Macunaíma chega aos 90 anos explorando a força da oralidade

Macunaíma, de início, causa certa estranheza. Extenso, múltiplo e fragmentado, o seu vocabulário custa a ser absorvido nas primeiras páginas: a variedade de neologismos, mitos e construções inusitadas assusta e, capítulos depois, desperta o riso no leitor. Com humor e inventividade, a ortografia "às avessas" de Mário de Andrade encontra seu deleite na dicção oral: reunindo expressões indígenas, negras, europeias e outras tantas vozes que encontrou pelo Brasil, Macunaíma é um retrato da língua brasileira em suas multiplicidades.
Há 90 anos, Mário de Andrade colocava "a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente". Na poesia, no conto, na crítica literária e na pesquisa musical, o escritor era muitos: "Eu sou trezentos... sou trezentos-e-cinquenta", escreveu no seu Remate de Males, livro de poemas de 1930. Autor também de Paulicéia desvairada" e "Amar, Verbo Intransitivo", Mário buscava, a todo custo, "desgeograficar" sua língua vernácula.
Por isso, a narrativa de Macunaíma marca a própria evolução da língua portuguesa no Brasil, com toda a sua formação marcada pelo "roçar de outras falas e saberes". Na polifonia do discurso desse anti-herói, o autor constrói o índio imperador do Mato Virgem - que se diverte com lendas e crenças, mas que também se encanta com a fala erudita, apesar de às vezes não compreendê-la. "O experimentalismo de Macunaíma brinca com diversos jogos semânticos, linguísticos e temáticos", como explica Claudicélio Rodrigues, professor de Literatura Brasileira da UFC.
Para Claudicélio, Macunaíma absorve o lúdico e o coloquial (e às vezes o escatológico) para explorar uma "fala nova". O pra no lugar do para; o si no lugar do se; sube ao invés de soube. Uma abundância de "senvergonhas" e "sencerimônias" dividem espaço com construções inusitadas como "sobessubindo" e "pensamentear". Uma língua, em suma, cheia de viço: dona de si e de suas eternas possibilidades. "Macunaíma é uma montagem lúdica, criativa e artística, porque brinca o tempo todo com falseamentos da linguagem", explica.
Com um estilo antropofágico que se alimenta de variadas linguagens e estilos, Mário exalta uma língua brasileira pouco visitada pelos poetas anteriores à geração de 22. Rodrigo Marques, professor do curso de Letras da UECE, explica que o modernismo foi um momento de mudanças no papel da língua brasileira dentro das manifestações literárias. "Com os escritores modernistas, a busca por uma língua nacional aconteceu de modo muito inesperado, a começar pelo afastamento daquela língua ibérica, erudita e longe do falar do povo".
O erudito, assim, divide espaço com o popular, o urbano com o rural e o literário com o oral, formando uma substância que se traduz na própria fala brasileira. Considerado o grande romance do modernismo brasileiro, Macunaíma mergulha em uma extensa experimentação verbal, passando por diversas formas de pensar o Brasil explorando as nuances da cultura popular. "Macunaíma é uma das realizações mais bem elaboradas e radicais de toda essa miscigenação cultural, porque protagoniza uma completa subversão da língua", define o Rodrigo.

"Filho do medo e da noite", Macunaíma nasce no fundo do mato-virgem, como uma criança birrenta e de mente ardilosa. "Ai que preguiça", pronuncia repetidas vezes. Passa sua infância em uma tribo na Amazônia e, na vida adulta, apaixona-se por Ci, a Mãe do Mato. Após a morte do filho de ambos, Ci sobe aos céus e vira uma estrela. Triste por também perder a sua amada, Macunaíma guarda um amuleto, chamado "muiraquitã", única recordação de Ci. No entanto, ele perde o objeto e, para recuperá-lo, o anti-herói viaja para São Paulo com seus dois irmãos. Na metrópole, ele conhece Venceslau Pietro Pietra e vive os conflitos de uma cidade envolta pela industrialização.
Mário de Andrade já no prefácio deixa o aviso ao leitor:em Macunaíma é um livro "todo ele de segunda intenção". Passando pela desmistificação do herói e pela mitificação do anti-herói, o autor aventura-se pelo cômico e trágico, o delírio e o real, o nacionalista e crítico. na figura de Macunaíma, uma gramática do falar brasileiro.

O Povo

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