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A literatura nazista na América: ainda bem que é ficção

O livro é do chileno Roberto Bolaño

Escrever prosa de ficção de qualidade, com originalidade revolucionária, já não é tarefa das mais simples. Bastaria reparar na ampla oferta de obras de perfil médio nas livrarias, em contrapartida aos eventuais romances que rompem a mesmice e promovem avanço radical no mundo artístico. Como em tantas outras áreas do conhecimento, e como ocorre no mundo natural, a literatura também é feita de mais joio do que trigo. Mas se além de escrever ficção o desafio ainda envolve ficcionalizar todos os autores de uma suposta bibliografia, isso tende a ser homérico: é o que fez o chileno Roberto Bolaño, em A literatura nazista na América, que chega pela Companhia das Letras.
Bolaño não cansa de surpreender o leitor brasileiro, e isso mais de 15 anos após a sua morte, precoce, em 2003, aos 50 anos. Cada nova obra do chileno, nascido na capital, Santiago, em 1953 (faria aniversário no próximo dia 28), representa uma espécie de fôlego novo, uma proposta inovadora, tamanha a sua inventividade.
Dos romances de fôlego (a exemplo do estupendo 2666, no qual já vivia às voltas com um escritor fictício) aos protagonizados por seu alter-ego Arturo Belano, Bolaño escreveu de tudo, com diferentes propostas estilísticas, e misturando recursos. Mas sempre com a mão firme do grande escritor, apoiado na forma clássica, com a pitada de alegria e de ironia que desaloja o leitor.
No inusitado A literatura nazista na América, lançado originalmente em 1996, e portanto, pela ordem, a terceira obra finalizada por Bolaño, propõe um jogo de forte apelo crítico. Poderia ao mesmo ser um compêndio de contos, uma série de biografias fictícias ou, no conjunto, como era a proposta do autor, como um romance, em que todas as peças se encaixam num mosaico.
Seria “uma antologia vagamente enciclopédica da literatura nazista produzida na América entre 1930 e 2010”, em palavras suas. Na proposta de narração, no ritmo de texto, estão ali as marcas nítidas do Bolaño de Estrela distante, seu primeiro sucesso, lançado no mesmo ano de 1996; de Noturno do Chile, de 2000; ou de O Terceiro Reich, de 2010, ou O espírito da ficção científica, livros póstumos que também foram, todos eles, publicados no Brasil.
Em A literatura..., Bolaño faz uma compilação de biografias fictícias, resenhas de livros e ações imaginadas acerca de autores que, em diferentes países da América, teriam evidenciado sua simpatia com o Nazismo. Um único brasileiro compõe o mix, o carioca Luiz Lafontaine da Souza, que, dentre outras supostas obras a ele atribuídas por Bolaño, teria escrito Luta de contrários: Crepúsculo em Porto Alegre.
Ao final, para corroborar o tom didático e enciclopédico desse romance sui generis, elenca uma bibliografia compilada dessa suposta literatura nazista. De certo modo, e para o bem da sociedade, que bom que tudo isso só existe no âmbito da ficção - porque transposto para o mundo real seria bastante tétrico.
Em 1940 é internado de novo no sanatório de Petrópolis, de onde só sairá três anos mais tarde. Durante sua longa temporada, embora interrompida pelas festas natalinas ou pelas férias com a família e sempre sob os cuidados estritos de uma enfermeira, escreve a continuação de Luta de contrários: Crepúsculo em Porto Alegre, cujo subtítulo, Apocalipse em Novo Hamburgo, é esclarecedor para o conjunto da obra romanesca.
O relato parte exatamente do mesmo ponto em que se interrompe Luta de contrários. Com uma escrita fragmentada, alheia ao estilo fino, à argúcia e à economia verbal do precedente, Crepúsculo em Porto Alegre narra os vários pontos de vista de um mesmo personagem, o professor de literatura portuguesa, em relação a um crepúsculo interminável, e no entanto velocíssimo, na cidade meridional brasileira, enquanto simultaneamente em Novo Hamburgo (daí o subtítulo Apocalipse em Novo Hamburgo) os criados, a família e posteriormente a polícia se deparam com o cadáver da rica herdeira analfabeta encontrada em seu quarto, debaixo da grande cama de baldaquim, retalhada a punhaladas. O romance, por imperativos familiares, só será publicado quando já ia bem avançada a década de 1960.” (p.56-7)
FICHA
Foto: DivulgaçãoA literatura nazista na América, de Roberto Bolaño. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 240 p. R$ 54,90.
A literatura nazista na América, de Roberto Bolaño. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 240 p. R$ 54,90.

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