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Vida e obra de Jorge Amado ganham luzes em nova biografia

Jorge Amado era escritor de coragem, afirma Josélia Aguiar em conversa por telefone. Autora da biografia alentada sobre o escritor baiano, a jornalista esclarece: coragem, etimologicamente, é colocar o "coração em ação". E isso o criador de Gabriela, cravo e canela fazia.
Muito jovem, por exemplo, partiu da Bahia a fim de estudar e empregar-se no Rio de Janeiro. Jorge Amado - uma biografia esclarece um mal entendido. A viagem não fora imposição do pai, como se acreditava até agora, mas uma decisão pessoal do escritor, que, encabrestado de amores por Mariá Sampaio, uma noiva deixada na cidade natal, pretendia casar-se em breve.

Outro lance impetuoso de Amado. Antes de completar 30 anos, já havia publicado seis romances e circulado pela América Latina por conta própria, oferecendo a um e outro editor as histórias sobre aquele Brasil visto da Bahia. Interessava-lhe principalmente que fosse lido, e nisso exercia, como diz Joselia, a função de "agente literário e si mesmo".
Esses e outros episódios da história do romancista, a pesquisa de Joselia cuida em desfazer. No curso de 640 páginas, vida e obra de um dos maiores escritores brasileiros do século XX, autor de clássicos como Capitães de areia e Dona Flor e seus dois maridos, ganham contornos novelescos.
Fruto de sete anos de pesquisa, o livro percorre as quase nove décadas do escritor alinhavando política e literatura, duas constantes na trajetória do "imortal" da Academia Brasileira de Letras que também foi deputado e cuja obra foi queimada durante a ditadura Vargas, na década de 1940.
Por meio de documentos, cartas inéditas e arquivos espalhados por Estados Unidos e Portugal, a biografia aclara a relação que Jorge Amado manteve com os modernistas. Desde cedo, o autor de Tocaia grande havia cultivado uma predileção por Lima Barreto, a quem via como um autor genuinamente brasileiro, gosto que o levaria a indispor-se com Mario de Andrade, já então uma "vaca sagrada" na literatura. Para o baiano, escrever era sobretudo falar numa língua popular na qual o País se projetasse.
Outra nuance que vem à tona com a biografia é a filha de Amado. Morta aos 15 anos, Lila, do casamento com Matilde Garacia Rosa e falecida em 1950, é pouco referida na obra ou em cartas do escritor. Um diário guardado por ele, entretanto, sugere que a jovem sempre esteve presente nas memórias do pai. Confira a seguir os principais trechos da entrevista de Joselia Aguiar ao O POVO.
O POVO - Que pedaços da história de Jorge Amado você encontrou e que não eram conhecidos ou estavam mal contados?
Joselia - O retrato do Jorge Amado é o de um autor movido pela paixão, pela coragem, que significa colocar o "coração na ação". E ele era uma pessoa de muita coragem, inclusive para publicar livros ainda "verdes". Toda a produção dele dos anos 1930 era a de um jovem autor, embora ele dissesse que tinha muito carinho por ela. A primeira filha, que nunca apareceu muito nos seus livros, é um assunto sobre o qual ele não fala tanto. É uma filha que morreu. Os bastidores políticos da atuação dele no Partido Comunista Brasileiro (PCB), como ele vai se distanciando do partido, alguns desafetos que ele passa a ter também por causa disso. O Jorge Amado era um stalinista, e há momentos em que o PCB se divide, inclusive sob a liderança do próprio Prestes, que ele havia biografado. Em seguida, depois que ele se afasta do partido, o Jorge passa a fazer uma literatura com mais humor e até mais passagens consideradas imorais pelos comunistas.
Jorge Amado - Uma biografia De Joselia Aguiar
Editora Todavia
Preço médio: R$ 79,90
O Povo

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