Pular para o conteúdo principal

Fortaleza chega hoje aos 293 anos


O aniversário marca o começo de um novo ciclo. Os votos são, sempre, desejos para o futuro: alegrias, saúde, sucesso e, porque tem que ser, dinheiro. Ao mesmo tempo, o marco tem algo de encruzilhada, com uma estrada atrás de si e outras à frente. Olhar para trás, é irresistível. Mesmo quando quem aniversaria é uma cidade.
Fortaleza chega hoje aos 293 anos. Ainda que seja grande a tentação de olhar saudosa ao passado, como parece próprio das cidades, não tem outra escolha a não ser encarar o terreno que se espraia à frente, com caminhos que se insinuam e outros que, sem terem sido traçados, podem ser trilhados. O tempo corre na mesma direção para as pessoas e as cidades, mas enquanto o futuro é limitado para as primeiras (o corpo se exaure e não há quem escape da morte), as últimas não têm um limite para cessar de existir.
Não é possível resignar-se e esperar que a vida as carregue. Reinventar-se é compulsório e o ritmo, no último século e meio, é cada vez mais intenso. Mas Fortaleza tem as suas singularidades e um jeito próprio de marcar o texto, de se mexer, de mudar nas feições, de olhar para o passado, de sonhar o futuro e de surpreender-se com seu presente.
"À mercê da ventania"
O aniversário rememora um 13 de abril, o do ano 1726, quando tornou-se vila, a segunda do Estado que só tinha outra localidade com a mesma natureza administrativa, Aquiraz. O certo é que, séculos antes disso, a cidade já ensaiava nascer, como se vivesse sua madrugada. Os povos nativos já ocupavam estas paragens antes da chegada dos europeus, com suas próprias povoações. Portugueses e holandeses mataram e morreram pelo domínio desta terra e, sem muita pressa, o povoado foi se tornando o que é, sem parecer ser predestinada à vida de metrópole que tem hoje, com milhões de pessoas, de problemas e de sonhos.
Essa indecisão de juntar mais gente, de rebuscar sua arquitetura e de criar espaços públicos, de ter uma unidade administrativa, de ser de fato uma cidade, parece ter ficado impregnada no espírito de Fortaleza ainda por um tempo. Em 1903, o jornal O Unitário publicou um texto assinado por Outro Aramac, intitulado "Fortaleza de 1845". Os historiadores acreditam que, sob o pseudônimo, estava um de seus pares, João Brígido (1829 - 1921).
Se assim o for, é de se supor que, além de documentos, o autor partia de recordações para reconstituir cenas daquela cidade do passado. Fortaleza não sabia se queria seguir adiante na encruzilhada do tempo. A imagem de desolação descrita por "Aramac" (talvez Brígido) não esconde a beleza do local: "era um areial movendo-se à mercê da ventania, a mudar constantemente de nível nas zonas descobertas, ondulando-se".
Também não era motivadora a descrição de um dos bairros da cidade, que data de 1892 e figura num romance de Manuel de Oliveira Paiva. O romancista falava da Fortaleza "de uma numerosa população decaída, uns habitando cabanas, verdadeiras covas de palha desses esquimós do areal ardente. Através dos ruídos, ouvia-se o cantar do galo ao longe".
Promessas
Contrastava com a promessa que seguiu por carta, à Coroa Portuguesa, quase um século antes. Era 1799, o Ceará tornava-se capitania autônoma, separada de Pernambuco, e Fortaleza pleiteava a condição de Capital. Quatro vereadores escreveram à metrópole ibérica uma "Lista dos Homens Brancos que Habitam dentro desta Vila de Fortaleza", dando conta do que se encontrava por aqui. E, no futuro para o qual a cidade estaria vocacionada, os parlamentares viam ruas, pontes e estradas; iluminação; e um porto.
Ao adentrar o século XX, Fortaleza parece ter mudado de disposição. Como se o Sol já tivesse nascido e abrasasse a cidade, e o calor chamasse ao trabalho. Iluminada, tem a pressa que faltou a seus primeiros tempos. Os vereadores orgulhosos de seus "homens brancos" precisariam da imaginação de Júlio Verne para chegar perto de onde a cidade chegou.
Fortaleza deixou no passado o areial à mercê dos ventos, as promessas (hoje) modestas dos homens públicos de outrora. É imensa e empenhada em crescer ainda mais.
Nas encruzilhadas de cada aniversário, parece olhar cada vez menos para o passado e se lançar, sem temor, ao futuro. O futuro, que é múltiplo em possibilidades, exige uma escolha pensada, que o passo apressado nem sempre faz. Mas a hora do passo certo chega, no ritmo da cidade. É de sua vocação, de sua forma singular de ver e viver o tempo.

Diário do Nordeste

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Corpo do Jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na terça-feira

Vinícius Lisboa - Repórter da Agência Brasil* O corpo do jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na próxima terça-feira (9), no Memorial do Carmo, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), respeitando o desejo do imortal. Cony morreu ontem (6), aos 91 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos após dez dias de internação. Segundo a ABL, como a morte ocorreu em um fim de semana, procedimentos jurídicos e administrativos terão que ser resolvidos nesta segunda-feira (8). Após a cremação, suas cinzas devem ser lançadas em um local que remete a sua infância. Também a pedido do jornalista, seu corpo não foi velado na sede da academia. A amiga e também jornalista Rosa Canha disse que Cony desejava uma cerimônia íntima. "Ele não queria velório, não queria missas nem nenhum tipo de homenagens. Ele pediu muito que fosse uma cerimônia apenas para a família".  Saiba MaisTemer lamenta morte do jornalista Carlos Heitor Cony Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 14 de março de 1926.…

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Por Diego Barbosa,  Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas. Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem da…