Pular para o conteúdo principal

Setembro marca celebração da poesia em língua portuguesa no Rio

Tenho tudo / guardo sempre / vem o tempo / leva tudo / nada fica / mas a vida é ingrata / talvez seja eu a mais ingrata / gosto do meu tudo / me apego com carinho / assim é o tempo que passa / a vida que segue / trazendo na alma / a juventude perdida / que um dia não amei e nem zelei / hoje, gosto do meu tudo / e guardo com carinho.
O poema é de Lindacy Meneses, ex-diarista de 60 anos, moradora da favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, que deixou tudo para se dedicar exclusivamente à literatura e à poesia. “Para se aperfeiçoar na literatura é muita caminhada, você tem que se dedicar muito”, afirma.
 
Abertura do 5º Encontro de Poetas da Língua Portuguesa, no Palácio do Catete, zona sul da cidade. Na foto a poeta Lindacy Meneses.
Abertura do 5º Encontro de Poetas da Língua Portuguesa, no Palácio do Catete, zona sul da cidade. Na foto a poeta Lindacy Meneses. - Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ela integra o grupo Sarauzeiras Oníricas e participa do 5º Encontro de Poetas da Língua Portuguesa, que foi aberto nessa sexta-feira (31) no Museu da República, no Catete. A organizadora-geral do encontro, Mariza Sorriso, destaca que o único pré-requisito para participar do evento é ser poeta. “Não precisa nem ter tido publicação. A gente tem pessoas famosas, pós-doutores, PhDs, mestres, e tem também o sapateiro, o pedreiro, a empregada doméstica”.
Tudo começou em 2013, quando Mariza foi a Lisboa fazer o pré-lançamento de um livro e conheceu poetas portugueses. Surgiu a ideia de fazer o encontro e em 2014 ocorreu o primeiro deles, em Lisboa, com poetas do Brasil, de Portugal e Angola. De lá pra cá, o evento cresceu e chegou a Maputo, em Moçambique. Segundo ela, ele ocorre em várias cidades, numa grande celebração da língua portuguesa.
“Este ano começa no Rio, depois vamos para Olinda e Recife, dias 14 e 15, e Lisboa de 20 a 23, onde haverá o lançamento da antologia. Depois vamos para Angola, no dia 29. A intenção é unir mesmo, integrar, trocar cultura. Dentro do português temos muitas variações. Nas antologias, muitas vezes a gente precisa colocar nota de rodapé para entender”.
A cada encontro é publicado um livro com poesias dos participantes. Os poetas fazem passeio por pontos importantes da literatura no centro do Rio, como a Academia Brasileira de Letras, o Real Gabinete Português de Leitura, as confeitarias Colombo e Itajaí e a Biblioteca Nacional.
Neste sábado, a programação no Museu da República terá a palestra "A importância da integração dos poetas de língua portuguesa para a literatura", do professor Luiz Otávio Oliani, além de atividades culturais, apresentação musical de ritmos lusófonos e a leitura de poesias.
“Não sabia que escrever sofria tanto”
Lindacy diz que entrou para o mundo da literatura a fim de contar a sua história. Filha de uma prostituta, ela se viu abandonada aos 7 anos de idade após a morte da mãe, no Recife. Não se adaptou à casa do irmão e veio parar na casa de parentes no Rio de Janeiro, tendo que começar a trabalhar aos 9 anos como empregada doméstica para ajudar no sustento da casa, depois que a mãe adotiva se separou. Foi obrigada a deixar os estudos ainda criança.
Em 2012, ouviu no telejornal um convite da Festa Literária das Periferias (Flup) a poetas e escritores que tivessem contos e poesias para publicar. “Eu não era nada e não tinha nada, mas pedi pra minha filha me inscrever porque eu queria contar a minha história”, lembra. “Mas não era só ir lá e contar e minha história que alguém ia escrever e eu ia sair com o livro pronto, como pensei. Era uma oficina literária e tive que fazer um texto sobre o Rio de Janeiro, eu nem sabia o que era texto, minha filha me explicou. Eu escrevi, minha filha mandou, depois de um tempo me chamaram, eu fui selecionada para participar”.
Lindacy foi acompanhada do marido à Flup, no Morro dos Prazeres, e se apaixonou pelo ambiente literário. “Eu falei que era iletrada, eu sei ler e escrever, mas muito pouco. Eu não entendia o que as pessoas falavam, mas meu marido me apoiou. Fiquei encantada com aquela festa toda. Passaram a tarefa e, em casa, desenvolvi o conto. Depois, na reunião tive que falar sobre como eu escrevia, acharam ótimo, maravilhoso. Me aplaudiram pela minha força de vontade”, lembra emocionada.
Ela não parou mais de escrever e resolveu deixar de trabalhar depois de ter um ataque epilético, que atribui à ansiedade gerada pelo processo de escrita. “Eu comecei a ficar naquela ânsia de querer escrever, voltei a estudar, mas as dificuldades são muitas. Minha mãe adotiva tem problema no pé, então eu tenho que fazer tudo, o marido alcoólatra, uns netos que ainda moram lá em casa, me dando trabalho. Mas aí eu fui, nessa ansiedade de querer aprender, de querer fazer tudo, e tive um ataque epilético. Coisa que nunca aconteceu, sempre fui saudável. Acho que foi a ansiedade, que era demais. Eu comecei a escrever e comecei a sofrer. Não sabia que escrever sofria tanto, dá uma emoção, uma coisa, tem hora que até choro”.
Agora, Lindacy Meneses está escrevendo a sua história, além de contos e poesias, e é uma das integrantes da Antologia Comemorativa do 5º Encontro de Poetas da Língua Portuguesa, livro que reúne trabalhos de 135 poetas de sete países. A publicação será lançada hoje no evento.

Agência Brasil

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

O Natal em Natal (RN), a capital potiguar fundada em 25 de dezembro de 1599

Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto 'O Natal em Natal'.
Considerada uma das maiores e mais bonitas do Brasil, a Árvore de Natal instalada no bairro de Mirassol encanta a natalenses e turistas. (Alex Regis/ Secom Natal)
Os moradores da capital do Rio Grande do Norte têm um motivo a mais para se alegrar e vivenciar esta época do ano. Afinal, eles celebram o “Natal em Natal”. Aliás, a capital potiguar recebeu este nome devido a data da sua fundação: 25 de dezembro de 1599. Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto “O Natal em Natal”, promovido pela prefeitura municipal. Ao todo, segundo a prefeitura, são mais de 40 eventos que contemplam dança, música, teatro, audiovisual, artesanato, gastronomia e outras manifestações culturais.
Na zona sul da capital, foi acessa, no dia 3 de dezembro,  a tradicional “árvore de Mirassol”, com 112 metros de altura, ornamentada com enfeites nos formatos de …

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Por Diego Barbosa,  Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas. Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem da…