Nos 10 anos da morte de David Foster Wallace, tradutor de 'Graça infinita' diz que autor 'criou novo tipo de beleza na prosa'

Caetano Galindo falou ao G1 sobre o escritor americano. Para ele, 'brilho verbal não perdeu nada da atualidade' e 'livro dolorosíssimo investiga solidão, dependência, vício, carência, amor e desamor'.

O escritor americano David Foster Wallace (1962-2008), autor de 'Infinite jest', cuja morte completa dez anos nesta quarta-feira (12) — Foto: Divulgação/David Foster Wallace Books
 
O escritor americano David Foster Wallace (1962-2008), autor de 'Infinite jest', cuja morte completa dez anos nesta quarta-feira (12) — Foto: Divulgação/David Foster Wallace Books

"Estava sentado aqui mesmo onde estou agora. Na frente do computador. Quando minha mulher recebeu um email de uma ex-aluna com a notícia. E me avisou. Eu só lembro de ter primeiro desacreditado. E depois travado. Levantei e fui até o piano, que é o que eu faço pra botar o cérebro em ordem... pra tentar aceitar..."
O escritor e tradutor Caetano Galindo consegue recordar detalhes do que aconteceu em 12 de setembro de 2008. Foi o dia em que morreu David Foster Wallace. Nesta quarta-feira (12), faz exatamente dez anos que o cultuado autor americano cometeu suicídio, aos 46. Era (e ainda é) um dos mais inventivos nomes da literatura mundial das últimas décadas.
Também professor de Linguística Histórica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Galindo traduziu para o português a obra-prima "Infinite jest", originalmente lançada em 1996. Com 1.144 páginas e 1,499 kg, o romance saiu no Brasil apenas em 2014. O título é "Graça infinita" (Companhia das Letras).
Nesta conversa com o G1 por-mail, Galindo descreve como "hiperativa", "ansiosa" e "ruidosa" a voz de Foster Wallace.
Para o tradutor, essa voz estava 'decidida a extrair dessas características uma nova forma de beleza", numa linguagem que "pode ser considerada um triunfo estético". Foster Wallace teria se dinstinguido "por uma maneira mais profunda, mais 'real' e mais honesta de olhar a condição humana, seu tempo, seus problemas".
No ano que vem, a mesma editora planeja soltar no Brasil a obra póstuma de Foster Wallace, "The pale king", romance inacabado que ganhou aqui o título de "O rei pálido". Quem traduziu foi justamente Galindo.

Leia, a seguir, a entrevista:

 
O escritor, tradutor e professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em foto de 2014 — Foto: Kate Griffin/Divulgação
 
G1 – Se o David Foster Wallace foi 'a voz de sua geração', como afinal soa essa voz?
Caetano Galindo – Hiperativa. Ansiosa. Ruidosa. E decidida a extrair dessas características uma nova forma de beleza.
O escritor, tradutor e professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em foto de 2014 — Foto: Kate Griffin/Divulgação
"Ele não nega o mundo, o excesso de dados, de informação, e consegue devolver uma linguagem que aceita isso tudo e pode ser considerada um triunfo estético."
G1 – Por que David Foster Wallace virou quem virou: este escritor tão cultuado, tido como gênio? A que se deve o sucesso (entre críticos, fãs)?
Caetano Galindo – Eu acho a coisa técnica realmente de segundo plano. Ele diferia de todo mundo pelo mesmo motivo pelo qual escritores de hoje, como [o norueguês Karl Ove] Knausgaard e [a italiana Elena] Ferrante, podem se distinguir. E pelo qual se distinguiram escritores anteriores, como Joyce ou Tolstói. Por uma maneira mais profunda, mais "real" e mais honesta de olhar a condição humana, seu tempo, seus problemas. Por um comprometimento ético mais intenso. E pela coragem de derivar desse olhar a literatura necessária para a sua expressão.
G1 – Em um texto de 2014 para a revista 'piauí', você escreveu: 'Sim, ele [Foster Wallace] sempre escreveu (assim, no miúdo, no nível da frase, da invenção verbal) melhor que quase todo mundo'. O que significa isso, na prática?
Caetano Galindo – A principal qualidade da prosa dele é o permanente potencial de invenção, de deslumbramento.
"Ele diz até as mesmas coisas que os outros podem dizer de um jeito novo, perfeito, inédito mas, depois que você leu nele, inevitável. Daí ele ter gerado até imitadores. Ele criou um novo tipo de beleza na prosa, que desobedece os cânones de Proust, de Henry James e até de Thomas Pynchon, o escritor com quem ele mais se parece."
As frases dele são confusas, complexas, ramificadas, com uma mistura de vocabulário de tudo quanto é nível, mas sempre caracterizadas por esse elemento de "surpresa", de "pasmo" pro leitor.
 
G1 – Quem nunca leu 'Graça infinita' pode querer saber: 'Com relação a temas e estrutura narrativa, o que o 'Graça infinita' tem de tudo isso?'. Repasso a pergunta.
Caetano Galindo –
"'Graça infinita' é uma das mais profundas investigações de solidão, dependência, vício, carência, amor e desamor. Isso por baixo da superfície, que tem assassinos cadeirantes, hamsters mutantes, uma sociedade de gente tão feia que anda coberta por um véu. O livro é dolorosíssimo e, por isso mesmo, necessário. Pra te fazer ver certas partes de você mesmo e dos outros."
Sobre estrutura, bom... o livro já influenciou muita coisa.
"Tem gente que vê por exemplo o primeiro episódio de 'Breaking Bad' como repetição da estrutura do 'GI' ['Graça infinita'], onde há uma primeira cena que parece totalmente incompreensível e absurda, até você ler o resto do livro e poder voltar àquilo."
Mas é claro que ele não "inventou" esse recurso. A estrutura em forma de triângulo de Sierpinski, que ele mesmo mencionou (e que eu comento aqui).
Ou o fato de que o livro desenvolve laboriosamente dezenas de tramas centenas e páginas e deixa TODAS (à exceção talvez de UMA) exatamente no momento anterior ao da decisão!
Capa do romance 'Graça infinita', do americano David Foster Wallace (1962-2008) — Foto: Divulgação/Companhia das Letras
 
Capa do romance 'Graça infinita', do americano David Foster Wallace (1962-2008) — Foto: Divulgação/Companhia das Letras

G1 – O 'Graça infinita' tem 22 anos mas pode soar (in)felizmente bastante atual. Geralmente se diz isso a respeito dos temas abordados. Agora, e com relação ao texto mesmo? Você já traduziu gente como James Joyce, Thomas Pynchon, T. S. Eliot, Lou Reed e Bob Dylan. Existe um ranking de dificuldade nisso aí? Se sim, em que lugar o David Foster Wallace entra nisso e qual a maior dificuldade para traduzi-lo?
 
Caetano Galindo 
"A prosa, o brilho verbal do Wallace não perdeu NADA de atualidade. Ele continua mais recompensador nesse quesito do que quase todo escritor ativo. Muito mais do que a Ferrante (que eu adoro) e o Knausgaard, por exemplo."
Em termos de dificuldade, a prosa dele seria muito difícil de traduzir, não fosse o fato de que quando eu sentei pra traduzir a primeira página de "GI", eu estava havia quase dez anos lendo tudo que ele escreveu, relendo, lendo sobre... eu vinha lidando com aqueles problemas antecipadamente, pensando alternativas... eu escrevi pastiches de Wallace... aí eu estava "treinadinho"... :)
"Mas, no fundo, eu sempre repito que a maior dificuldade pra traduzir "GI" nem foi a prosa (até por essas coisas que eu mencionei) mas sim a necessidade de habitar durante dias a fio a mente de viciados, depressivos, suicidas... e de habitar aquelas mentes com a intensidade suficiente pra gerar alguma 'verdade' no texto final. Você tem que 'viver' aquelas coisas por dentro."
G1 – Para os fãs, pode ser bem fascinante a angústia do David Foster Wallace, a personalidade dele, o jeitão, até a aparência e as roupas. Ao traduzir, você ficou tentado a estabelecer relações entre a personalidade do autor e a obra dele?
Caetano Galindo – Sim e não. É desejável não fazer. Mas difícil. A coisa do suicídio por exemplo: é nítido que esse dado alterou a leitura de certos contos dele. Mas será desejável?
"Por outro lado, não acho interessante o culto da personalidade nesse nível, de imitar roupas e atitudes de certo autor. Ainda mais que se tratava, talvez até mais do que a 'média', de uma pessoa com profundos problemas, não apenas 'internos'."
"Os depoimentos recentes de Mary Karr, ex-namorada dele, colocam a figura dele, em tempos de #MeToo, numa luz nada agradável. Porém, como diz a Clare Hayes-Brady numa entrevista esses dias, ele escreveu obsessivamente sobre misoginia, sobre violência contra a mulher, sobre 'homens hediondos'..."
 
"Logo: fiquemos com a obra, que foi o que ele deixou, e que era a arena em que ele, de novo com uma sinceridade rara e difícil, abordava e tentava elaborar até seus mais profundos defeitos pessoais."
G1 – Você se lembra do 12 de setembro de 2008, dia da morte do David Foster Wallace?
Caetano Galindo – Ah, sim. Estava sentado aqui mesmo onde estou agora. Na frente do computador. Quando minha mulher recebeu um email de uma ex-aluna com a notícia. E me avisou. Eu só lembro de ter primeiro desacreditado. E depois travado. Levantei e fui até o piano, que é o que eu faço pra botar o cérebro em ordem... pra tentar aceitar...
G1 – Você se lembra da primeira vez em que leu o David Foster Wallace? Sua primeira impressão foi boa, assim, de cara? Ela mudou depois de traduzi-lo?
Caetano Galindo – Lembro. Eu comecei por "Infinite jest". O primeiro capítulo não me pegou. Mas quando eu terminei o segundo, que é todo ele uma loooonga descrição de um viciado esperando a pessoa que vai levar maconha para ele, e que era a coisa mais nervosa, obsessiva e circular que eu já tinha lido... aí eu já estava preso.
E, sim. Traduzir sempre tem esse efeito. O que é ruim fica pior depois do processo. E o que é bom fica ainda melhor. Porque você teve que desmontar a máquina. Teve que ver o texto nu.
G1 – Em post de 13 de abril de 2017, você escreveu que acabava de terminar sua tradução de 'The pale king', citando 'cerca de três anos', 'mais e um milhão e trezentos mil caracteres'. O texto, você diz, é 'uma coleção de fragmentos inter-relacionados', 'um gigantesco conjunto de cacos'. O tem de atraente aí?
Caetano Galindo – "O rei pálido" não é um romance inacabado como "Almas mortas". Não é uma linha interrompida na metade.
Ele estava trabalhando segundo o mesmo método que gerou "GI". Criando histórias mais ou menos independentes, cenas longas, com personagens recorrentes. Apenas depois é que surgiria algum esboço de "trama" pra unificar tudo aquilo.
O que nos restou do livro são alguns fragmentos menores e outros muito extensos, mas todos eles razoavelmente independentes.
"Uma coisa que não se diz com frequência é que no fundo DFW era um contista. E mesmo um romance imenso como 'GI' é na verdade um painel meio frágil composto de histórias independentes e interrelacionadas das mais diversas maneiras."
"Ler o 'RP' é como ler uma coleção de contos que tem os mesmos personagens reaparecendo. E uma coleção de contos extremamente bons."

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