LITERATURA SEM PEDIGREE

Prosa, cidade e arte com o escritor Zé Alfredo Ciabotti

Ficaria, por horas, sentado naquela mesa de bar. Sim, a conversa desta edição foi com uma cerveja na mão, notebook na outra e várias histórias, das quais realmente ficaria ouvindo até me perder no tempo. O ofício da escrita tem diversos modos, variados hábitos e incontáveis formas, mesmo com todas as classificações, regras e demais ortodoxias aplicadas, a arte literária ainda tem se transformado da mesma forma que também carrega os anseios milenares das civilizações. O ato de escrever exige e não exige, revela e não revela, faz se necessário e não se faz, como toda criação humana e como toda dúvida existencial. Inegável é o fato de que as histórias conduzem nossas vidas, como linhas costuradas no tecido do tempo, sejam elas contadas em formas de livros ou bate-papos despretensiosos em balcões de bares vazios. E as pessoas que têm habilidades de alinhavar palavras, ditas ou escritas, são as que fazem o tempo parecer apenas um brinquedo conduzindo fatos e ficções e criando universos de sonhos e realidades que podemos viver em qualquer momento. Zé Alfredo Ciabotti é um destes contadores de histórias, alfaiate de contos sob medida, escritor e professor que ilustra o Prosa, cidade e arte desta edição.
MICRO BIOGRAFIA 
AUTORIZADA
Através do extinto Jornal Lavoura e Comércio, começou precocemente sua vida literária, publicou em uma das chamadas do jornal uma poesia sua aos sete anos de idade, foi o marco zero. O menino que, na infância, sempre gostou de redação e escrevia correios elegantes e cartinhas para os flertes da época foi um adolescente que lia muito sem escrever. Retornou às letras já na faculdade onde, com o avanço da internet, mantinha um blog com amigos, publicava semanalmente lá. Inscreveu um destes textos digitais em um concurso de contos e ficou em segundo lugar, entusiasmado com o prêmio publicou ainda alguns livretos que vendia aos familiares e amigos, além dos comércios e bares da cidade. Mesmo de porta em porta não se compara com um vendedor de enciclopédias, mas só porque seus livros eram tão finos que não paravam em pé. Levou uma vida simples, a mãe do lar, o pai marceneiro e uma família grande ao redor, ainda assim não tinha livros em casa, mas os pais o instigavam com os gibis e os filmes locados todas as sextas. A avó Nega e o avô Alfredo, exímios contadores de causos e histórias, fizeram o fascínio pela narrativa crescer de dentro para fora, aflorando a criatividade quando inventava o que tinha sonhado só para entreter a família e sua avó ter um bom palpite no jogo do bicho.

DA VIDA PARA AS LINHAS TORTAS
Muito do que Zé Alfredo Ciabotti escreve é do que ouviu, viu, viveu ou se baseou, geralmente em algo que observou pelos bares e cafés. Seu local sagrado para a escrita é a rua, anda por toda a cidade, sempre caminhando já que não dirige, assim não tem um canto específico para colocar em palavras o que o escritor vira-lata vivencia. A autodenominação de vira-lata vem da figura insignificante, mas que está sempre presente, que circula entre os mundos. Diz que os acadêmicos não o aceitam e também não é bem visto pelos mais populares. Assim, faz seu trabalho de forma independente, é seu próprio editor e vendedor. Gosta de acompanhar os amigos fotógrafos, os que conseguem ter um olhar diferenciado do cotidiano, que conseguem congelar momentos em luz. E falando em luz é assim que define sua família, Bárbara a esposa e o filho Miguel, luzes de seus dias mais escuros, onde se inspira e tenta consertar os erros já vividos. Bárbara ainda é a primeira leitora e a crítica mais sincera, que o faz levar as histórias da vida e da invenção para as linhas tortas da literatura.

ARTE PELAS PALAVRAS E PELOS LEITORES
Mesmo com todos os problemas da literatura no país, o escritor vira-lata acredita no poder da leitura. Sempre escreveu textos curtos, para poderem ser lidos em qualquer lugar, o entretenimento e a formação de leitores é um objetivo constante. A questão não é banalizar a literatura, mas é chegar a todo mundo. Com isto ainda diz que trabalha para sobreviver e escreve para viver. Considerando a arte como combustível que faz queimar o embrutecimento, o endurecimento das pessoas. A arte que liberta, que desliga da realidade, que alforria e emancipa os pensamentos, que faz com que as pessoas tenham a chance de se emocionarem, de se sensibilizarem. Em todas as suas manifestações, mas na escrita, principalmente, entende como um exercício constante de empatia, um processo solitário que quando publicado se transforma em um encontro.

VOLTANDO AS LETRAS
O advento das redes sociais fez com que migrasse para a internet, mesmo ainda com dois livros físicos em execução, pretende lançá-los ainda este semestre, as contas do Facebook, Instagram e Tumblr são onde mais poderemos encontrar seus textos. Já os livros, um deles de poesias e outro novamente de contos, serão lançados pela Editora Subsolo. Voltando às letras aos poucos, depois de dois anos sabáticos, um deles na Europa, vai também dar continuidade a um projeto de jornal literário na cidade, sem data definida. Encontrar as palavras e as histórias de Zé Alfredo Ciabotti são como um encontro com o cotidiano, ilustrando e definindo o que não saberíamos descrever. Um alento, um sopro de poesia, de beleza, de sorrisos soltos por nos entendermos e vivenciarmos em seus contos pontos da vida que nos esquecemos ou deixamos de lado. Das crises de amor que nunca saem de moda até as mais ficcionais histórias de nós mesmos. A arte, a literatura e a vida que vivem e surpreendem obviamente estão nas veias e nos passos do escritor vira-lata, pois não há pedigree necessário para tecer boas histórias.

PERFIL FORA DE LINHA
Zé Alfredo Ciabotti é autor dos livros ‘O amor pode ter fim e outros contos’ (2015) e ‘Coisas de um coração vira-lata’ (2016). Seus textos já foram publicados e premiados em diversas antologias pelo país. Foi membro fundador do grupo literário Cupim e idealizador do jornal literário MUH!, que circulou entre os anos de 2012 e 2013. Acredita nas figuras importantes do amigo Gustavo Palma, que o apresentou grandes obras literárias e cinematográficas e da professora Marise Idaló, que inscreveu sua poesia para o jornal aos sete anos. E ainda de Robson Albuquerque, que o fez conhecer mais do mundo literário independente.

Jornal De Uberaba

Comentários

Mais Visitadas

Babel: Primavera Literária Brasileira anuncia programação – agora também com autores estrangeiros

Um continente e sua escrita

Filme sobre Marighella é resposta artística a cenário político brasileiro, diz Wagner Moura

Nova edição de 'Grande Sertão: Veredas' deve atrair e formar novos leitores