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Jovita Feitosa é tema do primeiro livro lançado pela recém-fundada Chão Editora


As editoras Beatriz Bracher e Marta Garcia: experiência da dupla no mercado do livro confere novo fôlego à empreitada que iniciam, com particular ênfase no intercâmbio com o passadoFoto: Renato Parada
A gradual erosão de modelos convencionais de trato com o livro - temáticas redundantes e lançamentos caça-níqueis, por exemplo, orbitam a lógica produtiva de boa parte das grandes casas editoriais brasileiras - abre espaço para que novos atores no mercado do papel apresentem trabalhos na contramão do óbvio. O engajamento é sinal possível de algo ainda maior: leitores cada vez mais exigentes e ansiosos por projetos ousados e pertinentes às discussões do hoje.
Recém-fundada, a Chão Editora entra no rol das novíssimas empreitadas cuja busca no segmento é exatamente nessa aposta pelo inovar. De forma específica, na perspectiva de publicar escritos (cartas, diários, crônicas de viagem, relatos, depoimentos, memórias) que contem a história do Brasil por meio de experiências pessoais. Um lar, portanto, em potencial para títulos que há muito pedem uma primeira ou nova edição.
"Os textos devem estar preferencialmente em domínio público, e cobrir um período que vai do século XVII a meados do século XX. Também nos interessa uma literatura esquecida, não canônica ou mesmo menor, que possa ser lida como documento de época", detalha Marta Garcia (ex-Companhia das Letras e Cosac Naify), uma das idealizadoras da iniciativa. Com ela, está Beatriz Bracher, escritora e do time de fundadores da Editora 34, e o pai desta, Fernão Bracher(1935-2019).
A ideia é que os escritos sob a assinatura da casa devam vir acompanhados de posfácios de especialistas das áreas de História, Literatura e Antropologia, com função de contextualizar os documentos. E, sobretudo, fujam do tom acadêmico, sendo acessíveis a um público amplo.
"Buscamos ouvir as vozes do passado em suas próprias palavras. Consideramos que a gramática utilizada pelas pessoas no ontem contam um modo de vida e uma visão de mundo comum à época e, ao mesmo tempo, única de seu autor. Gostaria que pudéssemos conhecer mais pessoas de outros tempos e origens diversas. Esse barro que nos faz é o que queremos descobrir", destaca Beatriz.
Princípio
A estreia da Chão em brochura traduz todo o espírito observado na fala das sócias, com um bônus para as bandas de cá: a personalidade retratada na obra é cearense. "Jovita Alves Feitosa: voluntária da pátria, voluntária da morte", de José Murilo de Carvalho, aprofunda questões sobre a profissional militar, fazendo grande uso de material de época, na maior parte colhido em jornais.
A narração segue a linha cronológica; por sua vez, a costura textual é feita por alguns temas: a Jovita cívica e mulher guerreira; a apoteose da protagonista e seu uso político; a morte trágica e a memória que fez dela heroína da pátria e do movimento feminista.
"Jovita foi justamente apropriada por esse movimento, tão relevante hoje. Ela poderia mesmo ser também adotada pelo movimento negro, tendo em vista suas feições físicas. Seu exemplo de amor à pátria também é importante atualmente, quando está em fase de desaparecimento", justifica o historiador José Murilo.
Um dos autores convidados para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano - na qual deve falar sobre o escritor homenageado, Euclides da Cunha, e também da histórica figura cearense - José ressalta que o principal desafio em trazer a trajetória de Jovita Feitosa à tona foi a escassez de fontes.
Para se ter uma ideia, as existentes limitam-se na maior parte à vida pública da mulher, pouco se sabendo sobre sua família e vida antes de se apresentar como voluntária.
"Uma contribuição que julgo importante do livro foi a confirmação por documentos de seu suicídio e do enterro no Rio de Janeiro. Obras anteriores tendiam para a ficção, imaginando Jovita lutando e morrendo nos campos de batalha do Paraguai", considera, elucidando ainda que despertou para a personagem ao estudar a cidadania no século XIX.
"A história de Jovita me acompanhava há tempos e houve o interesse da Chão pelo tema. Atraiu-me de início o fato extraordinário de uma sertaneja semialfabetizada, vivendo no interior do Piauí, revelasse um sentimento tão profundo de patriotismo e igualdade de gênero. Espero oferecer aos leitores uma trajetória humana ligada estreitamente à história do País e a temas atuais".
Recuperação
Primando pelo cuidado e qualidade em dar vazão a cada um desses aspectos, a presente edição é reflexo do debruçar atento do enxuto e talentoso time que compõe a casa. Além de Beatriz Bracher e Marta Garcia, estão o editor-adjunto Carlos Inada e a designer Mayumi Okuyama, que trouxe para o papel uma referência à clássica coleção da Editora Gallimard, herdando, portanto, um design sóbrio e elegante para o exemplar.
Partindo dessa base, foram acrescentadas cores, tipologia variada e modernidade. "Algumas editoras trabalham ou trabalharam coleções conceitualmente afins à nossa, como a Itatiaia. Mas, no nosso caso, o foco são os anônimos, ainda que não descartemos a possibilidade defiguras conhecidas no catálogo", adianta Marta. Nesse movimento, estão planejados os lançamentos de um raro registro escrito por integrante de uma congregação católica de ex-escravos, e um romance abolicionista.
A Editora 34 distribuirá e venderá as obras de maneira exclusiva para livrarias de todo o Brasil, com possibilidade de compra pela loja virtual da casa. "Nosso foco não é comercial, mas cultural. Ainda assim, temos os olhos voltados para a frente e sabemos da importância da divulgação dos livros", sublinha Garcia.
Beatriz, por sua vez, arremata: "Não serão títulos que procuraram, em algum tempo, explicar o País. São livros que são o País, parte minúscula dele, uma pessoa em sua individualidade formada por sua linguagem".
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Jovita Alves Feitosa: Voluntária da pátria, Voluntária da morte 
José Murilo de Carvalho 
Chão Editora 
2019, 152 páginas 
R$ 44

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