As lições históricas, literárias e íntimas do livro de Isabela Figueiredo

por Edma de Góis - Especial para o Caderno 3
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Há dois meses ou pouco mais que isso, a escritora Isabela Figueiredo ocupou páginas e sites de jornais e suplementos especializados, em ocasião de sua presença na mais recente Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A vinda de Isabela ao Brasil é parte dos desdobramentos da publicação de "Caderno de memórias coloniais" no País neste ano. Antes disso, o público brasileiro conheceu "A Gorda" (2016), obra que também joga com a ideia de autoficção (rótulo descartado pela autora) e que marca em certa medida a sua produção, em que aspectos biográficos respondem por parte da potência dos seus textos. Até aí nada de novo no front, afinal de contas, o jornalismo cultural acaba por também se nutrir das tendências de mercado, sendo as feiras, alguns desses eventos que disparam essas inclinações, muitas vezes em velocidade superior à crítica acadêmica.
O barulho em torno do livro de Isabela, no entanto, parece ter minimizado um componente importante, o fato do livro ter sido publicado em Portugal há quase dez anos, completados em 2019, e mantido recepção semelhante ao longo desses anos. E no bojo da discussão, um outro esquecimento foi sentido: um segundo livro, com roteiro similar, porém ambientado em Luanda, "O retorno", da portuguesa Dulce Maria Cardoso, roubou a cena em 2012, recebendo os louros negados a Isabela Figueiredo. Como explicar então reações tão diferentes para duas obras que remetem ao mesmo tema? E mais, como explicar a comoção do leitor no Brasil, inversamente oposta à leitura dos portugueses ao livro de Isabela?
Faço algumas apostas, todas falíveis, é bem verdade, tentando entender o livro à época do seu lançamento e retomando minha própria experiência de leitura da obra, pela primeira vez em 2011, em edição portuguesa da Angelus Novus Editora, e agora em 2018, da brasileira Todavia. Nesse exercício, me esforço para esquecer a leitura anterior, mas ao menor sinal de lembrança, não do enredo, mas da minha própria leitura e do que ouvi falar do livro, algo em mim aciona resquícios do impacto que ele me causou há sete anos. A diferença é que agora somo isso ao questionamento a respeito da atualidade do livro, que trata sob um olhar quase íntimo as questões raciais em meio ao retorno dos portugueses enviados a Lourenço Marques, hoje Maputo, durante a colonização imposta pelo ditador Antonio de Oliveira Salazar. Em 2011, pouco se falava de racismo em Portugal se compararmos a hoje, desfocando o preconceito para a não disfarçada xenofobia diante da presença numerosa de romenos no país. É como se no enredo cotidiano dos lusitanos, não coubesse o tema, cujas discussões avançaram a passos largos em outros países europeus e também do Brasil nesta década.
Em Portugal, antes de publicar "Cadernos", Isabela Figueiredo já era conhecida pelo blog Mundo Perfeito (novomundoperfeito.Blogspot.Com), página em que os trechos da obra pouco a pouco foram se formando. Para Joana Filipa Passos, doutora pela Universidade de Utrecht (Holanda) com tese sobre estudos feministas e pós-coloniais, a presença na internet demarcou uma diferença fundamental para a recepção da obra. Assim, o livro de Isabela teve um alcance muito maior do que o de Dulce Maria Cardoso, por exemplo, já estabelecida no campo literário português e chancelada pela crítica acadêmica. "Cadernos é tudo, menos a literatura de nostalgia colonial, que existe e alimenta um setor da população portuguesa", avalia.
Além disso, a linguagem empregada na obra, se não causa espanto no Brasil, ainda mais se equiparada à produção literária contemporânea, em seu país de origem soou escandalosa e inadequada e demorou a ser assimilada. É como se a falta de economia no que se poderia chamar "palavrões" ou de pudor para expor, ainda que sob uma lente nebulosa, desejo, sexo e poder, no seio familiar ou do colonizador frente ao colonizado, tivessem posto a perder o trabalho estético da poética de Isabela. Mas isso são águas passadas para a agora autora elogiada como uma das principais vozes da literatura portuguesa contemporânea. Um último elemento para entender, ainda que parcialmente, a recepção da primeira edição do livro em Portugal, o mais óbvio dos motivos aliás e sempre reiterado por Isabela, é a presença dos tais retornados, que se sentiram afrontados com as revelações que a obra fazia.
"Cadernos" tocou em assunto morto, ressuscitou um passado não desejado e apresentou uma versão grotesca da presença portuguesa na África aos que não conheciam a história ou não eram nascidos até a Revolução dos Cravos, em 1975. Resultado: causou alvoroço e ganhou uma série de desamores, enquanto "O retorno", de Dulce Maria Cardoso, foi considerado uma obra primorosa, muito embora quase não se fale dele hoje e tenha tido menor ressonância por aqui (a autora chegou a participar da Flip de 2012 e o livro considerado um dos melhores do ano).
História e tabu
A narrativa rápida, precisa e imagética nos conduz à infância em que Isabela não entendia por que não podia se aproximar das crianças negras. A mesma menina a sua maneira tem suas primeiras noções sobre sexo e observa, com uma mistura de admiração e raiva, o pai corpulento e viril, exemplo de outros homens brancos, em busca de satisfação com as negras, enquanto as mulheres brancas como sua mãe eram escoradas em um lugar seguro e sério da casa.
"Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor de caril", define. Desde seu lançamento, Isabela não economiza o tom quando rememora a sua experiência pessoal de observação da colonização portuguesa em Moçambique. No posfácio da edição brasileira, ela assume que o livro é uma espécie de carma, que carrega consigo e que se mistura com a própria vida. Seus comentários na tentativa de esclarecer a obra acabam, desde 2009, acirrando ainda mais sua posição anti-colonialista frente à figura paterna. Em entrevista ao jornal Público à época por exemplo, disparou: "O colonialismo era o meu pai", o que ainda funciona para os leitores que chegam ao livro pela primeira vez. Loira e filha de pais portugueses, Isabela nasceu em Moçambique, onde viveu até os 12 anos quando foi enviada, sozinha, para viver em Portugal. Chegando lá, a jovem descobriu o descompasso entre ser africana e filha de portugueses retornados. Se em África, ela era a branca filha do colonizador, em Portugal era africana, filha de retornados, o que já lhe garantiria olhares tortos onde fosse. Sem falar que, em1975, a visão que se tinha era que colonos brancos e negros viviam pacificados em Moçambique, na contramão das absurdas e cruéis situações de racismo que ela jamais esqueceria. É nesta posição de deslocamento que a escritora se forma, fomentada pela experiência da criança que olhava incômoda para a crueldade portuguesa com os negros, tão bem expressa na figura do seu pai, descrito no livro como "paternalista" e "castigador".
Releitura
Duas leituras de "Caderno de memórias coloniais", separadas pelo tempo, podem perfeitamente falar da incrível capacidade da literatura de despertar nossa imaginação. Não há um mesmo livro a ser lido, porque jamais somos os mesmos e os dispositivos da literatura parecem saber disso. Em 2018, a obra, que ganhou posfácio da autora, contando da experiência de visitar Moçambique 42 anos depois, e prefácio de Paulina Chiziane e José Gil, ganha potência, emocionando em alguns trechos como da primeira vez. E isso me faz lembrar Umberto Eco ao confessar ter se apaixonado novamente todas as vezes que releu "Sylvie", de Gerárd de Nerval, ao longo de 40 anos, "como se o tivesse lendo pela primeira vez". Por que somos capazes de nos emocionar, talvez até mais, em uma segunda leitura?
A releitura de "Caderno" me permitiu pensar numa ideia iluminada para os dias que vivemos hoje, o de que no ato de leitura algo "tornar-se presente" por meio de atmosferas e ambientes que nos tocam fisicamente. A isso, o professor da Universidade Stanford Hans Ulrich Gumbrecht chama "Stimmung", noção em que o que está em questão não é a representação de realidades extralinguísticas, nem o sentido, muito menos a interpretação, mas uma certa substância capaz de nos afetar diretamente, corporalmente até, podemos dizer. Esta experiência, disparada pela literatura, aciona nossa imaginação e nos permite projetar novos mundos, estar na pele do outro, viver situações que na vida "real" talvez nem quiséssemos viver. É ela que permite darmos desfechos diferentes para releituras de um mesmo texto ou preferimos o livro à sua adaptação para o cinema ou o teatro. No ato de leitura, a obra ganha sentido em movimento e diferentes modos de interpretação a depender de quem o conduz. Mas o principal é que ela é capaz de nos afetar a revelia de tudo isso.
No caso da leitura brasileira de "Cadernos", é inevitável falar que a empatia parte da nossa alusão a nossa própria escravidão posta em revista, nosso passado colonial, como se ao olharmos o caso de Moçambique, fôssemos lançados diante de um espelho. Ou seja, uma afetação que se dá por uma experiência histórica com pequenos ou ínfimos pontos de intersecção. Isabela Figueiredo oferece a possibilidade desse percurso em um texto de confissão e dor, redenção e culpa, prestação e acerto de contas com a figura do pai, escrito de memória e carne e posto na obra como a própria corporalidade portuguesa na África. Advirto que o livro ganha uma nova potência independente do tempo e do espaço de leitura, porque nos move para um lugar ao mesmo tempo desconhecido e tão familiar para nós. É nessa contradição que ele arrebata o leitor brasileiro, digo por mim que o reencontrei para uma leitura inédita como se sete anos não tivessem passado.
*A autora é jornalista e doutora em Literatura pela Universidade de Brasília
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Diario do Nordeste

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