Podcast: Sátira Romana

Entrevista com Alexandre Hasegawa e Fábio Cairolli.

Estado da Arte
 
 
Todos intuímos o que é uma sátira: um humor crítico ou uma crítica humorada, ora agressiva ora alusiva, contra as hipocrisias das pessoas, costumes, ideologias, literatura e o resto de cena social. Nesse sentido genérico, a sátira é provavelmente tão antiga quanto o gênero humano e onipresente em seu mundo – quem não tem entre seus amigos um mestre da sátira? Como disse o satirista moderno H.L. Mencken “O panorama diário da existência humana, da loucura privada e comunitária … é tão desordenadamente grosseiro e disparatado … que somente um homem nascido com um diafragma petrificado pode não rir para si a fim de dormir todas as noites”.
A sátira vive para zombar da principal definição que Aristóteles dá do homem, o “animal racional”, mas é um impulso tão universal que ilustra como ninguém as outras duas, a de “animal político” e “animal que ri”. Não por acaso, quando a política no mundo antigo atingiu um máximo de complexidade na República e no Império de Roma, a sátira nasceu como gênero literário e recebeu sua forma poética parasitando, ou melhor, parodiando outros gêneros como a lírica, a didática, a inventiva, a comédia e a filosofia. O próprio termo satura significa vulgarmente algo como “mistureba”, uma saturação de substâncias heteróclitas, como as comilanças oferecidas aos deuses, ou as linguiças, ou as miscelâneas de leis e jurisprudências. Como a epopeia, a sátira é uma espécie de micromundo. Mas se os poetas épicos celebram o mundo passado – com seus heróis, deuses, ritos, festivais, triunfos nacionais – os satiristas expõem, protagonizam, punem e instruem o mundo presente – a política, as guerras, o comer e o beber, o fazer dinheiro e os vícios, abusos, tolices e incoerências da vida pública e privada.
 
Pela humilhação o humor satírico produz humildade. Mas também liberação. Como disse o latinista Daniel Hooley, é “um lugar onde certos lados desregrados de nós mesmos saem para brincar – aqueles aspectos da nossa humanidade animal que estão excluídos ou tampados em outros gêneros. Merda, vômito, pus, gases, sêmen (não muito sangue, um fluido épico), os cheiros do bordel, as desfigurações humanas grotescas – o vergonhoso, desagradável, embaraçoso, risível e desprezível nas pessoas, e ainda assim, como nós realmente em alguns aspectos somos”, é “uma espécie de carnaval, que de modos variados institucionaliza o exercício social onde o escravizado, o suprimido e marginalizado por nós têm seus momentos de exuberante licença antes das travas se fecharem de novo”.
Com: 
Alexandre Hasegawa, professor de Língua e Literatura Latina da Universidade de São Paulo.
Fábio Cairolli, professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Federal Fluminense.

Estadão Conteúdo

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