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Escritor mineiro Rafael Antunes faz contos com elogios à derrota

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img4Obra reúne narrativas em que predomina a recusa de contar histórias de personagens vitoriosos


Começa com o título, "Tartamudo". Palavra de origem espanhola, identifica o indivíduo acometido por imperfeições na fala, sem capacidade de articular as palavras. No popular, gago.
É dando destaque a essa perspectiva deficitária e a um vocábulo pouco usual que Rafael Antunes traz à tona 26 contos no livro de estreia, cuja ênfase reside em tipos sociais geralmente postos à margem porque incompreendidos.
Mineiro residente em Fortaleza há quase dois anos, o narrador dos causos recém-impressos é gente de expressões volumosas sobre figuras ignoradas, transpondo valor a elas no miolo da publicação.
"O texto não tem uma unidade temática, mas um espírito que o guia, uma recusa em contar histórias de personagens vitoriosos", revela. "São pessoas infames, no sentido de que têm pouca fama ou 'rastejam'".
A decisão em retratar esse perfil humano, conforme o autor, não foi consciente, mas reflexo de uma atração por temperamentos minimizados pelos barulhos do mundo.
"Tenho uma ideia de que o bom pensamento dificilmente acontece na euforia e na aceleração. Então, encaro bem esses sujeitos, em certa medida, parados, especialmente porque parar é muito bom para pensar".
Atuando, portanto, no contrafluxo da felicidade anunciada em outdoors e embalagens coloridas do que quer que seja, Rafael Antunes promove um verdadeiro elogio da derrota e, de quebra, apresenta ao público leitor uma potente obra em narrativas e reflexões.
Reunião
Publicado pela editora carioca 7Letras, "Tartamudo" foi escrito desde 2013, embora possua costura final recente, datada de junho de 2018. Tempo suficiente para que Rafael reunisse material fruto de observações apuradas sobre o outro e o Brasil contemporâneo.
Os detalhes ganham vida a partir de uma ironia fina e voltagem crítica, tudo diluído em linhas capazes de demonstrar o talento do literato. Merecem destaque os excelentes "Carlos Marx", "A fúria do cancro", "Diário de um editor", "Júlio da Alberto Linhares" e "Fevereiro de 2006", em que se misturam referências advindas de manchetes de jornais a percepções do cotidiano.
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Personagens silenciosos são o foco da prosa de Rafael AntunesFoto: Natinho Rodrigues
Aspectos biográficos também colidem no exemplar. A bela fotografia de capa, bem como narrativas como a homônima ao título do livro - recorte bonito da vida do avô - conferem uma atmosfera de autoralidade em carga máxima, típica de processos independentes de publicação.
Outras áreas do saber compõem esse panorama. Antropólogo por formação, Rafael Antunes destaca que entre esta ciência e a literatura há um fio tênue de conexão.
"Talvez uma habilidade que o escritor e o antropólogo partilham é a capacidade de tentar imaginar e reconstruir o mundo dos outros. Fazemos isso, num certo sentido", observa.
Com lançamento previsto para março, quando acontece a Semana Internacional de Letras da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), instituição da qual o autor é professor, "Tartamudo", assim, vai ganhando o mundo aos poucos com suas solidões, embora jamais cabisbaixo pelas ruínas de seus personagens.
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Tartamudo
Rafael Antunes
7Letras
2018, 108 páginas
R$ 39

Diário do Nordeste

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