Dentro da rotina das redes sociais, mulheres dividem as dificuldades e os pontos positivos de expor a maternidade

Marissa Pimenta publica dúvidas e experiências com a maternidade desde a gravidez de Martin, hoje com oito meses
Conciliar rotinas de trabalho, burocracias do cotidiano e ainda cuidar da educação e vida de outro ser humano não parece uma tarefa nada fácil. E de fato não é. Longe dos estereótipos de famílias felizes e sem problemas, algumas mulheres dedicam parte do dia a dia às redes sociais para mostrar que a maternidade recompensa e é bonita. Contudo, além de tudo, é uma questão ainda mais complexa do que se desenha há milênios na sociedade.
Presentes cada vez mais nas redes sociais, criadoras de conteúdo em plataformas como o Instagram optaram por trazer situações reais vivenciadas ao lado dos filhos e companheiros nesse processo de ser e se tornar mãe. Entre os eventos sociais, "recebidos", desfiles e marcas, elas compartilham a ida do filho à escola, a alimentação de uma criança e os questionamentos típicos dessa faixa etária.
Nacionalmente, nomes como os de Thais Farage, Lu Ferreira, Lia Camargo e Carol Rocha são destacados quando o assunto é revelar laços maternos. No Ceará, Edith Gomes, 27 anos, com cerca de 225 mil seguidores no Instagram, protagoniza essa atividade de forma natural. A presença nas redes aconteceu muito cedo, logo aos 18 anos, com um blog. Aos 22, tornou-se mãe e, a partir disso, o filho Yan, 4 anos, veio agregar dentro desse universo.
Tudo aconteceu da forma mais simples possível: com adaptação. "A mulher que é provedora de um lar e assume a responsabilidade de ser mãe, sabe a luta e o quanto acaba abrindo mão de estar mais tempo com o filho. Porém, essa é a realidade, não quero que Yan cresça dentro de uma bolha. Ele sabe de tudo, todas as vezes que eu preciso sair para trabalhar ou viajar", comenta.
Parte do todo
Entre as viagens frequentes e a rotina intensa de fotos e aparições, quem segue Edith vê o pequeno em diversos momentos. "Eu crio o Yan para o mundo. O que compartilho nas redes sociais são consequências da minha realidade, não tinha como ser diferente", justifica ao comentar sobre o processo de explicar ao filho o seu trabalho diário.
"A maior dificuldade é, sem dúvidas, a quantidade de tempo (o que não significa qualidade) e as viagens. A nossa rotina é de uma família normal, deixo e pego ele no colégio todos os dias, ele passa a semana comigo, moramos na nossa casa. Todas as vezes que vou trabalhar, eu aviso. Ele cresceu vendo e vivendo isso".
Quem também vivencia essa realidade é Marissa Pimenta, 26 anos. Gerente de marketing e presença ativa nas redes, a jovem acumula mais de cinco mil seguidores no Instagram. Mostra a rotina do bebê Martin, com quase oito meses, e faz questão de ele estar sempre presente na timeline. Palavras como empoderamento soam com firmeza neste momento. "O feminismo veio ainda mais forte pra mim na maternidade. É muito louco ver de onde parte cada cobrança que paira sobre você só pelo fato de ser mulher, e grávida. Muitas coisas nos são impostas, e a gente não tem de aceitar não. Desde que descobri que estava grávida e comecei a ter alguns questionamentos via internet, vi várias mães se solidarizando e me ajudando".
Ajuda profissional
Enquanto isso, Isa Xavier, 30 anos, pediatra e mãe de dois filhos, possui perfil no Instagram que recebe demandas frequentes de outras mães. Segundo ela, a identificação é outro fator importante. "As pessoas me veem nessas várias facetas e muitas se veem nos mesmos papéis. Eu acabo mostrando, por conta da profissão, como essas mães podem trazer uma alimentação melhor para esses filhos e, além disso, a buscar uma melhoria na vida delas".
Em um meio com tanta exposição, essas mulheres não saem ilesas, seja da ajuda ou do julgamento do outro. De acordo com Marissa, o fato de expor vivências próprias colabora no contato com pessoas na mesma situação: "Conheci tanta gente maravilhosa que só conseguiria mesmo chegar até elas por meio do universo digital".
Edith ressalta que o apoio dos seguidores é constante, mas algumas pessoas a julgam por não entender seu trabalho. Para Marissa, é necessário entender o que se deve partilhar, justamente por conta desse acesso aberto. "Tem sido muito gostoso ter essa experiência 'online' com ele. Não forço a barra. Há momentos que quero registrar, mas que às vezes nem cabe e prefiro guardar".
Isa acredita igualmente no poder dessa parceria. "Engana-se quem acha que a gente não aprende, não ganha nem cresce. Ao divulgar o meu conhecimento como pediatra e as aflições e dúvidas que tenho, como toda mãe, eu vou acabar falando com pessoas que não conheço, e talvez nunca fosse conhecer pessoalmente, e que podem me dar um conselho, uma opinião", afirma.
Dificuldades reais
Ao conciliar trabalho e filhos, tanto Edith, quanto Marissa e Isa ressaltam esse eterno conflito de atender ambas as situações. "É muito difícil você desapegar e voltar à rotina de trabalho, de saídas, sabendo que tem uma pessoinha lhe esperando em casa. Um ser que depende de você e para quem toda uma vida é traçada, basicamente, pela rotina que criam juntos", comenta a produtora.
E é nas redes sociais que boa parte das mães consegue encontrar apoio. Ao visualizar uma rotina fora do padrão e não-romantizada das cores com as quais costumam pintar a maternidade, as mulheres encontram uma rede de suporte para os momentos de dificuldade e partilhar as vitórias.
Segundo dados da Kantar TNS sobre comportamento online de mães no Brasil, baseados no estudo global Connected Life, elas preferem as atividades online. Uma de suas favoritas, com 91% das usuárias, é acessar as redes sociais. São, em média, quatro horas diárias nas telas do celular, dispositivo ao qual elas mais recorrem.
O Facebook, com 91%, é o canal favorito, seguido pelo YouTube, com 78%, e o Instagram, com 47%. Mandar mensagens e trocar e-mails também estão entre as ações online bastante praticadas.
Se o provérbio africano diz que "é preciso uma aldeia para educar uma criança", muitas vezes é no mundo digital que as mulheres encontram essa aldeia em busca de conforto, apoio e compreensão.
Marissa aponta a necessidade de entender que também existem outros fatores na vida: "Se desesperar é normal, se culpabilizar é normal, mas estar desse jeito todos os dias não é saudável e talvez você precise de ajuda. A gente tenta ser a melhor mãe que podemos ser, às vezes não conseguimos, mas gente, tá tudo bem. Aceitem ajuda daqueles que têm amor e carinho por você e sua família".
4 horas
É o tempo, em média, que as mães passam, ao dia, no celular. E olhar as redes sociais é a atividade que mais realizam quando estão conectadas, segundo dados do grupo de pesquisa Kantar TNS

Diário do Nordeste

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