São impressões a serem fixadas, assim, nas duas extremidades de persona (criador e criaturas).
"Ao mesmo tempo, pela primeira vez tento fugir um pouco do lado confessional, estando mais preocupado em contar uma história - levando em consideração a estrutura narrativa, o espaço em que se dão os conflitos e a própria configuração das personagens, por exemplo - ainda que com alguns indícios pessoais", sinaliza. É uma escrita, portanto, que sangra, no sentido mais simbólico do termo: respinga vida - pulsante, fluida e amarga - por entre as páginas.
O texto é ainda amparado por recursos estilísticos que garantem uma leitura ao mesmo tempo simples e densa, com bom investimento em apresentações rápidas, partindo prontamente para a ação. Esta se dá de forma cuidadosa e quase sempre reserva surpresas pelo caminho, exigindo do leitor um olhar vigilante.
Referências
Ocorre que cada elemento desse ajuda na compreensão das realidades nas quais os sujeitos descritos estão inseridos. Abrindo a coletânea, conhecemos Jorginho em "Cair demais". O personagem é descrito como alguém "mergulhado no precipício existencial das dúvidas", homem isolado cujo mundo é abalado por sucessivos desarranjos emocionais, integrando um dos contos mais interessantes do livro.
Destaque também para "Arlete no vazio", testemunho arrebatador sobre a solidão; "A aranha", que surpreende pela narrativa em crescendo, alicerçada por boas camadas de mistério até a conclusão; "Os gatos", que herda a paixão pelos felinos já celebrada por Bukowski (1920-1994) e Burroughs (1914-1997); e "Lápis de cor", dono de uma mensagem poderosa sobre a afirmação do próprio ser e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre determinados comportamentos doentios na sociedade.
Para costurar essa miscelânea de abordagens, LaCarne comenta que, almejando maiores inspirações, recorre ao que escreveu Rubem Fonseca, Katherine Mansfield (1888- 1923) e Márcia Denser, esta considerada por ele a maior contista viva da atualidade.
"Ainda que nos últimos anos ela tenha se dedicado ao jornalismo político, seu trabalho continua uma referência forte na literatura, principalmente por ser mulher e ter uma trajetória ligada ao feminismo, com histórias que focam a narrativa sob perspectiva feminina", pontua.
O arcabouço que detém, aliado ao talento com as letras faz de Antônio LaCarne um dos nomes mais interessantes da literatura contemporânea cearense e nacional. Um autor que com esse seu "Exercícios de fixação" prova estar um passo à frente também no que se refere à produção de contos. Afinal, seja em versos ou em prosa, faz-se urgente oferecer diferentes angulações sobre o que nos atravessa nesses tempos de silêncios que dizem muito e solidões que apontam um misto de realidades.
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Diário do Nordeste

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