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Em apresentação única e gratuita no Teatro Celina Queiroz, espetáculo homenageia Rachel de Queiroz

Do que mais se pode falar sobre Rachel de Queiroz (1910-2003)? Que é cearense e uma das maiores escritoras do País? Que, entre outras conquistas, tornou-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras? Que, ainda em vida, teve todas as obras reverenciadas, amplamente discutidas e analisadas? Talvez de tudo isso e um pouco mais.
Não se trata de repetir informações, porém. No oceano de referências na qual está mergulhada a produção da autora, as reflexões e perspectivas são intermitentes, o que justifica a profícua quantidade de adaptações, releituras e trabalhos dos mais criativos sobre sua vida e obra. O mais recente deles acontece, em sessão única e gratuita, no Teatro Celina Queiroz neste sábado (9), às 19h.
"Rachel - No Balanço de uma Rede" é uma montagem que parte da trajetória humana e profissional de Rachel de Queiroz não apenas para homenageá-la, mas, sobretudo, oferecer ao público um generoso apanhado do panorama histórico, social, político e cultural intrínseco ao período em que viveu.
"Ela foi um ícone - e feminino, ainda mais - da segunda geração modernista. Dentro de um universo extremamente machista, no qual a mulher estava designada a ser esposa, ter filhos e só, sua figura vem rompendo barreiras, envolvendo, em torno dela, muita efervescência cultural", sublinha Jadeilson Feitosa, diretor do espetáculo em tributo à escritora.
Segundo ele, a ideia para a apresentação da peça - cujo foco maior recai sobre a ruptura provocada pela influência e alcance da literata - surgiu a partir de uma solicitação da Academia Cearense de Letras Jurídicas (ACLJUR). "Nós, da Blitz Intervenções, fomos procurados com o intuito de montar um trabalho que falasse da mulher na sociedade como um todo, em diferentes segmentos. Então, lembrei de um texto que foi escrito pelo também advogado Caio Benevides, o qual tive oportunidade de montar em 2010. Propus e eles toparam", explica. O espetáculo tem apoio da Fundação Edson Queiroz e do Instituto dos Advogados do Ceará (IAC).
Projeção
A retomada da pesquisa é sublinhada na fala de Valdetário Andrade Monteiro, presidente da ACLJUR. Na visão dele, a entidade incentivou a reapresentação da peça para que mais pessoas pudessem ver e vivenciar Rachel de Queiroz. "Me preocupa termos uma escritora com essa magnitude e não darmos, por vezes, o verdadeiro foco. A intenção, assim, é lançar luz sobre uma magnífica mulher que, ainda no século XXI, tem sua literatura muito atual, especialmente no que toca ao tratamento dos relacionamentos humanos".
Esse fator, não à toa, faz o gestor dimensionar que a obra da cearense tem muito de jurídico, já que o Direito, sob o véu da justiça, trabalha exatamente com fatos do dia a dia. "O inter-relacionamento humano é o substrato dessa área, aproximando-a das histórias contadas pela escritora".
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Carmen Miranda é uma das personagens que interagem com Rachel de Queiroz no espetáculo
Foto: Ares Soares
É a partir dessas diferentes ondulações que "No Balanço de uma Rede" se afirma enquanto espetáculo. Em sintonia com o trabalho particular de cenário, figurino e luz, o texto de Caio Benevides costura todos os elementos numa abordagem simples, bem-humorada e contemporanealíssima, bebendo de uma fonte especial: as memórias que o advogado carrega quando das conversas que mantinha com a avó materna, Maria Wanda Benevides.
"Ela era professora, viveu muitos anos em Quixadá, e falava muito do livro 'O Quinze'. Isso me despertou interesse para conhecer as obras da autora. Quando recebi o convite para fazer o texto da peça, sabia muito sobre os livros dela, mas pouco sobre a vida", confessa. "Foi, então, que a obra 'No Alpendre com Rachel', de José Luís Lira, caiu como uma luva, pois é uma biografia muito íntima dela. Para complementar, apenas estudei o cenário da época em que viveu".
Tanto é que, na montagem, unido à Rachel, é posto em perspectiva um time de peso. Chico Buarque, Carmen Miranda, Getúlio Vargas, Roberto Carlos, Noel Rosa e outras personalidades desfilam pelo palco interagindo com a artista, entregando à audiência um espectro do que foi o País nas décadas passadas.
Para José Luís Lira, ter o ensaio biográfico no qual refaz o percurso de Rachel influenciando na composição da montagem, é motivo de alegria. "Ela foi minha primeira referência literária, além de minha madrinha de formatura. Fico feliz em saber que a peça está fiel ao que aconteceu em sua vida", observa o biógrafo.
Perguntado sobre quais eram as principais características pessoais da escritora, Lira detalha: "Acho que não existia local em que se sentisse mais realizada do que naFazenda Não me Deixes, em Quixadá. Lá, ela recebia todos, do Presidente da República a sertanejos. Era uma pessoa extraordinária".
Processo
Intérprete da protagonista, Luana Martins conta que estar na pele de Rachel de Queiroz tem sido "um dos maiores desafios da vida". "Tinha uma breve noção de quem ela foi, mas, quando começamos a nos aprofundar na trajetória, todos ficaram encantados com a mulher forte, que buscava seus direitos e lutou para defender o que acreditava", relata.
"A gente brinca falando que a peça é uma grande mistura de estéticas, tanto visuais como interpretativas. Temos momentos muito cômicos e irônicos - porque ela brincava com as situações - até cenas que tratam de passagens íntimas. Isso traz desafios para o elenco, pelas várias nuances interpretativas", descreve.
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Com leveza e bom-humor, peça também reflete sobre o alcance das atitudes de Rachel de Queiroz
Foto: Ares Soares
Ao fim da conversa, a atriz não esconde o quanto aprendeu ao dar nova vida a quem marcou sua história. "Temos muito o que agradecer à autora, porque foi também por causa dela que temos coragem para falar sobre várias questões e defender nossos direitos femininos. Acho que vão se sensibilizar assistindo à peça", torce.
Do que mais se pode falar sobre Rachel de Queiroz? Muito, porque é e sempre será preciso.
Serviço
Espetáculo “Rachel - No Balanço de uma Rede”. Neste sábado (9), às 19h, no Teatro Celina Queiroz (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Gratuito. Contato: (85) 3477-3311


> Memória resguardada
Há dois anos, em janeiro de 2017, as obras pertencentes a Rachel de Queiroz foram doadas para a Universidade de Fortaleza (Unifor). O processo foi homologado pelo Instituto Moreira Salles (IMS) e pela irmã da escritora, Maria Luíza de Queiroz Salek, destinando o conteúdo para a Fundação Edson Queiroz.
Portanto, desde a data, o público cearense tem a seu dispor exatamente 3.063 itens da coleção de Rachel, reunindo 2.800 livros e 263 periódicos. Diversificado, o acervo traz obras de renome no contexto da literatura, poesia, críticas e estudos literários.
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Acervo de Rachel de Queiroz na Biblioteca da Unifor é composto por 2.800 livros e 263 periódicos
Foto: Thiago Gadelha
O destaque vai para os 1.200 livros com dedicatórias de escritores do porte de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, entre outros, admirados pela escritora.
Há ainda que considerar a presença das primeiras edições das obras "O Rio de Janeiro no século XVII", de Vivaldo Coaracy, publicada em 1965; "Fala, amendoeira", de Carlos Drummond de Andrade, em 1957; e "Claro enigma", também de Drummond, datada de 1951. Rachel, inclusive, traduziu inúmeras obras, e algumas delas fazem parte do acervo.
Alcance
Leonilha Lessa, bibliotecária e gerente da Biblioteca da Unifor, dimensiona o alcance do espaço, contabilizando que, no ano passado, 798 visitantes passaram pelo ambiente.
"É motivo de muito orgulho abrigarmos parte da coleção pessoal de Rachel, tanto pelo belo e valioso acervo, como pelo que representa a escritora para a literatura", comemora, afirmando ainda que a criação da sala permite o desenvolvimento de ações para além dos objetivos de uma biblioteca universitária.
"A ideia é ampliar os estudos sobre a autora por nossa comunidade acadêmica e por estudiosos e pesquisadores interessados", completa. Alguns projetos na seara já foram iniciados, aproximando alunos, professores e funcionários da Universidade e também escolas públicas e privadas.
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Relevantes obras de literatura, poesia, críticas e estudos literários integram o espaço, disponível mediante agendamento
Foto: Thiago Gadelha
No momento, o espaço, no piso superior da Biblioteca Central da Unifor, está em reforma para melhorias do ambiente da Coleção, com previsão de abertura para abril deste ano. Ao retomar as atividades, o procedimento para consultar o acervo deve ser o mesmo: devido ao valor histórico, somente de maneira presencial.
Serviço
Coleção Rachel de Queiroz. Avenida Washington Soares, 1321, Edson Queiroz. Visitação: de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h, e, aos sábados, das 8h às 13h. Aberta ao público a partir de abril. Para visitas em grupos, mediante agendamento pelo contato (85) 3477-3169

Diário do Nordeste

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