DIANTE DE UMA PECADORA - Dom Delgado

Eu creio que Jesus Hóstia é o Bom Pastor em busca de ovelhas desgarradas.
Eu creio que Deus não despreza a nenhum de seus filhos de boa vontade.

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Os fatos vivos falam muito alto da presença de Deus em nossa pobre vida. Vede-o comigo à luz de uma história em que fui ator no lugar do Bom Pastor.
Narro a referida história com a emoção que nunca me abandonou desde que fui testemunha do que aconteceu. Era mais ou menos o não de 1935 ou 1936. Logo após a Semana Santa. Eu tinha ido à capela do Cumbe, nas proximidades do povoado de Matinha, já na Paróquia de Lagoa Nova, essa vizinha localidade denominada Matinha.
Entre Campina Grande e Cumbe estendia-se 18 quilômetros. Precisamente no meio do caminho, bem perto de Lagoa Seca, hoje Ipuarana, residia um cidadão muito piedoso. Era um aleijado. Não vivia de esmolas. A família e ele mesmo dispunham de algum recurso.
Aquele aleijado era um homem de Deus. Comungava quase mensalmente, aproveitando minha passagem para o trabalho daquela capela rural. Na tardinha daquele domingo, ao passar à sua porta, disse-lhe que, no dia seguinte, na segunda-feira, estaria de regresso logo pelas 10 horas. Ele esperava a comunhão algumas vezes até 1 e 2 horas da tarde, ou seja, entre 13 e 14 horas. No dia seguinte, poderia proporcionar-lhe a vantagem de comungar muito cedo sem que ele se obrigasse a um longo e completo jejum, como era seu costume ao esperar a comunhão.
Regressando, porém, no dia seguinte, encontrei-o à mesa, debruçado sobre um cheiroso prato de fava verde com torresmo. Quase o invejava a sorte, mas tive que lhe manifestar minha estranheza diante de sua estranha atitude.
O pobre homem chorou e lastimou-se, maldisse de si mesmo e atribuiu a fome esquisita que o levara a pedir a mulher que o acudisse, pois não mais tinha coragem de esperar a minha passagem e a comunhão que lhe prometera trazer tão cedo naquele dia. 
Chegou mesmo a dizer que tal fome só poderia vir do demônio. Tranquilizei-o e, sem saber o que dizia para o consolar, fui um profeta. Nada de demônio, meu amigo. Pense antes no possível caso de N. S. Jesus Cristo que eu conduzo no relicário destina-se a alguém aí adiante que, de outra maneira, sem esta sua esquisita fome, não comungaria antes de morrer.
Consolado o meu cliente, parti.
Antes de alcançar o alto do último monte antes de avistar a cidade de Campina Grande, pouco além de uma curva onde, anos depois, capotou um caminhão, matando 11 passageiros vindos da cidade de Esperança, desastre assinalado com uma grande cruz e 10 pequeninas cruzes distribuídas nos dois braços da cruz maior, uma senhora, à frente de uma casinha, tinha acenado para me chamar. O motorista do velho Ford 1929 em que eu viajava era ronceiro e o motorista, embora tivesse notado o interesse da senhora de me falar, subiu de uma vez o dito monte. Lá em cima parou e me informou do sinal que a mulher lhe dera para parar em sua porta.
Desci, mas a senhora fez-me sinal de que poderia prosseguir. Insisti e fui até a casinha da margem da estrada para indagar o que desejava de mim. Pensei de mim para mim, mas sem me lembrar do que dissera ao homem que recusara a comunhão, talvez ali se encontre algum doente.
De fato, existia lá uma doente. Era uma pobre prostituta de 22 anos, tuberculosa em último grau. A dona da casa, sua irmã, disse-me querer que a recebesse no isolamento do Dispensário de São Vicente de Paulo. A doença poderia passar para seus filhos pequenos. Enquanto ela trabalhava no roçado com o esposo, as crianças entravam em intimidade com a doente. Ela já não se governava tão adiantado era o estado da moléstia.
Indaguei logo se a enferma já se confessara e a resposta foi positiva. Sim, ela ao chegar à minha casa, ontem, afirmou que recebera todos os Sacramentos no hospital em Recife.
Pedi para vê-la. Entrei de casa a dentro, a pobre criatura estava cozinhando em febre, a morrer asfixiada dentro de um fumaceiro que se desprendia do fogão de lenha. viu-me, pôs as mãos em sinal de súplica e pediu-me que a confessasse por amor de Deus. Pediu e acrescentou em voz que mal era ouvida, ter mentido para a irmã com receio que a não recebesse em sua casa. Depois a irmã contou-me toda a história da infeliz irmã que fugira aos 16 anos para se casar e fora abandonada pelo indivíduo que a raptou. Voltara para casa mas ninguém da família a aceitou, nem os pais, nem ela mesma, a irmã que me falava, sucedendo o que a pobre nunca pensara, isto é, entregar-se à prostituição.
Voltando a olhar a enferma, vi que o caso era desesperador. Exortei-a, disse-lhe que N. Senhor andava atrás dela, pois aquela hóstia tinha sido recusada em condições muito misteriosas pelo homem a quem eu a destinara a pedido dele na véspera, ao passar na sua porta. 
Após dar-lhe a absolvição, administrei-lhe o santo Viático e ungi-a. Ao concluir a unção dos pés ela já entrega a alma ao Criador. 
Eu creio que Jesus Hóstia é o Bom Pastor em busca de ovelhas desgarradas. Eu creio que Deus não despreza a nenhum de seus filhos de boa vontade. Aquela pobre mulher nunca mais saiu da minha mente. O ministério afervorou-me de tal maneira na fé e a fé na misericórdia divina, traduzida em gesto de infinita bondade de Deus presente em nossos caminhos, firmou-se em mim de tal modo que vivo enamorado dela e não posso deixar de cantar-lhe os meus louvores até morrer.
Cantar-lhe louvores sozinho não me basta. Tenho sede de vê-lo cantado por todo o mundo, pela humanidade inteira.


Resultado de imagem para Padre Gleiber Dantas de MeloDELGADO, José de Medeiros. Pedaços de mim mesmo. Fortaleza, 1973.
Bispo de Caicó (1941 a 1951), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1951 a 1963) e Arcebispo de Fortaleza (1963 a 1973).

Bela crônica, enviado pelo historiador,
Padre Gleiber Dantas de Melo, da Diocese de Caicó (RN)

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