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Casa do Rio Vermelho, em Salvador, preserva a história de Jorge Amado


A morada que acolheu o casal de escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, por mais de 40 anos, atualmente funciona como casa-museu, localizada no bairro Rio Vermelho, em Salvador, na Bahia


Tão logo cheguei a Rua Alagoinhas, no bairro Rio Vermelho, em Salvador, tive a sensação de estar em casa. Isso num lugar que seria novo aos meus olhos, não fossem as pesquisas que realizei antes da viagem. A viela por onde passam os carros é estreita e as construções simples e encantadoras. Não sei se o colorido dos muros ao redor ou o charmoso sobe desce das ladeiras, mas algo - talvez o conjunto de características da pacata Alagoinhas - acolhe de imediato quem chega como um sonoro "seja bem-vindo".
Quando alcancei o número 33 da rua, o muro de pedras com uma grande fachada azul anunciou: essa é a Casa do Rio Vermelho, em que viveram os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai. A recepção poderia ser a entrada de qualquer outro museu no mundo, mas ao subir as escadas, fico de frente para o enorme jardim do casal, percebo-me, então, adentrando um lar.
Entendo que a melhor forma de se entrar na casa de alguém é cumprimentando, ao menos, um membro da família. E isso foi possível graças ao acolhimento de Maria João Amado, neta de Jorge e Zélia, e coordenadora de comunicação do memorial. Sentada em um banquinho de mosaico, instalado em meio ao verde do jardim, a anfitriã diz ser um de seus locais preferidos. E assim ela vai contando os motivos que transformaram a antiga morada da família na atual casa-museu, inaugurada em 2014.
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Foto: Ana Beatriz Farias
"Nós sentimos a necessidade de transformar a casa num memorial porque as pessoas continuavam visitando e querendo conhecer. E foi um pedido da Zélia, minha vó, que quis transformar tudo isso em uma casa-museu", pontua aos poucos sobre o universo dos avós. "A gente tem toda uma atmosfera de casa e um acervo de museu", explica ressaltando que a prioridade do projeto foi deixar a casa o mais parecido possível com o que ela era na época em que Jorge e Zélia viviam no lugar.
Em relação à experiência que os visitantes geralmente têm, Maria João fala que "o normal é que as pessoas se emocionem", lembrando que muitos vão embora dizendo que queriam morar no lugar. "Realmente, é uma casa linda, simples e gostosa. Uma casa colonial, de telha vã. É a beleza na simplicidade", opina afetivamente. A neta conta que o museu é da Prefeitura de Salvador, mas para a sua família é muito "gratificante poder dividir com o povo da Bahia, que deu tanto para Jorge e para Zélia e ganhou tanto também".
Acervo
Ao fim da conversa com Maria João, ela me encaminha a uma das mediadoras da casa- museu, Fátima Duran, a qual me conduz porta adentro. Enquanto ela me explica as nuances da morada, eu vou me atendo ao que posso, em termos visuais, afinal, cada cantinho é abrigo de muita história.
A primeira parada é a sala de estar e de jantar, onde estão objetos que pertenceram, originalmente, a Jorge Amado, a exemplo da máquina de escrever, óculos, peso de papel, cartas, canetas, dentre outros. No lugarzinho onde fica acumulado tudo isso, chama a atenção a presença de um dos últimos livros escritos por ele, "O Sumiço da Santa".
De acordo com a mediadora, o primeiro cômodo da casa a ficar pronto foi o quarto de hóspedes, um dos outros espaços que o visitante logo vê ao adentrar. A informação aponta para o alto gosto do casal por receber amigos. Entre os que já passaram por aqui, estão Glauber Rocha, Pablo Neruda e Tom Jobim. O espaço, à época reservado para hospedagem, hoje traz uma exposição de algumas das famosas camisas estampadas e coloridas de Jorge.
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Foto: Ana Beatriz Farias
Neste percurso da residência, vejo as duas cozinhas da Casa do Rio Vermelho. Uma mais funcional, e a outra cenográfica e cheia de cor, na qual estão expostos alguns exemplares de pratos típicos, esculpidos na Bahia. É nesta ordem em que aparece, em vídeo, uma famosa cozinheira do Estado, a Dadá, ensinando como fazer alguns quitutes.
A impressão que fica é de que todo o tempo seria pouco, mesmo que me detivesse apenas a um ou outro cômodo. Cada metro quadrado aqui discorre sobre diferentes aspectos de uma vida a dois cheia de poesia. Um dos lugares mais românticos é o quarto do casal. Com projeções e sons de narração, o cômodo homenageia os casais da obra de Jorge Amado.
O lugar que originalmente era o quarto de Paloma, filha caçula do casal, hoje tem exposta roupas do casal e um grande gaveteiro. Os compartimentos do móvel são iluminados e guardam diversas cartas, muitas delas escritas e recebidas pelo casal. Entre as correspondências, figuram remetentes ilustres como Monteiro Lobato e Érico Veríssimo.
Lobato diz a Jorge, no diálogo escrito, que "na planura da literatura brasileira, Jorge Amado vai ficar como um bloco subito de montanha hispida, cheia de alcantis, de cavernas, de precipicios, de massas brutas de natureza". Já o escritor gaúcho Érico Veríssimo, conclui uma das cartas que mandou a Jorge Amado com fala comum a tantos amigos: "quando chegar ao Rio, vou te dar um telefonema, para a gente ver se encontra uma hora para um papo".
É impressionante a força que as palavras escritas à mão ou datilografadas a próprio punho têm. Até os arremedos feitos sobre uma ou outra letra digitada num canto errado do papel contam história. Detenho-me a mais um ou outro relato e de lá seguimos, Fátima e eu.
Quando chegamos ao ateliê de Zélia Gattai, percebo que o espaço, para fazer jus à tamanha minúcia com que foi organizado, merece um olhar atento. Nele está representada a árvore genealógica da família, com vários bonequinhos de pano, com rostos e nomes estampados, nos mostram, didaticamente, como a vida de Jorge e Zélia deram tantos frutos. É bonito de se ver! Ao lado, em um espacinho mais escuro, está uma câmara para revelação de fotos. A paixão pela fotografia adquirida por Zélia durante o tempo que ela passou exilada na França.
"Zélia Gattai chegou aos 91 anos de idade, plena de vida, bem vivida, e de histórias muito bem contadas", escuto da narração feita nesse ambiente que não me deixa duvidar de que isso seja verdade
Detalhes
Jorge e Zélia moraram por cerca de quarenta anos na casa. Uma vida inteira, exposta a quem quiser se aprochegar nos detalhes. São muitos. Vai desde os sapos espalhados por toda parte - segundo a mediadora, não há razão mística para tal: "Jorge gostava de sapos como nós costumamos gostar de gato ou de cachorro" - às roupas coloridas que usavam: vestidos mexicanos dela e muitas camisas estampadas dele.
Talvez, parar pra observar com mais calma cada parte do lugar sirva de consolo ao visitante que se vê imerso na realidade dos dois, a ponto de desejar a volta para estar, de alguma maneira, diante da vida e da obra dos escritores. E também para conhecer um pouco de Salvador por dentro, a partir do lugar que poderia ser porta de entrada da Capital, uma morada da mais legítima baianidade.
Diário do Nordeste

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