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"Todas as Crônicas" documenta a produção de Clarice Lispector para a imprensa

por Dellano Rios - Editor de área
Clarice Lispector, no alto, e uma de suas obsessões como cronista, o jovem compositor Chico Buarque de Hollanda, para quem escrevia cartas abertas
Organizado pelo escritor norte-americano Benjamin Moser, "The Complete Stories" (New Directions, 2015, EUA) foi um sucesso de crítica e conquistou espaços generosos na imprensa de língua inglesa. O livro reunia 85 contos, traduzidos por Katrina Dodson, e reforçava a investida internacional dos entusiastas de Clarice Lispector (1920 - 1977). Ucraniana naturalizada brasileira, ela é um monumento literário no País, mas, até bem pouco tempo, era conhecida apenas por um seleto número de leitores estrangeiros, em sua maioria pesquisadores. A situação começou a mudar com a publicação de "Why This World" (2009), biografia escrita por Moser, um clariceano que depois ajudou a editar as novas traduções dos romances da autora.
Reunir os contos de Clarice Lispector em um único volume faz sentido no território em que ela é pouco conhecida. No Brasil, é diferente: a autora tem uma legião de admiradores, sempre em expansão; e suas coleções de contos, bem com romances e obras para o público infantil, são constantemente reeditadas. Ainda assim, o furor clariceano tornou "The Complete Stories" num sonho de consumo de muitos leitores, realizado pela Rocco - a casa editorial da autora - na forma de "Todas as Crônicas" (2016). O projeto gráfico do design norte-americano Paul Sahre foi seguido à risca.
Agora, a editora brasileira acaba de transformar aquele livro no primeiro de uma série. O segundo volume é o recém-lançado "Todas as Crônicas". Fácil apostar numa devoração voraz do mesmo. As crônicas da autora são menos difundidas e mais esparsas. O conteúdo inédito em livro também é robusto: são mais de 60 textos que, até então, só estavam disponíveis em revistas e jornais que circularam há mais de 40 anos.
"A ideia foi do filho da Clarice, Paulo Gurgel Valente. Ele não é apenas o herdeiro dela; ele atua como um gestor da obra. Sua proposta era a de fazer uma livro similar ao 'Todos os contos', que facilitasse a consulta", conta Pedro Karp Vasquez, organizador do volume. "Como o outro, 'Todas as Crônicas' tem um aspecto duplo. É interessante para o leitor-fã, porque é bonito, com capa dura, sobrecapa... É um item colecionável. E, sobretudo, interessa ao pesquisador, porque tem reunido, no primeiro, todos os contos que ela escreveu e, neste, todas as crônicas", explica.
A edição de "Todas as Crônicas" reflete esta preocupação com um público-alvo que é duplo. O design de Paul Sahre usa agora uma fotografia da autora feita pelo próprio filho, Paulo. Tudo é disposto de forma clara, ao longo de pouco mais de 700 páginas. As crônicas são ordenadas por veículos e, dentro das seções a eles correspondentes, cronologicamente. A maior parte do material foi originalmente publicado no carioca jornal do Brasil, entre agosto 1967 e dezembro de 1973 (ocupando cerca de 560 páginas no livro).
A ideia também é deixar o leitor não-acadêmico confortável nas páginas do livro. A data de publicação de cada texto, por exemplo, só aparece na forma de uma lista ao fim da obra. Nas últimas páginas também está a palavra do organizador, sobre a concepção e a pesquisa para a coletânea. No prefácio, vai um ensaio de sabor mais literário, em que a escritora Maria Colasanti relembra os dias de JB, quando ajudava a levar as colunas de Clarice para a edição impressa do jornal.
Escritas
"Todas as Crônicas" é um livro abrangente, não apenas pelo intervalo de tempo (uma década de produção constante) e pela quantidade de textos que reúne. O jeito pouco ortodoxo da autora de escrever crônicas garante isso. As colunas do JB, por exemplo, às vezes reuniam mais de um texto. Alguns, com apenas duas ou três linhas. Ora, era segmentos narrativos, incursões meio existenciais; ora, o leitor parece ter aberto um romance ou conto no meio (e o fragmento o fulmina como um raio, um a das características do texto clariceano); ora se comporta como uma pequena reportagem, ainda que radicalmente pessoal e afetada pela presença da física e espiritual da autora.
"Este é a questão fundamental de Clarice como cronista: ela não tem, em nenhum momento, a preocupação de ser uma cronista ortodoxa", afirma Vasquez. "Hoje, a figura do cronista é diferente, mudou muito, mas naquela época, no auge de sua escrita, nos anos 1960, ela dividia espaço no JB com o José Carlos Oliveira e o Carlos Drummond de Andrade. Nessa época, tínhamos na imprensa figuras como Ruben Braga e Arthur da Távora, autores de uma crônica visceralmente ligada à cidade. Clarice tinha uma visão mais abrangente. Ela não se preocupa com o limite entre de gênero, de se isso é crônica ou conto", compara.
Jornalismos
Ler as crônicas de Clarice Lispector leva ao encontro de uma escritora que, nem sempre é tão mística e venerável quanto costuma ser retratada. Por exemplo, em muitos momentos, ela é tão bem humorada que se arrisca pelo território da comicidade. É o caso de sua obsessão pelo jovem Chico Buarque de Hollanda, para a qual escreve diretamente em mais de uma ocasião.
Em um crônica sobre ele ("Xico Buark me visita"), o leitor se vê diante da Clarice entrevistadora. A escritora trabalho em jornais ainda nos anos 1940 e, nas redações, atuou como tradutora, repórter e colunista (com textos direcionados ao público feminino, mas assinando com pseudônimos).
A estranheza das questões, jogo que exige alguém acima da média do outro lado, é a mesma, neste pequeno perfil do então jovem Chico. Por outro lado, é o tipo de texto para o qual a definição de crônica pode ser dada sem problemas. Senão exatamente urbana, com espírito flâuneur, inegavelmente é jornalista a crônica que perfila uma figura de interesse público (um artista famoso) e revela sobre ele detalhes de seu método de criação; ainda deixa entrever algo do cotidiano da autora e de suas relações com o meio artístico/intelectual do Rio de Janeiro da época (fim dos anos 1960). Clarice não se seduz consigo mesma e, mesmo escrevendo em primeira pessoa, chama o olhar para as informações que traz sobre o outro.
Transformação
A singularidade da crônica de Clarice Lispector levou Pedro Karp Vasquez a escrever um posfácio detalhista, que funciona como um guia de leitura ou uma carta de navegação. O texto inclui uma lista de crônicas que a própria autora, mais tarde, classificou como contos. "E não repetimos nada que aparece em 'Todos os contos'", destaca. "Mesmo em vida, Clarice fez isso com alguns textos, ora apresentou como conto, ora como crônica".
"Às vezes, é o contrário: um conto pode virar crônica. E tem esse outro lado, as partes de romances. Alguns trechos, ela identifica assim mesmo: 'trechos 1'. Ela só aponta que é o trecho de alguma coisa, mas não diz do que é. E você vai perceber depois. Quem é familiarizado com a obra vai se dar conta. 'Ah! Isso apareceu no 'Água viva', na 'Maçã no escuro'...' Ela reaproveitava, renomeava esses textos. Algumas vezes, até usava o mesmo título. E muitas não. Ela mudava. Por exemplo, lembro de um: 'Antes da Ponte Rio-Niterói' virou um conto chamado 'Um caso para Nelson Rodrigues. Os títulos são tão distantes que é difícil localizar. É um trabalho meio que de detetive", ilustra Vasquez.
Diário do Nordeste

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