SER E EXISTIR COM - Dom Delgado

*O padre rico vive como se não fosse apenas uma ponte entre o céu e a terra, entre os homens e Deus. Vira uma das ombreiras que deveria ligar à outra.

Dom José de Medeiros Delgado*
Dom Jose de Medeiros Delgado -colotidaNosso século conheceu o mais original e o mais dinâmico revolucionário dos últimos tempos, um intelectual da revolução como poucos vieram ao mundo em todas as épocas da história.
Refiro-me a Emmanuel Mounier, falecido aos 23/3/1950, com 45 anos de idade, fundador do movimento e da revista “Esprit”, na França.
Ensinava que *a maior força da revolução é o povo educado, consciente e ativo*. Excluía as classes e dizia a razão. A massificação da classe é mais poderosa do que aquela do povo. No povo, há defeitos mortais, mas não o deformam tanto quanto às classes certos líderes dominadores e cruéis. Na classes, a ação deles cria a tirania coletiva, raciocinada, planejada, tecnizada e invencível.
Só o partido, quando conduzido da mesma maneira que as classes massificadas por tais líderes, acrescento eu, supera a tirania classista. Minha afirmação alimenta-se do que pude observar na história do nazismo e do fascismo.
Aqueles dois movimentos chegaram a uma influência massificante que penetrou a própria alma de dois povos diferentes, um latino e outro germânico, ao ponto de deixar o mundo pasmado. Mounier não chegou a medir totalmente a catástrofe nazista e fascista. A morte o colheu após o primeiro lustro da vitória aliada. Necessitava de tempo e distância para mergulhar o oceano de destruição causada pelos dois partidos. O fim da guerra estava muito próximo.
Uma gravíssima coisa faz os líderes de classe e de partido atingirem tão grande crueldade, a posse, a soberania e o poder exclusivo sobre os que comandam.
Possuir, sobrepor-se e poder com exclusividade conduzir o povo, é muito mais difícil para os líderes de classe e de partido. Os líderes populares, em geral, são mais poderosos quando pobres, mansos e humildes de coração.
*Pobres, mansos e humildes de coração, sentem-se impelidos a ser e existir com os outros fraternalmente. Descobrem o único caminho de dominar, sem massificar, o amor. Eis o grande segredo da liderança popular, da verdadeira liderança construtiva, libertadora, desenvolvimentista e cristã.* *Os próprios sacerdotes jamais se hão de impor ao povo de Deus, se se afastam um palmo dessa forma de agir. Transformar-se com os colegas numa classe poderosa; fortificar-se dentro da referida classe, enriquecer ou apegar-se de qualquer modo a esta ou aquela posição hierárquica – importará em cair na tentação de dominar o próximo, começando pelos próprios irmãos no sacerdócio.* Escrevo essas reflexões nas vésperas da festa de São José. Para mim ele é o modelo de líder popular sem igual. Não teve sequer uma mulher que pudesse apelidar de sua mulher. Maria era mais sua irmã. José era e existia com ela a serviço de Jesus. Quando, um dia, Nossa Senhora usou de uma linguagem possessória, dando a entender que ela e José possuíam o Menino, por ocasião do encontro, no Templo, Jesus lhes de uma resposta aparentemente dura e humilhante: “não sabíeis que eu me devo ocupar das coisas de meu Pai”?

 Passa a representar somente a terra ou somente o céu e não liga mais nada. É inútil. Pode ser um político, um artista, um líder de classe, mas deixa de ser padre, ponte entre Deus e os homens.* *Não entende mais nada, nem aceita o celibato. Adora ter uma casa própria, mandar em alguma coisa, até no bispo, mas perde a singeleza dos simples, mansos e humildes de coração. Perde a capacidade de influir santificadoramente. Não é mais um sacramento vivo de comunicar a graça, a luz, o perdão e a vida eterna.* Eu devo uma soma de contribuição imensa, primeiro aos meus superiores, depois à minha família. *Fui uma criação dos que me educaram para ser padre e somente padre*. Meu bispo, meus mestres de Seminário, meus colegas e meus auxiliares de apostolado sacerdotal, nunca me impediram de crescer na linha da pobreza, humildade e mansidão. Deixaram-me inclusive sozinho diante de certas dificuldades, acreditando que teria a iniciativa de as superar por mim mesmo e, com tais atitudes, obrigaram-me a me valer da oração, da sabedoria divina e do conselho de algum irmão menor do que eu, fazendo-me cultor da esperança, entregue como ficava a perplexidades sem conta.
Foi assim que cresci em poder de iniciativa e hoje reconheço que Deus não nos quer coletivizados e despersonalizados, nem mesmo nesse maravilhoso tempo do diálogo, da colegialidade, da presbiterialidade, tempo em que todas essas maravilhosas escolas de engrandecimento são controladas pelo princípio da subsidiariedade.
Diálogo, colegialidade e presbiterialidade para despersonalizar, para passivizar, é um mal, não um bem.
Nunca foi tão necessário recorrer ao célebre princípio da subsidiariedade, se a pessoa não é um falso líder, uma falsa autoridade, um usurpador, um tirano classista, partidário ou proprietário das pessoas do seu próximo, como hoje.
Ora, o que define o referido princípio é precisamente isto: não fazerem dos o que um só poderá fazer, não esperar um pelo outro quando sozinho se tem a capacidade de resolver um problema. 
É na obediência desse princípio que se salvaguarda a pessoa e se desenvolve a personalidade própria e alheia.
*Minha família – pais, irmãos, tios, primos e sobrinhos, cunhados e cunhadas – nunca criaram barreiras, nunca dependeram de mim e, assim, deram-me possibilidade de não me preocupar com dinheiro, de não me prender a situações materiais. Foi dessa forma que fui padre e somente padre. Nem proprietário, nem político. Padre e nada mais.* Só de uma coisa sempre tive de me defender: ser independente demais, pairar nas nuvens do ensimesmamento orgulhoso dos que abandonam os pequeninos esmagados pela prepotência de falsos líderes.
A mim mesmo, toda vez que quiseram esmagar ou engolir, encontraram-me vigilante e de braços abertos em cruz. 

DELGADO, José de Medeiros. Pedaços de mim mesmo. Fortaleza, 1973.
Bispo de Caicó (1941 a 1951), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1951 a 1963) e Arcebispo de Fortaleza (1963 a 1973).

Bela crônica, enviada pelo historiador,
Padre Gleiber Dantas de Melo, da Diocese de Caicó (RN)

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