AINDA A BÍBLICA VISÃO - Dom Delgado

A participação no sacerdócio de Cristo só lhes acrescenta responsabilidade e pena. Santo Agostinho já o vira, dizendo: “O que tenho em comum convosco enche-me de entusiasmo; o que tenho diferente de vós atormenta-me, enche-me de tremor”. 

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SEJA-NOS permitido continuar na mesma linha de contemplação bíblica, agora com o propósito de considerar o lugar do bispo, como o do Papa, que preside o Colégio Episcopal na Igreja, que é o Povo de Deus.

OS QUE ocupam os postos superiores na Hierarquia da Igreja, no governo do Povo de Deus, felizmente gozam da dignidade máxima: a filiação divina e a participação no sacerdócio universal. A participação no sacerdócio de Cristo só lhes acrescenta responsabilidade e pena. Santo Agostinho já o vira, dizendo: “O que tenho em comum convosco enche-me de entusiasmo; o que tenho diferente de vós atormenta-me, enche-me de tremor”. Cito-o de memória. Ele falava da filiação e dignidades divinas, comparando-as ao seu múnus de pastor e bispo.
O BISPO, com efeito, é o servidor dos servidores. Antes de tudo, é o servo dos padres e dos religiosos. Sua tarefa de amor na Igreja deverá primar pela atenção dada aos que ocupam os postos imediatos e diretos de serviço aos fiéis. Ainda bem que o Espírito Santo os acompanha passo a passo. Nisto, aliás, se descobre a grandeza do trabalho específico deles e do bispo, como do Papa. 
UTILIZAREI as palavras do arcanjo São Gabriel, ao transmitir a mensagem de Deus à Maria e explicar-lhe como se cumpririam os desígnios do Altíssimo em relação à sua missão. !Não temas, Maria... o Espírito Santo descerá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,30.35). O bispo em particular tem que se considerar qual pálida imagem da Virgem. É pai, como ela foi mãe, por obra do Paráclito. Terá também que exercer o governo com entranhas de bondade e de clemência semelhantes às da doce mãe da nova humanidade.
TODA A missão episcopal resume-se na função de amor. Aliás, a missão de amor dos bispos nada tem de original. É a mesma de todos, fiéis e sacerdotes, como dos religiosos e das religiosas. Só que o bispo tem que presidir a vida de amor de todo o Povo de Deus. Mostrar-se mestre. Resolver  todas as dificuldades que impedem a marcha na caridade. Dar-lhe o tom divino, sem o qual ela não crescerá.
TIRANDO os olhos de Maria, só os posso pôr em Cristo, vendo-o como ele próprio se apresenta através das três parábolas do pai, do rei e do sal a que aludi, tratando da dimensão ascética do padre (Lc 15,25-35).
O BISPO deve ser pai, com entranhas de mãe muitas vezes. Pai capaz de inteiro esquecimento de si mesmo, semelhante àquele que se empenha, expondo-se a antipatias e críticas do operário comum do reino de Deus, sabendo dedicar-se aos sacerdotes com um amor todo especial. A mãe da Igreja o requer. O bem máximo dos fiéis e dos religiosos exige do bispo um mais estreito amor aos sacerdotes. Dando-se aos padres de forma extraordinária, o bispo pode muitas vezes não ser compreendido. Vejo-o como o pai que não se contenta acompanhando os operários da vinha, pondo-se ombro a ombro com eles no labor diário, mas deles se afasta, metendo-se no cimo de uma torre, se for o caso, para vigiar pela execução das tarefas do apostolado sacerdotal. 
ESTE PAI, porém, cresce em dedicação. É capaz de maior desprendimento no seu amor, quando se transfigura no rei que, heroico no amor à família da Igreja, não se recusa nem mesmo a enfrentar a guerra, quando os sacerdotes são arrastados a defender o rebanho através de lutas duras e humilhantes.
CRESCERÁ ainda mais a figura do bispo quando o identificarmos com a do Cristo, que de pai e rei converteu-se em sal. O bispo é mais bispo quando reduzido à hóstia de amor. Foi dedicando-se até tamanha renúncia que o Mestre atingiu o fim do amor (Jo 13,1).
EMBORA pela santidade pessoal o simples leigo, o sacerdote e o religioso sejam também capazes de atingir tal altitude na Igreja, ao bispo, por especial função de governo, cumpre caminhar para ela a cada momento, sob pena de não se colocar à altura de sua própria missão.
NUMA perene crucifixão mística de silêncio e oração, o bispo encontra, durante a vida, seu lugar no calvário glorioso de Jesus, sem poder, algumas vezes, escapar à ignomínia que a cruz ainda representa para muitos na Igreja.
É, PORÉM, animador saber que assim se completa a paixão e morte do Senhor (Cl 1,24).

DELGADO, José de Medeiros. O homem, o sacerdócio e o sexo. Fortaleza, 1969.
Bispo de Caicó (1941 a 1951), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1951 a 1963) e Arcebispo de Fortaleza (1963 a 1973).

Bela crônica, enviada pelo historiador,
Padre Gleiber Dantas de Melo, da Diocese de Caicó (RN)

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