Pular para o conteúdo principal

'Já fui muito elogiado pelo que nunca escrevi', afirma Luis Fernando Verissimo

Luís Fernando Veríssimo
Luís Fernando VeríssimoFoto: Divulgação
Nos últimos 20 anos, o escritor Luis Fernando Verissimo diz que viu os cabelos irem embora, algumas ilusões políticas também, e passou a escrever menos. "Sempre me admiro com o tamanho dos meus textos antigos. Não sei se fiquei mais sucinto ou mais preguiçoso."
Algumas dessas mudanças estão condensadas em seu novo livro, "Ironias do Tempo", lançado pela Objetiva. Nele, Adriana e Isabel Falcão selecionam crônicas publicadas na imprensa de 1998 a 2018, todas relacionadas de alguma maneira à passagem do tempo e às mudanças que duas décadas impuseram ao dia a dia.
Estão lá o fim do governo FHC, o início dos anos Lula, a Lava Jato, o surgimento do reality Big Brother e do celular, a navegação por GPS, o futebol por pay-per-view e outros.
Tudo costurado com as linhas que costumam compor a crônica brasileira, feita ao mesmo tempo de literatura, da efemeridade dos acontecimentos e de uma leveza que parece um bate-papo de boteco entre escritor e leitor.
"As crônicas da era clássica, de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Sabino, Sérgio Porto, aquela turma, eram mais literárias e mais bem escritas, acho eu. E podiam ser líricas ou impressionistas sem destoarem demais do resto do jornal. Hoje, a realidade estampada na imprensa não permitiria isso", acredita.
A essa altura da entrevista, Verissimo se desculpa, e diz que a crônica está a caminho de se tornar obsoleta. Sinal dos novos tempos?
"Na China, dizer 'que você viva em tempos interessantes' é uma praga que se roga para o pior inimigo. Acho que estamos vivendo tempos interessantes demais", diz.
Mas, lendo os cerca de 90 textos reunidos no livro, percebemos que o Brasil sempre foi um lugar interessante até demais. É justamente daí que vão aparecendo nas entrelinhas algumas das tais ironias que dão título à coletânea -afinal, o tempo pode até passar para todos, mas há um monte de coisas que não mudam de jeito nenhum.
Não apenas na política ou nos costumes, mas talvez na própria crônica, um gênero que pode se mostrar mais duradouro do que se costuma comentar. "Como dizem que ela é tudo o que é chamado de crônica, então pode ter uma sobrevida, mesmo camuflada de outra coisa", confessa.
Se é o caso dos textões nas redes sociais ou dos memes mais compartilhados da última semana, Verissimo não sabe -embora essa seja uma seara em que ele reina praticamente absoluto, tendo talvez o posto ameaçado só por Clarice Lispector.
Os dois costumam ter frases, análises, pensamentos e avaliações compartilhados a torto e a direito pela rede. Grande parte delas, contudo, não foram, de fato, escritas pelos autores. "Não há o que fazer, que eu saiba, contra esse tipo de coisa. Já fui muito elogiado pelo que nunca escrevi, não estou me queixando. Chato vai ser quando um falso texto meu difamar alguém."
Contra isso existem os livros e antologias, um jeito de driblar as armadilhas do tempo e dizer "olha, isso aqui fui eu mesmo que escrevi".
Mas Verissimo tem outra dica para leitores que não quiserem dar tempo ao tempo e desejarem uma resposta mais imediata sobre a autoria de algo que viralizou nas redes e que esteja assinado por ele.
"Há uma maneira de detectar se o texto é falso ou não: se o Luiz da assinatura for com 'Z', o texto não é meu. Se for contra o Bolsonaro, é."
IRONIAS DO TEMPO
AUTOR Luis Fernando Verissimo
EDITORA Objetiva. R$ 49,90 (208 págs.)
Folha de Pernambuco

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

O Natal em Natal (RN), a capital potiguar fundada em 25 de dezembro de 1599

Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto 'O Natal em Natal'.
Considerada uma das maiores e mais bonitas do Brasil, a Árvore de Natal instalada no bairro de Mirassol encanta a natalenses e turistas. (Alex Regis/ Secom Natal)
Os moradores da capital do Rio Grande do Norte têm um motivo a mais para se alegrar e vivenciar esta época do ano. Afinal, eles celebram o “Natal em Natal”. Aliás, a capital potiguar recebeu este nome devido a data da sua fundação: 25 de dezembro de 1599. Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto “O Natal em Natal”, promovido pela prefeitura municipal. Ao todo, segundo a prefeitura, são mais de 40 eventos que contemplam dança, música, teatro, audiovisual, artesanato, gastronomia e outras manifestações culturais.
Na zona sul da capital, foi acessa, no dia 3 de dezembro,  a tradicional “árvore de Mirassol”, com 112 metros de altura, ornamentada com enfeites nos formatos de …

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Por Diego Barbosa,  Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas. Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem da…