Livro fala de feminismo popular e emancipador

Lançado pela Boitempo, livro Feminismo para os 99%: um manifesto defende superação do capitalismo

Capa da edição brasileira do livro Feminismo para os 99%: um manifesto, de  Nancy Fraser, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya. O prefácio é da professora e deputada federal Talíria Petrone.
Capa da edição brasileira do livro Feminismo para os 99%: um manifesto, de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya. O prefácio é da professora e deputada federal Talíria Petrone. (Foto: Divulgação)
Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook, é uma expoente líder do feminismo corporativo. Autora da tese “lean in”, traduzida como “faça acontecer”, a norte-americana defende que a ascensão feminina aos cargos de liderança ainda tão dominados por homens levará a um tratamento mais justo de todas as mulheres. No ano passado, quando o nome da empresária figurou novamente na lista das mulheres mais poderosas do mundo da revista Forbes, uma greve feminista parou mais de cinco milhões de pessoas na Espanha durante 24 horas: entre as pautas da paralisação realizada no 8 de março, as organizadoras demarcaram uma “luta contra a aliança entre o patriarcado e o capitalismo que nos quer obedientes, submissas, caladas”.
As vozes de Sandberg e da “huelga feminista”, como foi chamado o movimento grevista espanhol, representam avanços na histórica luta por equidade de direitos - entretanto, divergências estruturais entre seus discursos suscitam questões urgentes ao movimento feminista contemporâneo: com quais mulheres os plurais feminismos dialogam? Quais seguem ainda esmagadas nas margens do sistema, oprimidas por
uma inquestionável desigualdade entre classes? Em março, a editora Boitempo lançou no Brasil o livro Feminismo para os 99%: um manifesto, uma contundente obra que apresenta 11 teses sobre a necessidade de um feminismo anticapitalista, antirracista, antiLGBTfóbico e compromissado com a perspectiva ecológica.
Lançado simultaneamente em países como Itália, França, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e Suécia, o livro é de autoria das renomadas teóricas Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser. Em uma leitura dinâmica proporcionada pelos textos curtos, simples e bem distribuídos ao longo das breves 128 páginas, a obra apresenta um panorama da conjuntura global a partir da crise financeira iniciada ainda em 2008 e as greves feministas protagonizadas pelas trabalhadoras ao redor do mundo. Nessa encruzilhada entre um feminismo liberal - que, na visão das autoras, busca homogeneizar pautas e atua como “serviçal do capitalismo” na manutenção do status quo - e um feminismo atento aos recortes sociais, o tempo de ficar em cima do muro acabou. “As feministas devem assumir uma posição: continuaremos buscar ‘oportunidades iguais de domina&c cedil;ão’ enquanto o planeta queima? (...) Nossa resposta ao feminismo do faça acontecer é o feminismo impeça que aconteça. Não temos interesse em quebrar o telhado de vidro enquanto deixamos que a ampla maioria limpe os cacos. Longe de celebrar as CEOs que ocupam os escritórios mais luxuosos, queremos nos livrar de CEOs e de escritórios luxuosos”.
Para as autoras, o feminismo só é efetivamente popular e emancipador se profundamente enraizado nas lutas da maioria das mulheres, tão distantes do 1% privilegiado. Nesse sentido, conforme as autoras, a nova onda é essencialmente anticapitalista. Tal questão é fortemente associada ao marxismo - mas, como evidencia a deputada federal indígena Joênia Wapichana (Rede/RR) na orelha da edição brasileira, “nem a direita nem as esquerdas respondem ao desafio das diversidades (...) Precisamos ir além das dicotomias de um mundo dividido apenas em duas opções”. Com tradução de Heci Regina Candiani, a obra lançada pela Boitempo conta também com prefácio da deputada federal (PSOL/RJ), professora de História pela UERJ e mestre em Serviço Social e Desenvolvimento Social pela UFF Talíria Petrone.
Em entrevista ao Vida&Arte, Talíria argumenta: “O feminismo que a gente reivindica é, necessariamente, para a maioria das mulheres. Ele precisa dar conta da especificidade de grupos de mulheres que o feminismo liberal e hegemônico não dá conta. Todas as mulheres sofrem violência, então enfrentar a violência contra a mulher é fundamental para nós, mas não dá para parar por aí. A trabalhadora doméstica é, muitas vezes, explorada em um lar num Brasil que ainda tem quartinho de empregada. Essa mulher sem direito trabalhista, normalmente negra e de periferia, muitas vezes vive essa violência seja causada pelo patrão, seja vendo o filho dela sendo assassinado. Essa mulher precisa ser contemplada em sua história de vida. Ela é a representação da maioria das mulheres, então é fundamental a gente dar conta dessas m ulheres na cara do feminismo que a gente constrói. O Brasil é um país muito desigual e nosso feminismo precisa compreender e também ser instrumento para superar essa realidade, na minha concepção”.
Ao longo das 11 teses, o livro aborda temas como liberalismo; crise do capital; violência de gênero; sexualidade; racismo e colonialidade; ecossocialismo e se encerra com um convite a uma insurgência. Da leitura desse manifesto carregado de necessárias provocações, uma percepção se firma: longe de um rompimento entre vertentes feministas, a obra instiga e defende um movimento mais acolhedor e inclusivo.
“O feminismo anticapitalista é instrumento para emancipar todas as mulheres. Eu não tenho a menor dúvida que o mundo que a gente sonha virá das resistências já tocadas por essas mulheres nos territórios. Política é preço do ônibus, política é se o filho da Dona Maria do Complexo da Maré vai voltar para vivo para casa; política é se essa mulher vai ter dinheiro no final do mês para comprar cesta básica. É esse feminismo que a gente defende, um feminismo que tem uma correspondência muito grande com o concreto. De outra forma, não nos serve”, encerra Talíria.
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Livro Feminismo para os 99%: um manifesto, 2019

De Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser
Tradução de Heci Regina Candiani
Editora Boitempo
Número de pág.: 128
Quanto: R$ 32
BRUNA FORTE
O Povo

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