Escreve Pe. Jocy - Dom Delgado

No convívio com ele, fui testemunha de atitudes e palavras que me descortinaram toda a amplidão e profundidade do amor-verdade, despido de farisaísmos e maniqueísmos.

A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos e close-upHoje é um nome conhecidíssimo o do P. Jocy Neves Rodrigues, do Maranhão. Fomos companheiros de visitas pastorais. Vivemos horas de mútua colaboração e juntos discutimos muitos problemas pastorais e humanos. Tivemos oportunidade de nos ocupar em comum com a solução de graves dificuldades de irmãos.
Escreveu-me certa vez o que em seguida vos transmito. Jamais me lembraria de expressões que ele reproduz e eu acredito que saíram de meus lábios. Algumas possuem beleza que é do Evangelho. Pertencem, portanto, ao Cristo, não a mim.
Publicando isto, quero dedicar em particular aos padres, o que dentro se encontra e eu não lhes teria dito por mim. Retratam um sentimento que – digo-o diante de Deus – sempre me acompanhou quando trato de assuntos referentes aos meus irmãos da ordem sacerdotal.
Escreve o P. Jocy. 

“Foi D. Delgado quem me proporcionou os primeiros impactos com a Caridade. Antes de conviver com ele, essa virtude, para mim, não passava de atitudes de comiseração, ajudas paternalísticas, indulgência triunfalista. 
“No convívio com ele, fui testemunha de atitudes e palavras que me descortinaram toda a amplidão e profundidade do amor-verdade, despido de farisaísmos e maniqueísmos.
“Só alguns flashes” podem mostrar de que natureza foram os impactos que me atingiram e vulneraram até hoje. 
“FLASH A – A alguém que o criticava por não afastar da direção de uma obra alguém que a levava a um fracasso quase certo. “Prefiro deixar morrer uma obra a fazer uma pessoa sofrer para salvar a obra. Temos o direito de nos sacrificar por uma obra, mas não o de sacrificar os outros pelas obras que fazemos”.
“FLASH B – A um outro que se escandalizava com um telegrama que ele passara dando pêsames a um amigo que perdera alguém com quem vivia em ligação ilícita: “Se ele vivia com ela, é porque queria bem. Se ele queria bem a ela, deve estar sofrendo com a morte dela. O meu telegrama vai dizer-lhe que eu estou sofrendo porque ele está sofrendo. Não conheço sentimentos ilícitos. Quando Cristo se solidarizou com nossos sofrimentos, não estávamos em situação legal”.
FLASH C – A um padre que se queixava do mau proceder de um colega: “Você já celebrou alguma Missa por ele? – “Não, senhor.”. – “Talvez seja por isso que ele está assim”.
“FLASH D – A uma comissão que vinha queixar-se de um padre e começava a desafiar o rosário dos defeitos do padre: “Contem-me as qualidades dele, pois posso aproveitá-las para alguma coisa. Os defeitos não me adianta saber, pois nada posso fazer com eles’.
“FLASH E – Numa pregação: “A maior insensatez é querer construir uma espiritualidade baseada na castidade. Toda espiritualidade deve basear-se no amor. A castidade é simplesmente derivação do amor. Do contrário se reduz a problema animal, fisiológico. Virtude à custa de contenção física, é castidade de jumento. Não é virtude”.
“FLASH F – A alguém que cometera uma falta e se mostrava desanimado. “Tu erraste. Foste imprudente, mas porque amas. Todo amor é imprudente. Amor prudente não é amor verdadeiro, pois uma das leis do amor é o risco. O Amor de Cristo para com a humanidade o levou às maiores “imprudências”. Acabou morrendo daquele jeito por causa de suas imprudências.”
“FLASH G – A alguém que o criticava por ter dado boa colocação a um padre que cometera um deslize: “Este é que precisa de apoio e de carinho. Os outros não têm necessidade de consolações”.
“FLASH I – A uma mãe solteira: “Queira muito bem a seu filhinho. É um presente de Deus e não do diabo. Ele vai ajudar você a ser santa e Deus lá nos seus planos de amor, sabe porque consentiu que você passasse por esta queda dolorosa. Ele ama também seu filhinho e o adota como filho dele. Foi o maior presente que Deus já lhe deu”. (1971) 
Pe. Jocy Rodrigues

Admito poder repetir tudo que aí se encontra. É verdade que em alguns momentos não adianta pregar sermão. Só umas meias palavras de consolação aliviam certas pessoas. Granjeada a amizade e confiança delas, se poderá dar mais alguns passos. Foi o que Cristo fez no trato com a mulher da Samaria (Jo 4,1-45).

DELGADO, José de Medeiros. Pedaços de mim mesmo. Fortaleza, 1973.

DOM JOSÉ DELGADO NO MARANHÃO

Pe. Jocy Rodrigues

A imagem pode conter: 1 pessoaO VIAJAR INCANSÁVEL

D. Delgado percorreu várias vezes todo o território da arquidiocese que abrangia também o território das atuais dioceses de Viana, Bacabal e Brejo.
Usou todo tipo de transporte: avião, lancha, barco, canoa, automóvel, caminhão, caçamba, trator, trem, cavalo e viajou a pé.
Dizia: “só vou a um lugar como padre”. Mesmo nas viagens “administrativas” achava hora para confessar e para atender pessoas que o procuravam para orientação espiritual sem ligar para o cansaço.
Fora ele, certa vez, participar de uma semana ruralista em Pedreiras.
Chegou na véspera da abertura dos trabalhos. Resolveu ir a Marianópolis onde tinha iniciado uma experiência de colonização, a fim de dar assistência espiritual aos moradores.
Algumas horas a cavalo. chegou à noitinha, com o vigário. Reuniu o povo na capela, orou, pregou, confessou e celebrou a missa.
Durante a noite, grande aguaceiro. Os afluentes do Mearim se encheram. O vigário avisou: “senhor arcebispo, não podemos voltar. Os rios estão cheios”.
Ele replicou: “meu padre, os cavalos daqui sabem nadar?”
“Sabem”; respondeu Mons. Gerson.
“Eu também sei”, acrescentou D. Delgado.
E voltaram a cavalo. Os animais atravessaram nadando alguns pequenos rios e eles, nadando com os cavalos. Na hora da abertura dos trabalhos, estavam firmes em Pedreiras. Obs.: A ida foi de caminhão, com Manoel Lopes e a colonização ainda não tivera início.

DOLOROSA AVENTURA

Foi regressando de uma dessas viagens a Marianópolis, desta vez na cheia do Mearim, numa pequena canoa de alumínio, que ele viveu uma dolorosa aventura. 
Numa curva fechada do rio, a canoa virou e os seus passageiros caíram n’água. D. Delgado pôs-se logo a nadar e foi recolhendo pertences boiantes dos companheiros.
Um deles que não sabia nada, foi para o fundo e morreu.
Para o fundo foi também a maletinha que eu lhe emprestara (ele tinha poucos pertences) e dentro dela sua bela cruz peitoral. Não se perturbou com a perda. (Foi com ele que aprendi a não sofrer por causa de coisas.) Conseguiu subir para a canoa que descia o rio, boiando, emborcada.
Os tripulantes de uma canoa que passava recolheu os quatro sobreviventes.
Um outro grande susto D. Delgado passou no lago de Penalva. Violenta tempestade levou de volta a canoa em que ele navegava com outros padres, desfazendo, em alguns minutos, muitas horas de viagem. 
Visitava a zona rural, de povoado em povoado, e mantinha diálogo amistoso e informal com os lavradores. Entendia de plantação e criação como qualquer um deles, o que o fazia sempre acolhido com alegria.
Certa vez, entrou pelo seu “palácio”, em São Luís, um lavrador que o vinha visitar. (A cena era frequente.) Ao ver o homem, D. Delgado levantou-se e exclamou: “seja bem-vindo, seu Manoel”.
“Como vai o povo de Tabocas? Aquela sua vaquinha escapou?”
Ele conhecia o homem, sabia seu nome, o lugar de onde era e os problemas que o afligiam. (“Eu conheço as minhas ovelhas.”)
Nas suas estadias no Rio, para tratar de assuntos administrativos, sempre pregava um ou dois retiros. Acima do administrador estava o sacerdote, o evangelizador.

O MISSIONÁRIO DA PALAVRA

D. Delgado dedicava grande parte de seu tempo à pregação. Nas visitas pastorais só ele pregava e duas vezes por dia. “A obrigação é minha e não boto a minha cangalha nas costas dos outros”.
Pregava teologia e não moralismo e, muito menos, psicologia.
“Os padres e os bispos que dizem ao povo o que deve fazer sem explicar porque, são tiranos”, disse-me ele um dia.
Acompanhei-o em muitas viagens apostólicas. Passou um ano pregando o Pai-Nosso em todos os lugares por onde passava. Fiquei impregnado de fraternidade.
Mostrou-me, um dia, uma carta que recebera de um protestante que, estando hospedado no Hotel Central, em frente à catedral, assistira a uma pregação dele.
Lembro-me deste trecho: “o senhor é o pregador que eu já vi mais parecido com S. Paulo, prega teologia ao zé povinho”.
Não se pode calcular o número de retiros que D. Delgado pregava, cada ano. Em S. Luís, no interior, Rio de Janeiro, no Nordeste.
Ajudei-o várias vezes nesses retiros. Lembro-me bem de um, para jovens, em Matinha, e de uma série de retiros para várias classes de pessoas, inclusive prostitutas, em Viana. 
Conhecedor profundo da vida do povo, ilustrava com testemunhos e “vivências” que produziam nos ouvintes um efeito extraordinário.
Podemos dizer que D. Delgado foi um grande missionário no Maranhão. Pregou em capelas, praças, praias, beiras de rio, onde era possível juntar gente. E o povo simples, sempre sequioso da palavra de Deus, acorria de todos os lados para ouvir o bispo.

EDUCADOR DE PADRES

Pertenço ao número dos felizes sacerdotes que conviveram com D. Delgado. Conviver com ele era aprender muito e sempre. Aprender a ser homem, a ser cristão, a ser padre.
Ele tem o dom de conhecer imediatamente a pessoa. E se põe logo a serviço dela. E começa a atacar os defeitos que a infelicitam.
Sem pena, com rudeza, mas sem humilhar. Penei muito nas mãos dele. Investiu, de rijo, contra minha tendência a faltar com a caridade.
Várias vezes (como me lembro...) me deixou tonto e arrasado. Hoje o bendigo. Como aquilo tudo me fez bem!
O que mais o exasperava era o orgulho.
Ouvi-o dizer mais de uma vez: “impureza, orgulho do corpo; orgulho, impureza do espírito” (S. Agostinho).
Quando a pancada era muito grande ele dizia, no fim: “faço isto porque te quero bem e sei que tu aguentas”.
Quando repreendia (e como repreendia...) os erros ajeitava as mágoas: “tu erraste. Mas foi porque amas e todo amor é imprudente. Amor prudente não merece o nome de amor”.
Obrigado, D. Delgado.

O AMIGO DO PADRE

Quando digo “amigo do padre” quero dizer amigo da pessoa e não do “profissional”.
É incapaz de cultivar mágoa ou ressentimento. Pronto a correr ao lugar mais distante para dar apoio a um padre perseguido ou em crise.
Incansavelmente radicado na esperança. Destemido e pronto a enfrentar e investir contra os poderes que se atreviam a tocar nos seus padres. Sem distinção.
Já como arcebispo de Fortaleza, cada vez que vinha a S. Luís, procurava dar um pulinho no interior, para abraçar seus padres.
Uma vez, fui com ele, num desses pulinhos, ver o Albino em Itapecuru e o Carvalho, em Vargem Grande.
Sabia perder horas e horas conversando com um padre, ouvindo seus problemas, recebendo suas confidências. E como sabia derramar bálsamo nas feridas.
Enquanto foi pastor de nossa diocese, nenhum padre se afastou do sacerdócio... Tinha carinhos de mãe e firmeza de pai para fazer superar as crises.
Uma vez, (quem não se lembra?) ao ler para todo o clero reunido uma carta de um padre que viajara para outro Estado, magoado com ele, prorrompeu em pranto e foi preciso D. Fragoso continuar a leitura.
Compassivo e compreensivo com os fracos.Exigente com os “durões”. Amigo de todos. Dele recebi muitas confidências e nele vomitei muita sujeita.
Obrigado, D. Delgado.

PASTOR DE ALMAS

Era seu título predileto. O número de pessoas que a ele recorria em busca de orientação era incontável.
Nos corredores, na sala, no confessionário da catedral, nos retiros, nas visitas pastorais, à sombra de árvores, em toda parte ele acolhia quem o procurava para um aconselhamento, uma palavra de ânimo. 
E a correspondência pastoral?
Mas, era o confessionário o seu fraco, sua “cachaça”.
Nas visitas pastorais, era, impreterivelmente o último a se levantar do confessionário e ainda saía pescando gente, pelas portas, pela calçada, pela rua, perguntando quem queria ainda se confessar. 
Firme na doutrina, mantinha sua orientação livre de qualquer sentimentalismo estéril. Valorizador do “natural” que conhecia a fundo e acreditava ser transfigurado pela graça.
Nas suas constantes leituras, se mantinha informado de todas as formas de espiritualidade. Mas, o seu forte era mesmo o evangelho, que conhecia profundamente e que aplicava com uma propriedade que era um verdadeiro carisma.
O número de pessoas que encaminhou para a perfeição religiosa só é comparável ao número de matrimônios que ajudou a solidificar ou restaurar. 

In: DELGADO, José de Medeiros. Memórias da Graça Divina. São Paulo: Loyola, 1978.

Bispo de Caicó (1941 a 1951), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1951 a 1963) e Arcebispo de Fortaleza (1963 a 1973).

Bela crônica, enviada pelo historiador,
Padre Gleiber Dantas de Melo, da Diocese de Caicó (RN)

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