Pular para o conteúdo principal

Em primeiro romance, jornalista mescla memória e literatura

Lélio Fabiano lança neste sábado 'O silêncio do Rio Comprido', em que aborda seu passado de seminarista
'O silêncio do Rio Comprido' relata a vida de um ex-seminarista.
'O silêncio do Rio Comprido' relata a vida de um ex-seminarista. (Andreas Solaro/AFP)

Por Gilmar PereiraEquipe Dom Total
Anamnese, em grego, tem o significado de trazer à memória, recordar. É palavra muito conhecida no meio da saúde por consistir no processo no qual o paciente relata seu histórico, desde os sintomas iniciais até o momento da observação clínica. Já na liturgia da Igreja Católica, anamnese se refere à celebração da memória Cristo, recordando de modo particular sua paixão, ressurreição e ascensão. O jornalista e professor Lélio Fabiano, no livro O silêncio do Rio Comprido, faz dupla anamnese.
A obra do jornalista capixaba trata de sua experiência no caminho ao sacerdócio, desde o seminário menor, quando era criança, até sua desistência da vida eclesiástica. Nela, Lélio se coloca no divã, narrando para o leitor ou para si suas lembranças. Ao mesmo tempo que seu relato tem um tom psicanalítico, como quem expurga os fantasmas da alma, ele ganha também tom celebrativo, religioso, que se mostra não só nos títulos dos capítulos (“Antífona”, “Gênesis”, “Stella Maris” etc.), mas também no caráter gozoso, doloroso e glorioso do vivido. Mistérios do terço de um homem inteiro.
Contudo, memória não se refere ao passado. Ao contrário, memória é o que não quer passar, é o que se faz presente. Semelhante à culpa (adâmica ou freudiana), que é a dor continuada de algo que não está mais presente. O felix culpa, quae talem ac tantum méruit habére Redemptórem! Sua anamnese se torna terapia e confissão, endossando Chesterton, para quem psicanálise é confissão sem absolvição. Lélio Fabiano se confessa de uma culpa (que não possui).
E como a memória, o autor escreve ao estilo de saltos – indo e voltando – fazendo conexões laterais, tergiversações e devaneios. Em outros momentos o tempo, como o mnemônico, para, em descrições detalhadas de cenas e pessoas. Aos poucos o leitor vai para dentro da sala do divã e para a mente e coração do personagem narrador. De tão íntimo, expande-se para seu mundo e contexto sociocultural. O livro não é apenas a história de Lélio, é sobre a vida oculta de seminaristas no período pós-Concílio, bem como sobre o Espírito Santo e Rio de Janeiro da segunda metade do século 20.
No contexto cultural da época, uma outra linha contribui para tecer a narrativa, a paixão pelo futebol. Assim o texto se torna jogo, rito e desabafo, tudo com sua carga erótica, apaixonada. Aliás pathos é paixão de sofrimento e ao mesmo tempo arrebatamento de amor. O silêncio do Rio Comprido é o Evangelho do autor que assume a cruz da vocação e só ressuscita quando ouve a própria voz. No caminho até ter a própria vida de volta, sofrerá pelo pecado de outros – como o de alguns padres que assediavam os pobres meninos, abusando de sua autoridade e poder.
“É permanecendo firmes, que ireis ganhar a vida”, consta no Evangelho de Lucas. O autor sobrevive aos anos no seminário arquidiocesano do Rio Comprido, no Rio de Janeiro, até ganhar a própria vida. Não se trata de um livro denúncia, embora aponte para a raiz do problema da pedofilia, como também não se trata de uma obra política, embora seja político ao refletir sobre a história recente. Uma obra atual por tornar presente algo que insiste em não passar, mas que as pessoas insistem em não querer ouvir. Rompe-se, assim, O silêncio do Rio Comprido.

O autor
Lélio Fabiano dos Santos, nasceu em Guaçuaí (ES) e desenvolveu toda a vida profissional em Belo Horizonte, depois de passar dez anos no Seminário Arquidiocesano São José, no Rio de Janeiro. Trabalhou em diversos jornais e liderou a criação da Faculdade de Comunicação da PUC Minas. Também criou, com a publicitária Gleida Naves, a Lélio Fabiano - Comunicação Empresarial que atuou por 25 anos. Entre 2011 e 2017, atuou como diretor do Instituto de Comunicação e Artes da UNA.  O silêncio do Rio Comprido é sua obra de estreia no mercado literário.

O SILÊNCIO DO RIO COMPRIDO
De Lélio Fabiano dos Santos. Mazza Edições, 112 páginas, R$ 40.

LANÇAMENTO:
 Sábado (27), das 11h às 13h, na Livraria da Rua (Rua Antônio e Albuquerque, 913, Savassi, BH).

Dom Total
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

O Natal em Natal (RN), a capital potiguar fundada em 25 de dezembro de 1599

Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto 'O Natal em Natal'.
Considerada uma das maiores e mais bonitas do Brasil, a Árvore de Natal instalada no bairro de Mirassol encanta a natalenses e turistas. (Alex Regis/ Secom Natal)
Os moradores da capital do Rio Grande do Norte têm um motivo a mais para se alegrar e vivenciar esta época do ano. Afinal, eles celebram o “Natal em Natal”. Aliás, a capital potiguar recebeu este nome devido a data da sua fundação: 25 de dezembro de 1599. Neste mês, a cidade se reveste de enfeites e de festas culturais, através do projeto “O Natal em Natal”, promovido pela prefeitura municipal. Ao todo, segundo a prefeitura, são mais de 40 eventos que contemplam dança, música, teatro, audiovisual, artesanato, gastronomia e outras manifestações culturais.
Na zona sul da capital, foi acessa, no dia 3 de dezembro,  a tradicional “árvore de Mirassol”, com 112 metros de altura, ornamentada com enfeites nos formatos de …

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Por Diego Barbosa,  Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas. Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem da…