Sombria paródia da realidade

Em 'A Literatura Nazista na América', Roberto Bolaño mostra como a cultura do nazifascismo está presente nas obras


Quando morreu, aos 50 anos de idade, o escritor chileno Roberto Bolaño estava na fila de espera por um transplante de fígado. Portador de hepatite C, faleceu de insuficiência hepática em 2003, na cidade de Barcelona. Além de 10 livros publicados, deixou quatro obras inéditas.

Roberto Bolaño pertence àquela legião de escritores que se tornam conhecidos, e devidamente reconhecidos, apenas depois da morte. Após 2003, sua obra ganhou visibilidade, foi descoberta por leitores, escritores, críticos e pesquisadores. Hoje é considerado um dos principais expoentes da literatura latino-americana da segunda metade do século 20.

A editora Companhia das Letras está lançando uma de suas obras mais significativas publicada originalmente em 1996: “A Literatura Nazista na América”. Na definição do próprio Bolaño, pode ser descrita como “uma antologia vagamente enciclopédica da literatura nazista produzida na América entre 1930 e 2010.”

Roberto Bolaño expõe a hipocrisia dos homens das letras que utilizam a literatura como exercício de poder
Roberto Bolaño expõe a hipocrisia dos homens das letras que utilizam a literatura como exercício de poder | Reprodução



























O livro traz a história e o perfil de 31 escritores e poetas de tendências nazistas e fascistas que fazem parte da história da literatura das Américas. Personalidades da Argentina, Uruguai, Chile, Brasil, Cuba, Venezuela, Estados Unidos, Colômbia, México, Haiti, Guatemala e outros países. Figuras que tiveram a produção literária estritamente direcionadas ou vinculadas ao totalitarismo de Adolf Hitler.

O detalhe é que, Roberto Bolaño não criou “A Literatura Nazista na América” como pesquisa histórica, mas como ficção. Seguindo princípios literários de Jorge Luis Borges (1899 – 1986), inventou todos os 31 personagens retratados. Criou a história, a vida imaginária e a obra literária, igualmente imaginária, de cada um dos personagens. Tudo dentro de uma realidade histórica, social, política, econômica e geográfica. Tudo dentro do contexto dos cânones da literatura das Américas.

O leitor é assombrado pela capacidade de verossimilhanças das narrativas. As histórias criadas e os personagens inventados por Bolaño estão tão próximos da realidade, tão próximos das probabilidades históricas, que os limites entre ficção e realidade desaparecem. As relações infames entre o poder e a literatura são reveladas nas ações mais cotidianas.

O brasileiro presente no volume é Amado Couto, autor de romances policiais nascido em Juiz de Fora em 1948. Paralelo à atividade de escritor, atuava como miliciano do Esquadrão da Morte do Rio de Janeiro. Atuou na eliminação de dezenas de “pessoas indesejáveis”. Considerava necessária a literatura concretista de Augusto e Haroldo de Campos, mas achava tudo muito chato. Não entendia a escrita de Osman Lins, mas admirava a de Rubem Fonseca.

“A Literatura Nazista na América” pode ser lido como um livro de contos, com 31 narrativas distintas. Mas também pode ser lido como um romance que, interconectando as narrativas entre si, impulsiona uma leitura mais abrangente, elegantemente potencializada.

A grande questão está no fato, real e concreto, de que o mal pode ganhar maior visibilidade nas estâncias da política, mas ele se manifesta como semente nas instâncias simples e discretas. Aquilo que se esconde sob a figura do intelectual, do jornalista, do cronista, do escritor ou do poeta de tendências nazistas, ou fascistas, ou totalitárias. Uma tendência que aposta na humilhação do outro como não igual. No desprezo ao outro como não espelho. Na eliminação do diferente como solução das desigualdades.

Roberto Bolaño expõe a hipocrisia dos homens das letras que utilizam a literatura como exercício de poder. Que utilizam a literatura como cúmplice da barbárie, como exercício de violência pela supremacia de identidades. Tudo com um humor profundamente sarcástico e refinado.


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Serviço:
“A Literatura Nazista na América”
Autor – Roberto Bolaño
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Rosa Freire d’Aguiar
Páginas – 240
Quanto – R$ 54,90

Fonte: Folha de Londrina

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