Os cavalos, a última paixão dos novos ricos na China

O County Down Club é o primeiro clube privado da China dedicado aos esportes equestres e à caça.
Cavaleiros chineses e suas montarias participam de um espetáculo em um parque temático de Jiangyin, perto de Xangai, 20 de outubro de 2018.
Cavaleiros chineses e suas montarias participam de um espetáculo em um parque temático de Jiangyin, perto de Xangai, 20 de outubro de 2018. (AFP)

Botas de couro cuidadosamente alinhadas sobre um tapete, um quadro de caça e uma fonte de cavalos de pedra. Não se trata de um castelo inglês, mas sim de um clube equestre nos arredores de Xangai, onde a nova aristocracia chinesa tenta se distinguir.
O County Down Club é o primeiro clube privado da China dedicado aos esportes equestres e à caça.
O empreendimento, que leva o nome de um condado da Irlanda do Norte, foi criado há três anos por Steven Sun, um jovem chinês que se tornou amante de cavalos quando foi estudar no Reino Unido.
A equitação se desenvolveu rapidamente na China nos últimos dez anos, observou Sun. Em um país oficialmente comunista, mas que conta com mais de 600 bilionários em dólares, mais do que nos Estados Unidos, as grandes fortunas buscam agora novas ideias para se distrair e cultivar sua diferença social.
O clube conta com 80 membros que pagam um anuidade de 58.000 yuans (cerca de 8.500 dólares). O dinheiro, porém, não é tudo.
"Esperamos de nossos membros que sejam pessoas cheias de qualidades, com boas maneiras, ou das elites do saber", afirmou Sun, de 32 anos. "Isso permite que nossos membros se comuniquem no mesmo nível".
Com um estábulo que abriga uma dezena de cavalos, o clube dispõe também de uma piscina coberta, um ginásio e até um piano branco. Os contatos que se tecem entre essas paredes são tão ou até mais valiosos que a equitação, reconhece Steve Sun.
"Uma das vantagens é que nossos membros podem se conhecer através de nossa plataforma e se ajudar mutuamente para continuar crescendo", explicou durante uma visita da AFP ao clube.
'Nova experiência'
"Para os pais chineses, a equitação faz parte de uma educação de elite para que seus filhos se distinguam ainda mais nesta sociedade ultracompetitiva", analisou Zoe Quin, ex-representante da LeCheval, empresa que agrupa os principais atores da filial equestre francesa na China.
"Em relação aos adultos, a equitação significa também investimento, viagens, prazeres, atividades sociais, etc. É mais que um esporte, é uma nova experiência para os chineses", resume Quin, que acaba de fundar a WonderHorse, uma empresa que comercializa produtos e serviços relacionados a este setor.
A Associação Equestre China, que pertence ao Estado, não revela os números, mas, segundo a prestigiosa revista britânica Horsemanship, o país possui mais de 1.800 clubes de equitação.
A tendência de crescimento deve continuar, já que Pequim afirmou em 2014 que os esportes equestres precisam ser "fortemente apoiados".
O presidente da França, Emmanuel Macron, entendeu o recado, presenteando em janeiro de 2018 um cavalo a Xi Jinping, presidente da China, durante sua primeira visita ao país asiático.
Mas a cultura hípica chinesa ainda sofre com a falta de especialistas -técnicos e veterinários- e com a pouca exposição midiática, explicou a Horsemanship.
Napoleão a cavalo
A duas horas de estrada de Xangai se encontra o parque "Cidade de água de Pégaso", de temática equestre. Chamado assim devido ao cavalo alado da mitologia grega, o parque tem hotéis, um centro comercial com gôndolas venezianas, um clube equestre e um "Museu da Cultura do Cavalo".
Com mais de 400 cavalos oriundos de todo o planeta, o parque organiza passeios de carruagens e espetáculos semanais em um ambiente "que lembra o Império Austro-Húngaro", nas palavras dos próprios organizadores.
Um retrato gigante de Napoleão a cavalo domina o cenário de um espetáculo no qual cavaleiras vestidas em trajes brancos e tiaras brilhantes conduzem uma carruagem branca.
Tudo isso mostra uma China distante dos anos 1970, quando o país lançou as primeiras reformas que o levaram a se tornar a segunda maior potência econômica do mundo.
"Há 40 anos, a China era muito pobre, era impossível praticar um esporte tão refinado", lembra Shen Houfeng, diretor do centro equestre do parque.
"Mas depois de 40 anos de reformas e abertura econômica, a China viveu grandes transformações. Foi de um país pelo qual ninguém dava bola para um que cativa a todos".

AFP

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