Pular para o conteúdo principal

Cenário onde Rachel de Queiroz viveu, Ilha do Governador (RJ) é revisitada em imagens e diálogos


Sem o mínimo de referência geográfica do local para onde iríamos, encontrar um taxista que morava lá há 42 anos permitiu um passeio imersivo e singular


Custou para um motorista aceitar a corrida no aplicativo. Dois cancelaram antes de José Walter se apresentar ao meio-dia na porta do hotel em que estávamos hospedadas, eu e a fotógrafa Fabiane de Paula, para nos levar ao destino planejado. A Ilha do Governador era nossa escolha por dois motivos: lá ficava a quadra de uma das escolas de samba que homenagearia o Ceará na Sapucaí, no Carnaval de 2019; mas também era o cenário onde Rachel de Queiroz (1910-2003) tinha vivido por mais de uma década.
img5img5
O taxista José Walter no mirante da Praia da Bica, na Ilha do Governador (RJ)
Foto: Fabiane de Paula
Sem o mínimo de referência geográfica do local para onde iríamos, saber que o taxista que nos conduzia já morava lá há 42 anos foi um alívio. Maranhense, porém filho de pai cearense, José Walter, cujo nome também nos remetia a um bairro tradicional de Fortaleza, comportou-se mesmo como um excelente anfitrião.
img2img2
Detalhes do cotidiano da Praia das Pitangueiras
Foto: Fabiane de Paula
Nas mãos, eu carregava um exemplar do romance "O Galo de Ouro". Escrito nos primeiros meses de 1950, quando Rachel residia na Ilha, o livro dava algumas indicações de lugares pelos quais a escritora havia passado há cerca de 70 anos, e esse era o nosso mapa. "Cova da Onça? Hoje é ali na Marquês de Muritiba, na divisa de Tauá com Cocotá", atualizava-nos José sobre a área onde vivera a autora.
É claro que sete décadas tinham sido mais do que suficientes para a maioria dos nomes mudarem: de Pixunas para Bancários, de Jequiá para Pitangueiras, de Guarabu para Jardim Carioca. A Ilha de Rachel, à época isolada, sem pontes que a conectasse ao resto do Rio de Janeiro, há muito havia se transformado em um outro lugar.
"A Ilha era mesmo uma aldeia, defendida pela água por todos os lados", escreveu a cearense em prefácio de 1985. "Mas o progresso nos rondava e a gente nem percebia. Recordo que festejamos o primeiro calçamento, soltamos foguetes ao se inaugurar o esgoto na Cova da Onça", destacou Rachel.
Encontro
Num dois de março nublado, atravessamos a "ponte velha" para adentrar o lado ocidental do interior da Baía de Guanabara e ver com nossos próprios olhos essas transformações. Nossa referência era apenas os escritos de Rachel, e a sensação foi de que algo ainda estava preservado ali.
img3img3
Registro de quase-noite na Praia da Guanabara
Foto: Fabiane de Paula
Na contramão do centro comercial, do trânsito intenso e dos prédios modernos, a calmaria de mirantes com vista para o mar e de barcos concentrados na Praia do Jequiá reafirmava uma descrição que mesmo a cearense já havia desacreditado, trinta e cinco anos depois do primeiro lançamento do livro.
"Acabaram-se as barcas, acabaram-se os bondes, proliferaram os edifícios, instalou-se o progresso para ficar. Agora só resta a saudade. Como diz o samba", lamentava a autora no prefácio.
A sensação de que todo mundo no lugar se conhecia, no entanto, permaneceu. Talvez porque passeamos com José, taxista popular na região, esse sentimento ficou mais evidente. Não fosse ele, dificilmente teríamos chegado à Rua Carlos Ilidro, onde Rachel viveu com o médico goiano Oyama de Macedo por mais de dez anos. Quase sem transeuntes, o local ainda evoca a atmosfera de isolamento valorizada pela cearense.
img4img4
Placa da Rua Carlos Ilidro, onde Rachel de Queiroz morou
Foto: Fabiane de Paula
Uma moradora mais antiga, que deu o ar da graça no portão, não soube dizer onde precisamente ficava a casa de Rachel. A verdade é que a Ilha sempre foi para ela muito mais do que uma construção, e para nós, que fomos até lá, a concepção, ainda que separada por 70 anos de história, permanece a mesma.
> Curiosidades
- O romance "O Galo de Ouro", de Rachel de Queiroz, foi o primeiro não ambientado na terra natal da escritora. A história se passa na Ilha do Governador, refazendo a trajetória de pessoas humildes com as quais conviveu
- Além da autora cearense, também moraram na Ilha os escritores Lima Barreto e Vinicius de Moraes, e os cantores Renato Russo, Wanderley Cardoso, Waldick Soriano, Assis Valente e Luiz Gonzaga
-  Na região, mais precisamente na Estrada do Cacuia, está localizada a Escola de Samba União da Ilha do Governador, que, no Carnaval 2019, homenageou o Ceará com o enredo "A peleja poética entre Rachel e Alencar no Avarandado do Céu"
- Para passear na Ilha guiado por um taxista anfitrião, recomendo o José Walter pelo telefone (21) 97271.7453

Diário do Nordeste

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Corpo do Jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na terça-feira

Vinícius Lisboa - Repórter da Agência Brasil* O corpo do jornalista Carlos Heitor Cony deve ser cremado na próxima terça-feira (9), no Memorial do Carmo, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), respeitando o desejo do imortal. Cony morreu ontem (6), aos 91 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos após dez dias de internação. Segundo a ABL, como a morte ocorreu em um fim de semana, procedimentos jurídicos e administrativos terão que ser resolvidos nesta segunda-feira (8). Após a cremação, suas cinzas devem ser lançadas em um local que remete a sua infância. Também a pedido do jornalista, seu corpo não foi velado na sede da academia. A amiga e também jornalista Rosa Canha disse que Cony desejava uma cerimônia íntima. "Ele não queria velório, não queria missas nem nenhum tipo de homenagens. Ele pediu muito que fosse uma cerimônia apenas para a família".  Saiba MaisTemer lamenta morte do jornalista Carlos Heitor Cony Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 14 de março de 1926.…

Participe da Coletânea "100 Poetas e 100 Sonetos"

O Instituto Horácio Dídimo de Arte, Cultura e Espiritualidade está selecionando 100 poetas para compor a Coletânea “100 Poetas e 100 Sonetos”. Os sonetos são de tema livre e devem ser metrificados em qualquer tamanho ou estilo, rimados ou não. 

Não haverá taxa de inscrição e nem obrigatoriedade de aquisição do livro pelos participantes, que em contrapartida cedem seus direitos autorais. 

A data e local do lançamento da coletânea serão definidos posteriormente. 

Para participar, envie o seu soneto para o email ihd@institutohoraciodidimo.org ou pelo formulário até 10/07/2019 com uma breve biografia.

Por https://institutohoraciodidimo.org/2019/06/11/coletanea-100-poetas-e-100-sonetos/

Projeto do escritor e professor cearense Gonzaga Mota doa livros para escolas públicas da Capital e do interior

Por Diego Barbosa,  Com a ação, Gonzaga Mota já circulou por 20 instituições, ora aumentando acervos, ora criando novas mini-bibliotecas Com facilidade, a porta em que está cravada a placa "Livros de escritores cearenses" escancara-se em nova visão. Do outro lado do anteparo, o olhar mira num aconchegante espaço, onde repousam, organizadas e coloridas, obras de toda ordem. São títulos tradicionais e contemporâneos, exemplares de poesias, contos, crônicas, romances. Em comum a todos eles, o DNA nosso: possuem assinatura de cearenses. E querem ganhar mais mundos, outras trilhas. Mantido pelo escritor e professor Gonzaga Mota, o gabinete da descrição acima é recanto de possibilidades. Desde o começo deste ano, o profissional mantém um projeto de doação de livros para escolas públicas de Fortaleza e do interior, almejando estender o raio de alcance da leitura, especialmente entre crianças e jovens. A vontade de fazer com que os volumes saltem da…