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Em novo livro, filósofo francês Frédéric Gros atualiza as bases do pensamento anarquista ao defender a desobediência como valor democrático

A tese é controversa: diante da autoridade constituída, é preciso desobedecer.
Eis a ideia-síntese do novo livro de Frédéric Gros. Filósofo francês e professor do Institut d'études Politiques de Paris, o pesquisador inverte os polos do debate sobre a crise nas democracias modernas, sugerindo que a obediência está na raiz dos impasses da contemporaneidade.
Em Desobedecer, ensaio recém-publicado pela editora Ubu, herdeira do espólio da Cosac Naify, o pesquisador situa a obediência como "antiutopista", "pragmática", "responsável", "antipassional" e "compromissada".
Para o francês, diante do agravamento das desigualdades de renda global, esgotamento ambiental e recrudescimento da intolerância, a obediência se matiza, dividindo-se em submissão, subordinação, conformismo e consentimento - todas igualmente maléficas.
De partida, o autor interroga: "Por que é tão fácil chegar a um acordo sobre o desespero da ordem atual do mundo, mas é tão difícil desobedecer-lhe?".
Em sua análise, Gros assegura que o pensamento ocidental historicamente classificou a desobediência como uma forma de "rusticidade selvagem" e de "expressão da bestialidade", clinicamente condenada como desajuste e socialmente rejeitada como contravenção.
Alvo recorrente de sanções e coerções, o indivíduo incorrigível e recalcitrante, afirma o filósofo, é aquele "incapaz de se submeter às normas do coletivo" e diante do qual os "aparelhos disciplinares confessam a sua impotência".
Escola, fábricas, exército, polícia: todos os mecanismos de controle requerem uma base de obediência e acordo tácito que resulta não no aprimoramento do processo democrático, mas na sua debilidade e asfixia contínuas.
Especialista em Michel Foucault, cujo pensamento explora os regimes de exercício do poder e os modos de resistência, Gros contra-argumenta que a desobediência é que é natural e não o seu contrário.
Segundo ele, o estado de não-aceitação produz uma crítica da democracia capaz de revitalizá-la.
Não se trata, portanto, de perguntar por que as pessoas rejeitam normas em face das quais opõem uma resistência, mas de entender por que a obediência se converteu em peça vital de articulação das instituições sociais.
Nesse ponto, Gros recorre ao exemplo de Henry David Thoreau (1819-1862), escritor cuja recusa a leis norte-americanas que considerava inaplicáveis (como a cobrança excessiva de impostos) lançou as bases do movimento ambientalista e de desobediência civil, mais tarde empregado por Gandhi.
De acordo com o filósofo, desde Hannah Arendt a normalidade e a obediência assumiram um caráter "monstruoso", passando por uma profunda revisão histórica e política.
Esse guinada conceitual deu-se sobretudo após a 2ª Guerra Mundial, quando a máquina de extermínio nazista começa a ser escrutinada e suas engrenagens, desmontadas.
Em 1961, durante o julgamento de Adolf Eichmann, um dos arquitetos da "Solução Final", Arendt cunha a expressão que se tornaria exemplar desse fenômeno: a "banalidade do mal".
A pensadora alemã de origem judia se referia ao aspecto ordinário da matança, a seu caráter cotidiano e a sua concretização etapa por etapa, numa frieza de cálculo.
Havia no planejamento e na engenharia do holocausto uma noção de banalidade cujo principal ingrediente era a obediência - os carrascos não estavam ali a assassinar judeus, mas a cumprir ordens do alto comissariado nazista.
Reside aí, portanto, a principal contribuição do livro de Gros: em meio a turbulências políticas e a governos como o de Donald Trump, a dissidência de pensamento e a discordância radical podem restituir humanidade à coletividade e jogar alguma luz na resolução dos problemas da atualidade.
Desobedecer, de Frédéric Gros
Ubu Editora
224 páginas
Preço: R$ 45,72
O Povo

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