Organizada pelo coletivo artístico Colher, exposição de fotoperformances dialoga imagem e palavra a partir de poema A ladeira, do escritor Paul Celan

As pedras rompem o silêncio da palavra. Nos versos do escritor romeno radicado na França, Paul Celan, elas capturam o movimento do corpo, percorrem os enlaces da vida, provam o gosto amargo da destruição. Fotografia e poesia se unem na exposição Wie man Steine Deutsch lehrt (Como ensinar alemão às pedras), que reúne dez fotoperformances inspiradas no poema A ladeira, de Celan. A mostra tem início amanhã no jardim da Casa de Cultura Alemã, da UFC.
"As fotografias registram uma sequência de ações do corpo em diálogo com as pedras", explica Tércia Montenegro. A escritora cearense, autora de O vendedor de Judas (Ed. Dummar), integra o coletivo que promove a exposição. "A ideia é não apenas promover o diálogo entre imagem e palavra, mas também brincar com as simbologias da poética de Celan", completa. De origem judaica e sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, o escritor enxerga no movimento das pedras um universo simbólico de solidão e resistência. "Quando ele vê a si mesmo como pedra, se coloca também diante de todas as manipulações a que estamos sujeitos, os encontros e desencontros de nossa existência", explica Tércia.
A lírica de Paul Celan traduz a expressão horrorizada da destruição. Enaltecido como o maior poeta de língua alemã do pós-Guerra, Celan transborda na poesia os reflexos de ter vivido de perto os dissabores do holocausto. Suas palavras, em estado de nudez, traduzem certo traço apocalíptico em forma de versos, o que torna o espaço de sua poesia tão hermético quanto impactante. Uma das marcas de sua obra, por exemplo, é a materialização da linguagem. E esse traço aparece na reiteração crescente da palavra "pedra": "Nós pedras/ E cada vez mais redondas./ Mais iguais. Mais estranhas."
fotoperformance
fotoperformance "Como ensinar alemão às pedras"
Construindo diferentes modulações para esta palavra, Paul Celan expressa um vasto mundo interior - mítico e inalcançável. "A pedra de Celan é algo lançado ao acaso, como uma vida arrastada pelo fluxo de um rio, de solidez, mas também de resistência, é uma imagem associada a guerra, ruína, àquilo que agride, que sobra depois da destruição", considera Tércia. Na exposição, cada fotografia é exposta junto a um dos versos do poema, no original alemão, o que, para a escritora, não será empecilho para o entendimento mesmo para quem não compreende a língua.
A exposição é a primeira ação promovida pelo Coletivo Colher, formado há 3 meses. O grupo busca enxergar na arte sua potência de fertilidade e alimento - afinal, o ato de criar é ao mesmo tempo captura e nutrição. "É tanto a coleta que se faz (dos apelos estéticos do mundo) quanto o que depois se oferece como alimento ao público", explica a escritora. A produção artística, que é fruto do trabalho harmonioso de muitas mãos, é resultado de uma parceria entre diversos artistas que preferem o anonimato, para dar lugar à articulação de diferentes linguagens.
A arte é feita para possibilitar encontros e celebrações, e por isso o coletivo nasce com a proposta de lidar com os atravessamentos na arte e valorizar a potencial do trabalho multifacetado. "Os artistas gostam muito de expor a individualidade, mas a gente queria ir na contramão dessa tendência, mostrando um trabalho que esvazia essa linguagem individual e cria uma arte que amarra o interesse do grupo". Para ela, o ofício da escrita é sempre muito solitário, talvez por isso haja tantos autores submersos em vaidades injustificadas. "Dialogando com outros artistas, aprendemos a refazer o trabalho, a começar do zero sempre", considera Tércia.
O Povo

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