Histórias de pessoas em tratamento oncológico são retratadas em xilogravuras e bordados


Exposição de trabalhos produzidos pelo grupo Arte Solidária em parceria com J. Borges traz figuras de pacientes citados no livro "Andei por Aí", da Dra. Paola Tôrres

Em meio ao cheirinho de café e diversos trabalhos manuais, os ambientes da Casa Bendita dividem espaço com a beleza dos bordados confeccionados em prol do Instituto Roda da Vida. O trabalho das artesãs é referenciado nas xilogravuras do pernambucano J. Borges retratando de maneira sensível e original. São histórias de sertanejos e outros pacientes diagnosticados pela Dra. Paola Tôrres com linfomas de Hodgkin, os quais tornaram-se personagens do livro e do cordel intitulados "Andei por Aí", de autoria da médica.
As artes reproduzidas em linhas e aquarelas por 17 artistas cearenses serão comercializadas em prol do Instituto Roda da Vida, uma ONG que promove o apoio a pessoas com câncer.
"A partir daí surgiu a ideia dessas senhoras bordarem as xilogravuras contidas no livro com o intuito de arrecadar fundos para ajudar o Instituto", descreve a onco-hematologista Paola Tôrres.
De acordo com uma das coordenadoras do Arte Solidária, Auxiliadora Félix, todas as componentes do grupo são voluntárias. "Aqui temos empresária, professora universitária e psicóloga. Todos os trabalhos são de responsabilidade financeira de cada uma. O que fizemos foi nos unir para vender a nossa arte em prol de um bem maior", ressalta.
Expondo pela primeira vez, Auxiliadora não consegue disfarçar a emoção de ter seu personagem, Ataide Lopes, presente no lançamento da mostra. "Foi difícil porque a gente não conhecia eles. Eu já tinha começado a bordar, quando vi a foto do Ataide e percebi que tinha feito o cabelo encaracolado. Então desmanchei e fiz todo o bordado novamente", conta sorrindo.
Ataide Lopes, 60 anos, descobriu os linfomas de Hodgkin, em 2002. O diagnóstico indicava que ele teria, em média, apenas cinco anos de vida. Com o acompanhamento da Dra. Paola, o paciente já contabiliza 17 anos. De acordo com ele, a doença é incurável, mas com o diagnóstico e o tratamento correto é possível ter qualidade de vida.
xilo 2xilo 2
Ataide Lopes, 60 anos, descobriu os linfomas de Hodgkin, em 2002. "Gostaria que todas as pessoas com esse tipo de problema, acreditassem. Existe um sol no dia seguinte", diz
FOTOS: CAMILA LIMA
Ataide encara como uma lição de vida e diz: "Eu tinha duas maneiras de enfrentar a doença. Podia ficar chorando, me lastimando, sentindo que estava sendo culpado, punido. Mas preferi levantar a cabeça e buscar ajuda. Encontrei uma excelente médica, e graças a Deus estou aqui, sou uma prova viva de que pode não haver cura, mas existe qualidade de vida".
Na mostra, Ataide fala emocionado sobre sua vivência. "Você vê J. Borges, um cara tão renomado, numa distância tão grande e, de repente, tu se vê dentro dessa arte, em uma exposição. Tudo isso porque enfrentou e superou um problema de saúde. Gostaria que todas as pessoas com esse tipo de problema, acreditassem. Existe um sol no dia seguinte. Isso não é filosofia barata, é simplesmente acreditar que a gente pode fazer melhor", ressalta o paciente.
Geruza Moreira se intitula artesã desde que nasceu. Ela é responsável por três das telas de bordados expostas na mostra "Andei por Aí". Além da imagem da sobrinha, Carla Marinho, 32, diagnosticada com linfomas, em 2017, Geruza também bordou "A Passarada", de J. Borges, e o paciente Giuleno, em tratamento oncológico.
xilo 4xilo 4
O bordado da paciente Carla Marinho foi produzido por sua tia Geruza Moreira
FOTOS: CAMILA LIMA
Apesar de lidar com a doença da sobrinha, Geruza se apegava ao fato de saber que ela tinha possibilidades de fazer tratamentos de ponta, menos invasivos. Atualmente, está curada e grávida. Geruza será titia em setembro. "Percebi que outras pessoas não tinham esses recursos. A partir daí, conheci a Dra. Paola, fiquei sabendo do Instituto que cuida de pessoas com câncer e decidi abraçar essa causa", confessa a artesã.
Conforme a bordadeira, o Instituto Roda da Vida disponibiliza diversas terapias. Os pacientes são recebidos com meditação, dança, yoga, bordado e outras práticas. "Ou seja, eles vão lá cuidar da autoestima. Por isso, me engajei nesse projeto. E já estamos aqui em uma exposição. Agora o grupo parte para outra missão, vamos ajudar outras pessoas", conclui Geruza.

Obra inspira exposição solidária

A ideia da obra "Andei por Aí", da médica onco-hematologista, Paola Tôrres, já em sua 2ª edição, nasceu após a realização do documentário da escritora chamado "Caminhos da Cura". A médica viajou pelo sertão do Ceará, passando por Senador Pompeu, Saboeiro, Lagoa do Jatobá em Quixelô, Tauá, Solonópole.
Foram vários lugares para ouvir e gravar as histórias de fé, luta, desafios e superação de seus pacientes diagnosticados com um câncer raro no sangue (o linfoma de Hodgkin), para os quais só existe tratamento na capital cearense. Ou seja, eles andaram de 600 a 800 quilômetros para conseguir um diagnóstico.
xilo 3xilo 3
As xilogravuras de J. Borges e as telas em bordados retratam histórias de fé, luta e superação
FOTOS: CAMILA LIMA
O livro ganhou visibilidade no País inteiro e foi parar nas mãos do Dr. Dráuzio Varella, que a convidou para fazer com ele uma websérie chamada "Sertão de Dentro". A série está no canal do médico no YouTube, com 4 episódios.
"Esse trabalho é todo escrito em cordel. Eu fui aluna do Ariano Suassuna. Fiz com ele a cadeira de estética. Como pernambucana, morei na mesma cidade do mestre J. Borges, e conheço ele desde a infância. Então o convidei para fazer as xilogravuras. As matrizes estão também expostas e podem ser vistas por todos até o dia 24 de março", conclui Paola.
Serviço
Exposição "Andei por Aí"/ J.Borges por Grupo Ação Solidária. Visitação: Até o dia 24 de março, das 17 às 21 horas, na Casa Bendita (Avenida Rui Barborsa, nº 888, Meireles). Informações: (85) 3093.7717
Diário do Nordeste

Comentários

Mais Visitadas

Cyberbullying: sofrimento causado através da tela

José, servo bom e fiel

STJ proíbe cobrança de taxa de conveniência na venda de ingressos pela internet

Campus Party 2018 vendeu 30% a mais de ingressos que edição anterior

Bullycídio e as previsões no ordenamento jurídico