Livro reúne receitas de pratos cearenses e memórias

por Diego Barbosa - Repórter
Cléa Valle
Cléa Valle: novo livro vem com edição cuidadosa, com ilustrações e glossário ( Foto: Thiago Gadelha )
As panelas fumegando do alto do fogão à lenha do avô remetem ao aroma de comida boa, feita com capricho. Ao mesmo tempo, também otimiza a reconstituição de uma singela cena: uma garotinha com as mãos apoiadas em um anteparo para tentar saber de onde vinha o cheiro de frango que consumia o olfato e invadia todos os cômodos da casa.
Quando trazida à superfície, a lembrança evocada por Cléa Valle do tempo de infância é certeira: conduz-nos imediatamente ao ambiente da cozinha, traduzindo o espírito que a pesquisadora cearense carrega na memória. Na visão dela, é sempre tempo de valorizar esse espaço onde vão se avolumando não apenas sabores e sensações, mas histórias e toda uma fortuna de afetos.
"O mundo cresce por causa da cozinha", opina. "As melhores conversas e relações que desenvolvi foram nesse cômodo, muito mais do que na sala, por exemplo. Essa ideia, inclusive, é o centro do livro: a questão da cozinha atraindo as pessoas". A obra à qual a autora se refere é "Trivialíssimas - A saborosa comida do Ceará", sua mais recente empreitada editorial depois de "O de comer no Ceará", em 1981, e "Os sabores do caju na cozinha", em 2005.
Ainda sem previsão de lançamento, o livro pode ser adquirido com a própria Cléa no valor de R$ 35. Nele, estão dispostas 100 receitas que contemplam a comida tradicional cearense - do feijão caseiro à peixada, passando pelo pirão de leite e o cuscuz. Tudo muito nosso.
A obra é dividida em três módulos: "O sal que salga o dia a dia", com um panorama sobre o cozimento de carnes vermelhas, molhos, massas, peixes e mariscos; "O lado doce do cotidiano", onde ganham destaque bolos, biscoitos, pães e refrescos; e "Do trivial ao essencial", aprofundando questões sobre frutas, hortaliças e ervas, além da conservação, administração e elaboração de alimentos.
Narrativas
O que mais atenção no virar de páginas, porém - e é aí que reside o valor memorialístico do livro - são as historietas que Cléa, hoje com 80 anos, usa para dar dimensão do quanto a cozinha sempre ocupou lugar central em sua trajetória de filha, neta, mãe e avó.
Assistente social pós-graduada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a autora acumula experiência em pesquisa e oferece aos leitores uma visão do consumo e produção alimentícios a partir de um recorte pessoal, investindo em poemas e crônicas reveladores de uma rotina familiar atenta àquilo que põe sobre a mesa.
Não à toa, o texto de introdução começa com "Houve um tempo em que pais e filhos sentavam-se à volta da mesa para conversar enquanto a panela da sopa fumegava na chapa do fogão; houve um tempo em que a galinha da canja era pega viva no quintal enquanto a meninada brincava de amarelinha debaixo do cajueiro; naquele tempo, os amigos mais chegados passavam direto pela sala e só paravam na cozinha, atraídos pelo aroma inconfundível do picadinho com quiabo? Ah, bons tempos aqueles!".
"Uma das motivações para esse trabalho foi o fato de amar muito a minha terra e achar que boa parte do pessoal daqui não se preocupa em trazer à tona o que há de bom em nossa cultura, incluindo a culinária. Durante toda a minha vida, desde menina, fui muito atenta a isso, o que me fez escrever mais de uma obra sobre o assunto", justifica.
Em campo
Ela recorda que aprendeu os primeiros passos na cozinha acompanhando a mãe e a avó no preparo da comida que alimentava a família de seis irmãos. O investimento em documentar pratos cearenses veio anos depois, quando iniciou uma pesquisa ao retornar à Capital - até então morava em Brasília, onde sempre foi muito elogiada pelo desempenho no fogão.
"Quando estava lá, preparava os jantares na minha casa fazendo questão de usar comida típica do Ceará para que todos ficassem conhecendo. Nisso, fiz um caderno, onde tudo que ia fazendo, anotava. Em determinada ocasião, o Doutor Manuel Eduardo Pinheiro Campos (Manuelito Eduardo), gestor da Secretaria de Cultura e Desportos no Ceará à época, estava na cidade e me convidou para escrever um livro sobre a culinária cearense", recorda, contando o início da saga.
Daí, não parou mais, empreendendo uma verdadeira aventura pelos espaços gastronômicos da cidade, adentrando restaurantes, botequins e até casas de família, aguçando os sentidos e saboreando os gostos que fazem parte de nossa identidade.
A curiosidade também deverá ser o ingrediente principal de outros dois projetos inéditos de Cléa: um sobre os chefs de Fortaleza e outro sobre a comida preparada no interior do Estado, descobrindo preparos típicos do maior número de municípios que conseguir visitar.
Até lá, fica o convite, através de "Trivialíssimas", a um refinamento do paladar a partir da trivialidade culinária que tanto diz sobre nós.
INFO
Diário do Nordeste

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