A MISERICÓRDIA - Dom José Delgado

Aprendi a ver os problemas do padre isolado com imensa compreensão.
 Foi um verdadeiro noviciado para o meu episcopado.

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Deus é misericórdia. A delicadeza divina do Pai se traduz de mil formas em gestos que deixam o homem espantado.


Tive um colega, mais velho do que eu vinte anos, que terminou unido a mim no ministério para a vida e para a morte. Comigo trabalhou seis anos em Campina Grande e oito anos inteiros comigo viveu, debaixo do mesmo teto, em Caicó. Era o auxiliar que não sabia se negar a nada em qualquer hora, anda que lhe pedisse as coisas mais do seu desagrado. Estava sempre às minhas ordens para tudo. Inteligente, alegre, esportista, e, sobretudo, dedicadíssimo aos enfermos, dizendo a cada instante: este é o caminho da minha salvação, espero que a misericórdia de Deus para comigo seja o prêmio da minha misericórdia para com os moribundos. 

Pelos enfermos fazia as viagens mais penosas. Fazia-as em espírito de penitência, iluminado pela ideia de Deus o trataria misericordiosamente na hora da morte.

Em 14 anos, aprendi desse irmão lições preciosas. Dentro de sua ideia de atrair a misericórdia, seu coração se dilatava, seu amor para com os homens crescia admiravelmente. A contrastar com seu temperamento de fogo, seu caráter sanguíneo e seus nervos vibráteis, era de uma quase ternura feminina no trato com as pessoas que o distinguiam com a amizade. Lembro-me de como se relacionava com os meus irmãos, irmãs, com minha própria mãe através de cuidados deles comigo em assuntos que triam ficado inteiramente desconhecidos de todos e de cada um se não fora a amizade com que via os meus problemas, de saúde em particular.

Você andou se metendo em minha vida junto aos meus familiares, reclamava-lhe eu e ele só fazia sorrir, procurando esconder o seu zelo e dedicação. Sabia respeitar a minha maneira de ser e inspirava-se sempre no mais autêntico espírito de fraternidade e estima.

Muitas vezes o defendi em sua incorrigível ingenuidade. Era uma criança na boa fé, embora tantas vezes o houvessem enganado. Ao perceber a traição e o dolo enchia-se de tamanha raiva que custava apaziguá-lo. Passado aquele momento de ira, voltava a mais exuberante comunicabilidade, usando de uma generosa disposição de servir que a todos encantava. 

Certa vez, viajando com um parente em estrada poeirenta, atrás de um caminhão que não dava passagem ao carro em que se encontrava, apanhou o revólver do companheiro e atirou no pneu do dito caminhão. O motorista vendo-o exacerbado e vermelho como um camarão apenas pediu perdão da indelicadeza cometida. Era um homem impetuoso e, nas horas comuns, um meninão expansivo e folgazão.

Sua fé era de um humilde bretão, suas fragilidades humanas o deixavam algumas vezes arrasado e cheio de temores da morte e da eternidade. Levado pelo receio de viver sozinho, sem nenhuma pessoa que o assistisse, renunciou à Paróquia onde era queridíssimo e pediu-me para ser meu coadjutor. Quando me tratou do assunto, pela primeira vez, recusei-me alegando menor experiência e idade muito inferior à sua. No ano seguinte, às vésperas do retiro do clero, entregou-me uma carta de seis laudas, onde me colocava ao par de seus problemas de consciência e dizia-me que era uma obra de misericórdia tê-lo comigo. Jurava nunca me decepcionar e cumpriu a palavra até à morte. Restituí-lhe a carta, embora me dissesse na mesma que a guardasse e lhe apresentasse se algum dia me viesse a decepcionar.

Tratei do seu pedido ao Exmo. Metropolita durante o retiro dizendo-lhe apenas que o irmão alegava problemas de consciência no pedido que me fizera. Imediatamente, fomos atendidos e eu tive o coadjutor que não merecia, mas necessitava.

Agradeço a Deus a oportunidade que me deu de conhecer problemas graves na vida de um sacerdote autêntico, mas incapaz de viver sozinho numa paróquia interiorana. Aprendi a ver os problemas do padre isolado com imensa compreensão. Foi um verdadeiro noviciado para o meu episcopado. Não fora aquela experiência de trato com um amigo e servidor de qualidades marcantes e de fragilidades tão visíveis e eu não teria tido o tato para tratar os padres e compreendê-los com bondade fora do comum.

Vejo nisso uma especial bondade do Altíssimo. Há coisas que ninguém aprende se a não tocar com mão na vida do próximo aberto e confiante; se nunca se sucederam em nossa própria existência ficaremos a ignorá-las ou a imaginá-las o que, às vezes, é pior do que não as conhecer, pois a imaginação deforma os fatos e as pessoas neles envolvidos.


Deus se faz mais presente a muitos de nós através de um de nós e eu, com o tempo, em virtude do que pude ser para o meu angustiado amigo e irmão no sacerdócio, como sinal da presença de Deus na vida dele, passei a acreditar mais firmemente na grandeza que importa para o homem ser testemunha de Deus na vida dos homens.


DELGADO, José de Medeiros. Testemunho. Fortaleza, 1971.
Bispo de Caicó (1941 a 1951), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1951 a 1963) e Arcebispo de Fortaleza (1963 a 1973).
Bela crônica, enviada pelo historiador,
Padre Gleiber Dantas de Melo, da Diocese de Caicó (RN)

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