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Mulheres quilombolas de Alto Alegre (CE) expõem telas bordadas com a história da comunidade


A mostra entra em cartaz na Casa Bendita, em Fortaleza, nesta quinta-feira (11), a partir das 18h


Edna nunca tinha colocado uma linha na agulha. A primeira vez que fez isso foi no fim de 2017, quando um coletivo de bordadeiras começou a se formar na comunidade de Alto Alegre, em Horizonte, área reconhecida pela Fundação Palmares como remanescente dos Quilombos. Assim como ela, outras onze mulheres do lugar, incluindo irmãs, tia e sogra, também decidiram se dedicar à técnica que, hoje, tanto as conecta ao passado como as projeta no presente e no futuro de resistência quilombola.
"Primeiro, aprendemos as cores primárias e secundárias, e quais linhas combinavam com elas e com os desenhos. Depois, fomos para a aula prática com agulha e fizemos ponto areia, ponto arte, ponto corrente, zig zag, nó francês, rococó. Mas o grande desafio da gente após o aprendizado básico foi como bordar o retrato da nossa comunidade", lembra Francisca Edna da Silva, aos 42 anos.
Acompanhadas desde o início pela socióloga Cássia Enéas e pela professora de bordado Juliana Farias, as novas bordadeiras logo chegaram a uma conclusão: iriam contar a história de Cazuza, homem negro que fugiu da condição escrava, casou com uma mulher indígena Paiacu - com a qual teve muitos filhos -, e deu origem a Alto Alegre. A narrativa transmitida oralmente, de geração a geração, agora ganharia o reforço das linhas e cores do grupo "Bordando Resistência".
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Cazuza teria fugido de um navio negreiro que aportou na praia da Barra do Ceará
BORDADO: EDNA/ FOTO: ISANELLE NASCIMENTO
"Porque Cazuza resistiu, resistiremos também". O lema inspirou a exposição de telas homônimas, construídas ao longo de um ano de trabalho, e apresentadas em Fortaleza pela primeira vez em maio de 2019, na Assembleia Legislativa. Na próxima quinta-feira (11), as obras ocuparão as paredes da Casa Bendita, no Meireles, ficando expostas até o dia 31 de julho.

PROCESSOS

Cássia Enéas conheceu as mulheres de Alto Alegre em 2009. Durante sete anos, ela trabalhou na assistência social do município de Horizonte. Na comunidade em questão, vale ressaltar, a maioria dos remanescentes são agricultores e vivem em condições de invisibilidade e de exploração de mão de obra.
Nesse contexto, as mulheres sofrem mais ainda, portanto pensar em ações afirmativas, que ampliem os olhares femininos para os próprios corpos, ancestralidades e identidades, é um ato de resistência. E foi exatamente isso que Cássia fez.
negro cazuza açoitenegro cazuza açoite
Durante a fuga, negro Cazuza foi aprisionado por sua bravura, açoitado e levado ao tronco.
BORDADO: SOUSA/ FOTO: ISANELLE NASCIMENTO
"Eu trabalhava diretamente com um eixo que fortalecia a política de igualdade racial, e foi a partir dele que eu me aproximei das meninas", recorda a socióloga. Porém, somente depois que encerrou as atividades profissionais na região, em 2016, é que ela teve a ideia de desenvolver o grupo de bordado com as quilombolas.
A proposta veio em 2017, após participar de um curso ministrado por Juliana Farias, que logo recebeu o convite para também colaborar. "No início, as meninas não sabiam o que era nem o que esperar. Metade do grupo é de senhoras de idade, com problemas de vista, por isso fomos bem devagar, num processo lento. O intuito era mesmo que elas se apaixonassem em cada agulhada, cada ponto. Elas se apaixonaram, ficaram encantadas", comemora Juliana.
negro cazuzanegro cazuza
Cazuza sobreviveu da agricultura, atividade que até hoje é a principal fonte de renda para a comunidade
BORDADO: ROSA/ FOTO: ISANELLE NASCIMENTO
Edna confirma as palavras da professora, e ressalta os benefícios da atividade para o grupo. "Essa formação significou um aprendizado maior para a nossa convivência. Muitas das mulheres que hoje fazem parte do coletivo eram deprimidas. Na minha família mesmo, tem uma tia minha que vivia doente. O bordado a libertou", identifica ela.

AUTONOMIA

A partir de encontros quinzenais, a maioria deles realizados no Centro Cultural Quilombola Negro Cazuza, em Alto Alegre, as bordadeiras foram amadurecendo a produção. Atualmente, elas conseguem bordar pelo menos 25 pontos diferentes e já transmitem o que sabem às novas gerações. "Tem uma sobrinha minha que tá aprendendo. Ela tem 5 anos, a Ana Luiza, e já tá indo junto com a gente para os encontros, nossa mascote", brinca Edna.
Durante a abertura da exposição na Casa Bendita, as doze integrantes do Coletivo "Bordando Resistência" também conduzirão um momento de oficina, apresentando os princípios básicos aos interessados na técnica.
negro cazuzanegro cazuza
Sabe-se que Cazuza viveu muitos anos, mas não existe uma precisão sobre sua idade na ocasião da morte
BORDADO: REGI/ FOTO: ISANELLE NASCIMENTO
Além disso, estarão disponíveis para venda outros produtos produzidos pelas mulheres de Alto Alegre, tais como bolsas, porta-documentos, quadros, capas para almofadas e algumas bonecas negras feitas de papel machê.
O próximo passo é a geração de renda para a reforma de uma casa, na comunidade, onde funcionará o ateliê. "A gente quer dar autonomia ao grupo e, para isso, precisamos de um local, mesmo que seja pequeno, simples, mas que seja do coletivo. Já conseguimos uma casa pequena, vamos reformar toda, mas é lá que pretendemos trabalhar", finaliza Cássia, certa de que as linhas bordarão um caminho sem fim.
Serviço
Exposição "Porque Cazuza resistiu, resistiremos também". Abertura nesta quinta-feira (11), às 18h, na Casa Bendita (Av. Rui Barbosa, 888, Meireles). Em cartaz até o dia 31 de julho. Horário de visitação: De terça-feira a domingo, de 8h às 21h. Gratuito.

Diário do Nordeste

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