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Fé, preconceitos e ódio ao feminino: livros abordam a história da bruxaria


Recém-lançadas, obras revelam erros e discriminações intrínsecos à imagem dessas personagens


Histórias de bruxas ocupam lugar de destaque numa pedagogia do medo. São evocadas como uma ameaça que impõe limite às crianças. A pena da transgressão - de se distanciar dos pais, de fazer o que não devia ser feito - é ser levado por uma dessas personagens para sabe-se lá sofrer que maldades em suas mãos. Faz parte dessa assombração útil aos adultos uma imagem que inspire repulsa: a bruxa é a velha encurvada, de nariz disforme, vestes negras e chapéu pontudo, com poderes mágicos maléficos.
No entanto, as bruxas existem, como no dito espanhol, independentemente que os adultos creiam nelas. Os historiadores que se detiveram em suas manifestações passadas, porém, concordam em desqualificar a caricatura usada para assustar crianças. Não é de se espantar que um recurso pedagógico equivocado trouxesse inscrito tantos erros e preconceitos - estes, bem mais perigosos do que qualquer feiticeira pilotando uma vassoura pelos ares.
Dois livros recém-lançados mostram isso: "História da Bruxaria", de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander; e "As bruxas: Intriga, traição e histeria em Salem", de Stacy Schiff. O primeiro é uma obra de referência, em edição atualizada, e traz uma longa narrativa falando das práticas de bruxaria em diversos momentos históricos nos países discentes (incluindo os atuais praticantes da religião Wicca).
O segundo mergulha num caso famoso (tratado de forma abreviada naquele), no século XVII, entre os puritanos dos EUA. Ambos têmmuito a dizer sobre o presente, para além do contexto místico.
Imprecisões
Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander abrem "História da Bruxaria" batendo de frente com noções equivocadas acerca das bruxas. Isso inclui a caricatura, que tem sua encarnação mais exemplar na vilã do clássico "O Mágico de Oz". A imagem difundida tem raízes em pinturas e gravuras dos primeiros séculos da Idade Moderna, carregados de imaginação e imprecisão histórica, traduzindo visualmente falsidades (maliciosas, por vezes) contra as bruxas.
Os autores também explicam que a bruxaria nada tem a ver com cultos de adoração diabólica. A prática, encontrada desde a Antiguidade em diversos povos, está associada a crenças em que um sujeito, com conhecimentos especiais, é capaz de intervir no mundo físico. A associação aos velhos é simples de se explicar: nas comunidades tradicionais, são eles os detentores da sabedoria.
O avanço do Cristianismo, no capítulo mais triste dessa tradição religiosa, viu o Diabo disfarçado em deuses e seres místicos de outros credos (séries como "Sabrina", da Netflix, por subversiva que possa parecer em seu satanismo, vai ao encontro de preconceitos que acompanharam há séculos a bruxaria).
Feminicídio
"História da Bruxaria" faz um arco narrativo da Antiguidade ao tempo presente. Mas é quando se detém na Idade Média e nos primeiros séculos depois dela que a leitura fica magnética. A associação bruxas/satanismo é uma história de horror, não do tipo fantástico que Hollywood gosta de retratar. Comparação mais apropriada seria com as perseguições nazistas a diversos grupos durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo judeus, ciganos e homossexuais.
A perseguição às bruxas é, eminentemente, uma história de misoginia e feminicídio. Preconceitos que ainda hoje lançam sombras sobre nossos dias foram codificados como manifestações diabólicas, típicos de praticantes de bruxaria. As mulheres que desviavam os homens do caminho reto, com seus corpos que eles não entendiam; eram dadas a intrigas e tinham comportamento vingativo.
Por trás disso, havia a intenção de normatizar e restringir as mulheres, a expressão de sua sexualidade e a relação com o prazer, e mesmo seu conhecimento. As porções das bruxas têm a ver com o entendimento feminino, numa Europa agrária, do uso de plantas com fins curativos e de práticas médicas (caso do parto). Sua reclusão à casa a tornava mais apta a desenvolver tais habilidades. E a formalização da medicina nas universidades não viu com bons olhos tais "crendices" difundidas ao longo do tempo.
Estima-se que 100 mil "bruxas" tenham sido queimadas na Idade Média. Em Salem, já no novo mundo, sob fé protestante, a caça a elas foi reeditada, em 1692. Mais uma vez as mulheres foram as principais vítimas da ignorância: 14 foram executadas, cinco homens e dois cachorros - todos acusados de bruxaria, com provas que, como mostra Stacy Schiff no livro, beiram à histeria coletiva.
As duas obras ajudam a inverter o entendimento: em toda a história, mais aterrorizante do que as bruxas e as "bruxas", foram aqueles que as caçaram.
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As bruxas: Intriga, traição e histeria em Salem 
Stacy Schiff 
Tradutor: José Rubens Siqueira 
Editora Zahar
2019, 344 páginas 
R$ 89,90 
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História da bruxaria
Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander 
Tradução: Álvaro Cabral e William Lagos
Editora Goya 
2019, 280 páginas
R$ 49,95

Diário do Nordeste

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