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Exposição "À Nordeste", em cartaz em São Paulo, lança olhar plural sobre a região

Por Ana Beatriz Farias


Mais de 300 obras, algumas delas produzidas por nordestinos e outras por admiradores desse território, ocupam o Sesc 24 de Maio, em São Paulo, até o dia 25 de agosto


Longe das paredes brancas, as obras não figuram sozinhas sobre cenário liso e minimalista como os de tantas exposições artísticas. Na mostra montada no quinto andar do Sesc 24 de Maio, Centro da cidade de São Paulo, a mistura de cores, mídias, linguagens e autorias é como apertado abraço dado pelo Nordeste profundo. A região é transformada em arte por mais de 160 realizadores que pertencem a essa geografia ou atravessam-na em algum momento com sua produção. Entre eles, 29 são cearenses ou versam sobre o estado do Ceará em seus trabalhos.
A exposição "À Nordeste", em cartaz até o dia 25 de agosto, é porta de entrada para inquietações que nos levam a uma viagem diferente pelos nove estados nordestinos. Cada uma das mais de 300 obras é janela, através da qual pode-se ir descobrindo relevos dessa área demográfica mais extensa que muitos países mundo afora.
Caminhar sobre os 1.200 metros quadrados do espaço é também andar sobre a corda bamba do tempo, já que a curadoria de Bitu CassundéClarissa Diniz e Marcelo Campos foi feita com o intuito de tocar as diversas manifestações artísticas de maneira atemporal e multiplataforma.
A pluralidade, assim, é impressa de modo abrangente, tanto no que diz respeito às modalidades de manifestação - há espaço para vídeos, instalações, música, artes plásticas, esculturas em madeira e outras linguagens -, quanto ao aproveitamento do espaço. Viver a "À Nordeste" é como estar em meio ao que de mais criativo e fértil há no caos.
Por todo lado, existe algum material, do rudimentar ao tecnológico, transformado em expressão estética, política e histórica. Uma estratégia utilizada para que o caminho percorrido pelos visitantes vá ao encontro das reflexões dos curadores é a ramificação da mostra em oito núcleos: futuro, insurgência(de)colonialidadetrabalho,natureza, cidade, desejo e linguagem.
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A fotografia exposta na mostra destaca a performance feita pela artista Sabyne Cavalcanti
Foto: Henrique Didimo
De acordo com Bitu Cassundé, os temas foram criados apenas para nortear a visita, e não na tentativa de limitar as possíveis interpretações de cada trabalho: "ao mesmo tempo em que esses núcleos estão indicados em determinados lugares, a expografia permite que eles se relacionem entre si".
Já a opção de espalhar as obras por todo o espaço foi feita na tentativa de abranger o máximo possível de material. "É uma exposição que utiliza até partes que não são comumente usadas, como a testeira do espaço, que é a parte mais alta e tem umas fotografias gigantes. Tem vários trabalhos que a gente tentou colocar em lugares não convencionais para aproveitar ao máximo o espaço e tentar ter o conjunto mais grandioso possível nessa exposição", conta.
Pesquisa em campo
O desejo de expandir o panorama é natural diante das circunstâncias vividas pelos curadores no período de preparação da mostra.
"É um projeto que une as pesquisas dos três. A gente vem se dedicando a investigar o Nordeste e questões relacionadas há muitos anos e surgiu esse desejo de unir nossas pesquisas em um projeto só que repensasse a região", introduz Bitu Cassundé. 
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A jaqueta de couro do mestre Espedito Seleiro chama a atenção pela riqueza de detalhes Fotografias dos cearenses
Foto: Ana Beatriz Farias
"Há dois anos, o Sesc sinalizou a possibilidade de esse projeto ser executado em uma das unidades, em São Paulo, e, para nós, era interessante pensar o Nordeste a partir de São Paulo. Desde o começo de 2018, a gente já começa a esboçar uma produção mais voltada para a exposição", completa.
Em junho do mesmo ano, 2018, os curadores iniciaram uma série de viagens por todas as capitais nordestinas e algumas cidades interioranas, escolhidas pela representatividade cultural. "A região do Cariri, o Recôncavo Baiano e a Ilha do Ferro, em Alagoas. A gente optou por adentrar algumas regiões do interior para fazer uma pesquisa mais direcionada nesses espaços", conta Bitu.
Terra da luz
Como parte desse universo revelado está o Ceará, representado na mostra por grandes nomes. "Tem artistas bastante significativos para a história da arte cearense, como Antônio BandeiraRaimundo CelaChico da Silva e Chico Albuquerque. Também buscamos trazer uma produção mais jovem, como a de Marina de Botas e a de Sabyne Cavalcanti. Há nomes de uma geração importante para o Ceará, os anos 80, início de 90, como um dos principais artistas brasileiros, que é o cearense Leonilson. Tem a Guiomar Marinho, que tem um trabalho extremamente rico em tapeçaria", enumera o curador.
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Obra do artista Alan Adi remete à história do cangaço
Foto: Ana Beatriz Farias
Esculturas em madeira de um dos símbolos mais marcantes da fé cearense, Padre Cícero, ganham destaque em galeria compartilhada com muitas outras obras. Uma jaqueta de couro feita pelo mestre Espedito Seleiro e uma instalação que faz referência às cabeças de Lampião e do bando do cangaceiro, utilizando capas de discos gravados por cantores nordestinos, exemplificam esse conjunto.
São muitas as interpretações possíveis para essas e tantas outras obras presentes no salão do Sesc 24 de Maio. Por isso, a exposição "À Nordeste" merece ser olhada sem pressa, com a demora de quem quer perceber as minúcias de uma região tão rica. Preparados para uma condução flexível, com duração de acordo com a disponibilidade dos visitantes e adaptável para pessoas com necessidades especiais, os profissionais responsáveis por guiar quem chega à mostra são fator de destaque, o que coroa o processo tão detalhista de curadoria compartilhada.
Serviço
Exposição À Nordeste
Em cartaz até o dia 25 de agosto,
de terça a sábado, das 9h às 21h,
e aos domingos, das 9h às 18h,
no Sesc 24 de Maio (Rua 24 de Maio, 109 - Centro, São Paulo).
Classificação indicativa: 14 anos.
Entrada gratuita.
Mais informações no site ou pelo telefone (11) 3350-6256.

Diário do Nordeste

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