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Conquista da Medalha Villa-Lobos pelo cearense Liduino Pitombeira reflete história de apego à música



Uma nota após outra, os dedos roçando nas cordas e ecoando som. Prazer-labuta, o debruçar-se sobre o violão começou cedo no horizonte de Liduino Pitombeira. A memória, avizinhada por ocupar a superfície do sentir, não nega: ali, no alvorecer dos 11 anos, ao trocar experiências com o músico Paulo Santiago ainda em Russas – município do interior do Ceará no qual nasceu – dava para sentir que os caminhos de aprofundamento na música não conheceriam limites.
Dedicação alimentada com reforço tão logo foi desbravando estilos, maneiras, profissionais, a exemplo dos momentos partilhados com o Syntagma (1986-1998), grupo de câmara em atividade mais antigo do Ceará; os estudos de harmonia, com Vanda Ribeiro Costa (1985-1991); de composição, com José Alberto Kaplan (1991-1998); e, posteriormente, a partir dos saberes divididos com o compositor grego-americano Dinos Constantinides, durante a pós-graduação (1998-2004).
 
“O violão me permitiu participar do conjunto musical da Igreja Matriz de Russas, coordenada pelo vigário e pianista, padre Pedro de Alcântara. Esse conjunto era formado por violino, clarineta, harmônio e dois violões”, recorda o músico.
“Mantenho visitas periódicas ao município desde 2006 e acompanho à distância as atividades da ARCA – Academia Russana de Cultura e Arte. Na última passagem por lá, em 2016, ministrei uma palestra na UFC - Campus Russas sobre as relações entre música e matemática, como uma extensão comunitária das atividades que desenvolvo no grupo de pesquisas MusMat da UFRJ”.
Referenciar a Universidade Federal do Rio de Janeiro na fala demarca o lugar onde hoje realiza ofício junto à instituição: é professor de Composição da Escola de Música da casa. Realça também outro componente importante, pois foi em território carioca que soube, na última semana, da comenda que receberá em 12 de julho deste ano.
Trata-se da Medalha Villa-Lobos, honraria concedida a ele pela Academia Brasileira de Música, na categoria Compositor, devido ao relevante legado para o cancioneiro nacional que continua a construir. São mais de três décadas emplacando novos sonidos e partituras, feito sublinhado pelo próprio artista como fruto de algo maior.
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Fotografia do músico durante apresentação com o grupo Syntagma, em 1988Foto: Arquivo Pessoal
“Recebi a notícia da conquista da medalha com grande alegria. É uma honra alcançar essa distinção já concedida a grandes músicos brasileiros. Significa certamente o reconhecimento de um trabalho que venho conduzindo ininterruptamente, além de ser um reflexo da parceria com excelentes instrumentistas comprometidos com minha obra e a manutenção de um ritmo profissional que vem se ampliando gradativamente”, sublinha.
Veja vídeo com apresentação do músico:
Alcance
A entrega do título, agendada para acontecer na já mencionada data, às 20h, terá como sede a Sala Cecília Meireles e contará com a apresentação de um concerto da Orquestra Sinfônica Nacional (OSN), em comemoração ao aniversário de 74 anos celebrado pela ABM, completos no dia 14 de julho. Momento, portanto, dos mais importantes para a história da arte sonora no País e eco imediato do que Pitombeira foi galgando ao longo da vida.
Apesar de ter cursado Eletrotécnica na Escola Técnica Federal do Ceará e trabalhado durante 16 anos na outrora Coelce (Companhia Energética do Ceará), hoje ENEL, o artista edificou uma sólida base musical ao realizar estudos no Curso de Música da Universidade Estadual do Ceará (UECE) à noite, concomitantemente ao emprego. Foi na instituição, inclusive, que se graduou, em 1996, e, desde a data, não parou mais de realizar trabalhos no segmento.
Desligando-se do serviço em 1998, foi cursar mestrado e doutorado nos Estados Unidos, com bolsa da Louisiana State University. Para ele – que considera Hermeto Pascoal, Heitor Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Egberto Gismonti, além de Stravinsky, Debussy, Bill Evans, Anton Webern, Magnus Lindberg e Bela Bartók como algumas das principais influências – as diretrizes musicais que persegue até hoje fizeram-lhe explorar componentes maiores.
 
“A clareza de intenções e a exequibilidade são prioridades. Com relação à primeira, procuro manter bem definidos cada um dos planos em jogo no contexto de uma obra musical, principalmente superfície e pano de fundo. Mesmo os momentos difusos devem ter uma função formal e integrar uma narrativa coerente e orgânica com a estrutura e contribuir para o discurso almejado pelo compositor”, enumera, de forma técnica. “Com relação à segunda prioridade, mantenho uma constante relação de colaboração e aprendizado com instrumentistas, no intuito de otimizar as intenções musicais em uma escrita viável”.
Cita ainda que os conceitos envolvidos na criação e organização desses materiais são variados: vão desde impulsos não-musicais, como um texto literário, uma estrutura formal matemática (um processo caótico, por exemplo) ou uma pintura, até impulsos puramente musicais, como o morfismo entre sonoridades, o adensamento ou rarefação texturais, bem como a variação de similaridade como fator determinante da forma, entre outros.
Embora toque violão, contrabaixo e flauta doce, Liduíno não atua como instrumentista há mais de 20 anos, tendo se dedicado exclusivamente à composição e ao ensino da composição e teoria.
Professor da UFRJ desde 2014 e com trabalhos reconhecidos internacionalmente, sobretudo pelas teorias e estudos publicados em diversos periódicos, ele avalia que, em termos de educação musical, o Brasil já passou por grandes progressos nos últimos 20 anos. Contudo, ainda há muito a ser feito, principalmente com relação a uma definição clara do campo da pesquisa no setor. 
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Liduino Pitombeira e o compositor greco-americano Dinos Constantinides, orientador da pós-graduaçãoFoto: Maria Di Cavalcanti
“Isso pode impactar positivamente os caminhos do ensino da música (graduação e nível técnico). Mesmo assim, tive a oportunidade de sentir um notório progresso em 2006, quando retornei de uma estadia de oito anos fora do Brasil: os alunos tinham visivelmente mais acesso à tecnologia e à literatura musicais – estavam mais atualizados e antenados com o que se passava no mundo”.
Planos
Versátil no que se propõe a fazer – também foi consultor de música da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará entre 1995 e 1997, fase em que elaborou e coordenou projetos como os da Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho e Quinteto de Sopros Alberto Nepomuceno, por exemplo – o músico adianta estar com uma série de projetos.
Seus Concertos N. 2 e N. 3, para viola e orquestra, terão estreias mundiais ainda neste ano –  o primeiro, pelo violista Fernando Thebaldi e a Orquestra Petrobrás Sinfônica, no Rio de Janeiro; e o segundo pelo violista Brett Deubner, no Equador.
No segmento da composição, há uma miríade de obras já iniciadas, como a Seresta N. 20, para o saxofonista cearense (de Icó), Jonatas Weima; uma peça para flautim e piano, para a flautista Thaís Bacellar, de Barra Mansa (RJ); um quarteto de cordas para o Quarteto MetAcústico, que será estreada no Festival Villa-Lobos deste ano; Concerto para Violão e Orquestra, dedicado à violonista venezuelana Elodie Bouny, entre outros.
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Há 20 anos, Liduino Pitombeira dedica-se exclusivamente à composição e ao ensino. Foto: Maria Di Cavalcanti
Por sua vez, em termos acadêmicos, as ideias incluem a organização e participação em diversos eventos associados à pesquisa em música, tais como o III Congresso MusMat e o Colóquio de Pesquisa do PPGM-UFRJ.
No Ceará, há planos de continuar trabalhos com o parceiro literário de sempre, o poeta Alan Mendonça, com quem já desenvolveu diversos projetos, incluindo uma obra para coro e orquestra dedicada à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, e um ciclo de canções encomendadas pela Kean University, em New Jersey (EUA).
A conversa com o Verso finaliza com o artista em ritmo de reflexão. Neste momento de amplas dificuldades para o setor cultural brasileiro, como o músico se posiciona?
 
“Como sempre: trabalhando, compondo, estudando, tentando sobreviver entre as ondas de progresso e regresso, e esperando que elites e governantes entendam que cultura (especialmente a música de concerto) só sobrevive, em qualquer parte do mundo, com abundante apoio, principalmente estatal”.
>> Composições premiadas
Liduíno Pitombeira já teve obras executadas por orquestras como o Quinteto de Sopros da Filarmônica de Berlim e que foram premiadas em primeiro lugar no II Concurso Nacional de Composição Camargo Guarnieri, com “Suite Guarnieri”, e no Concurso Nacional de Composição “Sinfonia dos 500 Anos”, com “Uma Lenda Indígena Brasileira”. Dentre várias outras condecorações, em 2005 ganhou o prêmio Interamericano de Música com um quinteto para metais, “Brazilian Landscapes N. 2”. A obra contém dois movimentos de características contrastantes entre si, Santo Antonio e Ingá. Os nomes são uma homenagem aos locais de nascimento da mãe e do pai do compositor, respectivamente.
 
Diário do Nordeste

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