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“É a literatura que te tira do tiro e da viatura”

Conheça a história de jovens da periferia que contam como a literatura foi o fator transformador em suas vidas


Karla Dunder, do R7

Jardson Remido chega com uma camiseta cobrindo o rosto, levanta a blusa, exibe um livro na cintura e diz: “É a literatura que te tira do tiro e da viatura”. Com essa performance, o jovem de 25 anos aborda meninos e meninas da quebrada e incentiva a leitura.
“Larguei a escola, me envolvi com a malandragem, entrei numa parada errada com o tráfico e fui preso, foram três meses na Fundação Casa”, conta. Nesse período, a mudez tomou conta. “Não tinha vontade de falar e tive momentos de muita reflexão”.
Ali conheceu dois nomes que mudaram os rumos de sua vida. Um disco do rapper Sabotage e a biografia de Malcom X. Com o rap descobriu a força da palavra e o impacto da música. “Queria cantar daquele jeito, escrevi uma palavra e travei. Comecei a pesquisar, prestar a atenção no que as pessoas diziam para aprender novas palavras e depois comecei a fazer minhas rimas”.
Com Macolm X veio a identificação com a história de vida. “Ele passou por muitas coisas que passei também, foi preso, perdeu o pai, mas conseguiu mudar”. E com Daniel Lima, o Dali, participou de um projeto de rap chamado Traficando a Palavra. “A gente precisa falar no contexto que esses moleques estão inseridos, não adianta vir com o discurso moralista de que precisa ir para a escola e estudar, isso eles já ouvem em casa”.
Daí veio a ideia da abordagem performática com o livro na cintura. “Chego perto do pivete, saco o livro e digo: ‘não troque bala, troque palavras”.
Remido teve a oportunidade de voltar a Fundação Casa e falar do poder transformador da palavra com os internos. “Agradeci o sr. Paiva, o cara que cuidava do ferrolho”. Também teve a oportunidade de ir ao Ceará participar de um evento de música e literatura. Pai de um bebê de sete meses, Jardson está desempregado e vive levando a poesia para as pessoas nos trens. “Quero estudar arte visual, continuar trabalhando com a força da palavra, sem esquecer a força do afeto”.
Ele participou do seminário “Seminário Leitura e Escrita: Lugares de Fala e Visibilidade", realizado pelo Itaú Social e Sesc São Paulo, com curadoria  da Comunidade Educativa CEDAC e do Instituto Emília realizado na última semana. Em sua mesa estavam Ketlin Santos e Bruno de Souza para discutir “Literatura e sobrevivência? Juventudes em risco”.
Ketlin Santos: oportunidade com a literatura

Ketlin Santos: oportunidade com a literatura

Fernando Cavalcanti/Divulgação
Ketlin e Bruno descobriram o encanto pela literatura na biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, em Parelheiros, extremo sul de São Paulo.
A jovem Ketlin cresceu ajudando a mãe a cuidar de seus 8 irmãos. “Minha mãe criou os filhos sozinha, sempre trabalhou para sustentar a família e minha avó ajudava a olhar os netos”.
Em 2009, jovens do Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário promoveram uma série de cursos para a formação de jovens e adolescentes em direitos humanos. Organizavam rodas de leitura em uma sala de uma escola.
“Minha mãe percebeu que aquela poderia ser uma oportunidade para mim, para não ficar só em casa com meus irmãos e me incentivou a participar”. Dali, o grupo abriu uma biblioteca em uma salinha em uma Unidade Básica de Saúde, mas logo foram desalojados para dar espaço para um dentista.
Sem muita opção de lugar, foram parar na “Casa do Coveiro” no Cemitério dos Protestantes. Ali deram sequência ao trabalho da biblioteca que vai muito além de emprestar livros.
“Tínhamos poucas opções de lazer e aos poucos criamos um espaço de convivência, aprendemos formas de mediação de leitura e de como devemos lidar com as necessidades da comunidade”, explica a jovem que hoje é arte-educadora, feminista e estudante do curso de pedagogia.
Para Bruno de Souza “a biblioteca vai muito além de ter livros em prateleiras, é um espaço de descobertas e nesse trabalho aprendi com a literatura que é possível seguir por outros caminhos, me abriu novas possibilidades”.
Bruno viveu parte da infância no Jardim Ângela, bairro que já foi considerado um dos mais violentos do país. “Meus pais mudaram para Parelheiros para termos um pouco mais de segurança e um contato maior com áreas verdes”, conta.
Bruno de Souza: espaço de diálogo
Bruno de Souza: espaço de diálogo
Fernando Cavalcanti/Divulgação
Na escola, Bruno se destacava pela curiosidade e inquietações. “Em uma aula de geografia, o professor falava sobre o solo e eu sugeri visitarmos uma bica próxima para ver de perto a erosão”. A ideia não foi bem aceita. O menino foi expulso da sala e a sugestão lhe rendeu três dias em casa.

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