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Fortaleza de leituras: bibliotecas comunitárias potencializam novas cartografias do saber na cidade


O aconchego dos espaços, localizados geralmente em bairros da periferia da Capital, otimiza diferentes olhares sobre a urbe iluminada de leituras capazes de transformar


O juntar letras é exercício tremendo de empatia, liberdade e salvação. Não à toa, livros carregam histórias que ultrapassam o papel, narrativas agigantadas num sem número de realidades. Um poder sentido singularmente: cada pessoa é atravessada de uma forma. No caso de Kaciane Silva, a literatura representou renascimento. Possibilidades. Um jeito todo especial - não só, necessário - de superar a barreira da dor.
"Quando você se encontra na leitura, você renasce. Eu adentrei num mundo de fantasia. Perdi meu pai muito cedo, tinha oito anos quando ele foi assassinado, e os livros se tornaram meu consolo. Foi por meio das atividades em bibliotecas, das obras que levava para casa, que comecei a superar a morte dele", afirma, em firme voz.
Hoje finalizando o curso de Serviço Social, ela se define como filha do ler, muito em parte devido às estradas que o contato prematuro com as palavras a levou a explorar. Por isso, anos depois do período inicial de descoberta entre páginas, Kaciane retornou ao espaço que renasceu - a biblioteca pertencente ao Projeto Criança Feliz, no bairro Jardim Iracema - para, ali, tomar resolução de prestar ofício multiplicador: ser mediadora de leitura, posto que hoje ocupa.
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Na Biblioteca Mundo Jovem, no bairro Jardim Iracema, as conexões com o livro extrapolam o limite do papel, otimizando diálogos
Foto: JL Rosa
"Foi lá onde aprendi a ler e participei de várias atividades que me impulsionaram a ser uma leitora de verdade. Isso me incentivou a exercer algum tipo de trabalho na área. Pra você ter uma ideia, com dez anos já tinha lido José de Alencar e coisas até muito avançadas para a minha idade. Era a sede enorme de estar ali, nas letras".
Já bem próximo do aniversário de 293 anos da cidade-sede desse enlace profundo com o narrar, a mulher percebe, então, a luz jorrada na e pela Capital por projetos feito o que participa. A Rede de Leitura Jangada Literária, com braço também no município de São Gonçalo do Amarante, congrega atualmente dez bibliotecas comunitárias - incluindo a Mundo Jovem, também no Jardim Iracema, na qual Kaciane é mediadora - objetivando garantir o acesso à leitura sob a perspectiva de ser ela um direito humano.
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Biblioteca Comunitária Sorriso da Criança, no Presidente Kennedy
Foto: JL Rosa
Atualmente, o projeto é mantido pela Fundação Itaú, por meio da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), de onde provêm os recursos principais para manutenção das bibliotecas - os secundários ficam a cargo dos espaços em rede local.
As bibliotecas - gerenciadas por gestores, articuladores e mediadores de leitura, com a colaboração também de bibliotecários - são localizadas sobretudo em bairros da periferia de Fortaleza. A Rede já tem seis anos de atuação, formando leitores e leitoras e lutando por políticas públicas relacionadas ao segmento.
Investimento
Contações de histórias, clubes do leitor, mediações de leitura e cineclubes estão entre as ações otimizadas pelo projeto. Elas acontecem semanalmente dentro das bibliotecas, podendo ocupar também, de maneira sistemática, lugares externos ao espaço. Neste caso, iniciativas como o "Quero + Leitura" - evento realizado por território de bibliotecas, em que as atividades são levadas a locais públicos - e o "Comu-Lê", fruto da união das casas de leitura para promover encontros de fruição literária, são alguns bons exemplos.
"Além disso, promovemos audiências públicas, encontros para estudos, e seminários com temáticas relacionadas a questões sobre o trabalho desenvolvido pelas bibliotecas e ao direito humano à leitura, tanto nas comunidades como em equipamentos culturais diversos", explica Sâmia Alves, articuladora do Jangada Literária.
Segundo ela, todos os mediadores de leitura do projeto teriam não apenas uma, mas inúmeras histórias para contar sobre os leitores das comunidades onde atuam. "Como estamos em localidades em situação de vulnerabilidade social, ouvimos relatos pessoais de situações delicadas das crianças e jovens que frequentam as bibliotecas. Nessas falas, percebemos o quanto os espaços impactam no sentido de fruição, libertação e fuga", percebe.
A profissional faz ainda ponte com o que professor e crítico literário Antonio Candido (1918-2017) disse certa vez sobre precisarmos de literatura "tanto quanto de água e ar".
"Existem crianças que aprenderam a ler na biblioteca, e que aguardam o momento da mediação de leitura como uma das coisas mais importantes da semana. Nós, como mediadores, sabemos os impactos disso. Emocionais, sociais, cognitivos e, acima de tudo, humanos. E não apenas neles, mas também em nós, que nos sentimos alimentados diariamente dessa missão de democratizar o acesso ao livro em lugares em que isso provavelmente não aconteceria se não fosse pela atuação das bibliotecas comunitárias", completa.
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Permitir o acesso à diversidade de leituras sobre obras é a tônica das bibliotecas comunitárias
Foto: JL Rosa
Descoberta
Para os estudantes Wanessa Rodrigues, 12 anos, Andressa Andrade, 21, e Airton Nogueira, 21, seguir o rastro da literatura permitiu-lhes, além das transformações citadas por Sâmia, um desbravar pela história e cultura de Fortaleza, iniciado nas páginas de romances. A primeira conta, por exemplo, que conheceu a agremiação literária cearense Padaria Espiritual por meio do livro "É pra ler ou pra comer?", da escritora Socorro Acioli. O exemplar foi adquirido quando da ida à Biblioteca Sorriso da Criança, a mais próxima de sua casa, no bairro Presidente Kennedy.
"É uma história que fala de um menino supercurioso que encontra um jornal chamado 'O Pão'. Ele se pergunta se aquilo é para comer ou para ler. Fala pra tia dele, que leva ele até à Praça do Ferreira pra explicar a história", recorda Wanessa, afirmando que soube da existência de Antônio Sales e Sargento Hermínio, dentre outros importantes vultos de nosso Estado, por meio da obra.
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"Descobri a Padaria Espiritual e o Centro da cidade por meio do livro 'É pra ler ou pra comer?'", situa Wanessa Rodrigues
Foto: JL Rosa
"Quando eu vim pra biblioteca, pensei que era chato. Mas quando passei a ler mais, fui me apaixonando. Hoje minha leitura é superótima, e cada livro é uma descoberta nova. Mudou minha vida inteira e meu jeito de ser. Moro num bairro bem humilde, mas aqui é meu lugar. Até desisti de querer ser médica: vou virar escritora", confessa. "A primeira história que estou escrevendo é de um casal que sempre se encontrava na Praça do Ferreira. Quando crescer, quero me formar e lançar esse livro".
Por sua vez, Andressa Andrade, frequentadora da Biblioteca Mundo Jovem, no Jardim Iracema, percebeu a cidade, e especificamente um equipamento dela, o Theatro José de Alencar, ao percorrer as páginas de "A Bailarina Fantasma", também assinado pela escritora cearense Socorro Acioli. Motivada pela leitura da obra, ela chegou a conhecer o local-cenário do livro e se diz motivada a percorrer, desde o momento do encontro, o ramo das Artes Cênicas.
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"Minha vontade de conhecer o Theatro José de Alencar e estudar Artes Cênicas nasceu com a leitura", destaca Andressa Andrade
Foto: Helene Santos
"Vou à biblioteca desde 2015. E percebo que a falta de leitura faz com que a gente não tenha interesse por arte, por cultura. Isso acaba se refletindo também na nossa ausência de participação nos patrimônios culturais da cidade. Hoje, ao estar cada vez mais lendo e fazendo teatro, penso em levar a galera aqui do bairro pra conhecer o Theatro José de Alencar. E ler, claro", observa.
Construção
Airton Nogueira, que divide o mesmo espaço da biblioteca com Andressa, tem relato semelhante. No caso dele, foi o Dragão do Mar o lugar que conheceu por meio de um livro, com narrativas sobre o jangadeiro e figuras como Jovita Feitosa (1848-1867). "Infelizmente não lembro o título dele, mas recordo que tinha várias histórias que aprendi por lá".
Na sonoridade convicta da voz do estudante, que participou da inauguração da Biblioteca Mundo Jovem, ler é instrumento de afirmação.
"Quem lê um livro, se coloca perante ele e tem uma reflexão sobre a vida. Muitas pessoas que tiveram contato com a leitura passaram a vê-la de um outro jeito. Não são mais machistas, acabam não tendo preconceitos. Param de ser alienados, desenvolvendo o próprio pensamento crítico. É uma questão de transformação pela construção", arremata.
Janaína Gomes, mediadora de leitura na Biblioteca Sorriso da Criançajuntamente a Alessandra Vale, dimensiona o alcance dessas percepções por parte dos frequentadores dos espaços. "Crianças e jovens que não tinham o costume de ler, atualmente pegam diversos livros e ainda relatam para nós sobre o que a história contava. De igual forma, ver o quanto eram tímidos e, agora, já têm uma desenvoltura melhor, é motivo de orgulho. Sentimos que estão mais desinibidos. Mais empoderados".
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"Na biblioteca, li um livro que contava a história de Dragão do Mar, Jovita Feitosa, entre outras", destaca Airton Nogueira
Foto: JL Rosa
Em suma, também banhados pela vastidão de crescimento que o passear pelo narrar proporciona. Ainda falta muito a percorrer? Certamente. A luminosidade de cruzar essas passarelas de letras, contudo, num diálogo coletivo com tantos universos, faz resplandecer, sob a claridade ininterrupta da Fortaleza sempre aniversariante, o querer ir além para brilhar mais forte.
Os bairros Jardim Iracema, Álvaro Weyne, Presidente Kennedy e Padre Andrade, em Fortaleza, e o município de São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana, concentram dez bibliotecas comunitárias do Polo de Leitura Jangada Literária. O nome do projeto nasceu do desejo de caracterizar a identidade regional e o objetivo do grupo, a partir de gestão compartilhada proporcionada pela atuação em rede. Na pauta política, o coletivo está focado na construção do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de Fortaleza (PMLLLB), documento que dá as diretrizes para garantir a democratização do acesso à leitura.

Diário do Nordeste

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