'O Gume das Palavras' tem sessão nesta quarta, no Porto Iracema das Artes

por Roberta Souza - Repórter
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Benjamin Abras utiliza técnicas advindas das tradições afro- brasileiras
A história de Benjamin Abras com o Ceará não é de hoje. Há três anos, uma participação no Festival de Dança do Litoral Oeste abriu portas para a direção compartilhada do espetáculo "Hadaratte: me coração está aqui", com a Cia Balé Baião, de Itapipoca, consolidando essa aproximação entre o mineiro e os cearenses. Agora, de volta à terrinha, o ator e bailarino assume a tutoria de um novo projeto de Viana Júnior, Gerson Moreno e Pai Mesquita de Ogum - o CorpoCatimbó, que investiga as corporeidades da Jurema -, e aproveita a passagem para apresentar a aula-espetáculo "O Gume das Palavras", nesta quarta-feira (22), na sala de teatro do Porto Iracema das Artes.
A aula é um desdobramento de uma investigação que ele já realiza há 15 anos - Arawô, o corpo do segredo -, tendo sido aplicada no Brasil apenas duas vezes, e outras mais no exterior. É que como um "artista intermídias", Benjamin já performou e dirigiu na África, Ásia e Europa, tudo ao longo de 23 anos de trajetória.
"As pessoas não vão ficar apenas me vendo apresentar. Elas terão a vivência da pesquisa, que estuda a relação entre as corporeidades afrodiaspóricas e a oralidade", contextualiza ele, convidando interessados a partir de 16 anos.
A transversalidade é um dos eixos dessa pesquisa. Como ator de teatro e cinema, bailarino afro tradicional e contemporâneo, diretor de dança e teatro, poeta, ensaísta, dramaturgo, artista visual, cantor e compositor, seu trabalho se vale da constante hibridação de linguagens na criação de uma obra de arte contemporânea.
As técnicas advindas das tradições afro-brasileiras propõem a desconstrução de um pensamento que folcloriza a cultura africana no Brasil. "Existe esse discurso de que o africano veio pra cá sem nada, mas ele veio vestido da cultura dele. O nosso corpo é como um templo de resguardo da nossa memória. Temos uma biblioteca dentro de nós", diz Benjamin, descendente de africanos e libaneses.
Musicalidade
O recorte da apresentação em Fortaleza será a presença do banto em Minas Gerais. "A aula trabalha muito na direção de uma busca dos nivelamentos, da presença da corporeidade a partir da voz. Especificamente aqui, vou trabalhar com as corporeidades mineiras", evidencia o artista. A intenção é, segundo ele, evocar na memória da voz a corporeidade dos sons, e a partir deste contato desvelar os deslocamentos internos que fazem do movimento uma via de escrita da oralidade.
Nesse sentido, a música é uma ferramenta indispensável, por isso a vivência contará com a participação da musicista Thamily Braga, acompanhada de um violoncelo; além do próprio Benjamim com uma gunga, típica das festas de moçambique, congado e reisado de Minas Gerais, e tocada por meio da dança.
"Nesse estudo, sendo eu das tradições do Candomblé, Umbanda, Capoeira e do reinado de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, vou tentando fazer a compilação de caminhos técnicos. Trago melodias de músicas que compus para o trabalho e busco muito trabalhar com musicalidades diversas", explica Benjamin.
Uma das exigências feitas para aqueles interessados em participar da aula gratuita é o uso de roupas brancas. "O branco é uma cor que tem presença muito forte dentro da diáspora africana. Essencialmente, está ligada a várias vibrações e traduz a união de várias cores. A ideia, portanto, é para que a irradiação dessa energia tenha uma particularidade maior na experiência de cada pessoa, invocando a homogeneidade de corpos".
Mais informações:
Aula-espetáculo "O Gume das palavras", com Benjamin Abras.
Dia 22 de agosto, às 19h, na Sala
De teatro do Porto (R. Dragão Do Mar, 160, Praia de Iracema). Classificação: 16 anos.
Traje: roupa branca. Gratuito.

Diário do Nordeste

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