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'Olhos bruxos', de Eliezer Moreira, narra obsessão por Machado de Assis

Livro do escritor baiano revisita universo machadiano, estabelecendo diálogo entre autor e personagem, que busca capturar o olhar e a sensibilidade do Bruxo do Cosme Velho.
Fotografia do século 19 mostra lojas e residências da Rua d Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro.
Fotografia do século 19 mostra lojas e residências da Rua d Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro. (Rafael Castro y Ordoñez/Biblioteca Nacional)

Por Jacques Fux*
O conto Pierre Menard, autor do Quixote, escrito por Jorge Luis Borges, aparece em seu livro Ficções e é um dos mais ricos e intrigantes textos acerca da questão de autoria e das releituras/reescritas do cânone literário. A narrativa tem como mote os trabalhos deixados por Pierre Menard, que poderiam ser divididos em dois momentos: a obra “visível” – formada por trabalhos técnicos (tradução) e críticos, sem nada de especial – e a outra, “a subterrânea, a interminavelmente heroica, a sem par. A inconclusa, e talvez a mais significativa do nosso tempo”. Essa segunda e surpreendente parte é composta pelos capítulos 9 e 38 da primeira parte do Dom Quixote, e de um fragmento do capítulo 22, do mesmo livro. E, para o espanto e encanto de todos nós leitores, Menard não compôs um Quixote contemporâneo, o que seria um projeto pífio, de acordo com o narrador; Menard escreveu verdadeiramente “o Quixote”, de modo que cada palavra e cada linha coincide com as páginas originais escritas séculos atrás pelo engenhoso Cervantes.
Para o especialista na obra borgeana, Emir Rodriguez Monegal “ler um livro é algo mais que exercer uma atividade passiva. É uma atividade mais intelectual que a de escrevê-lo, como assinala paradoxalmente o primeiro prólogo à História universal da infâmia; é uma atividade que participa da própria criação, já que é um diálogo com um texto. É, porém, muito mais ainda, já que se concebemos o Universo como um Livro, cada um de nós (sejamos autores ou leitores) somos simplesmente letras ou signos desse livro; somos parte de um todo, e nos perdemos nesse todo, somos alguém e ninguém”.
O livro Olhos bruxos, de Elizer Moreira, repousa sobre esse princípio borgeano-menardiano da reescrita/releitura do cânone. A trama do livro é interessante: há um roubo do pincenê de Machado de Assis visando uma apropriação do olhar, da sensibilidade e da aura do célebre escritor: “Não roubou os óculos, roubou sua aura, aquilo que eles propiciaram ao escritor, sua maneira particular de ver o mundo. Não, meus amigos, o interesse, o alvo do ladrão não eram os óculos, mas os olhos. Aqueles olhos que souberam enxergar a vida e as dores humanas de forma tão penetrante é que se tornaram objeto da cobiça desvairada do ladrão, os olhos bruxos de Machado de Assis é que foram levados pelo misterioso larápio”.
Olhos bruxos pode ser visto como uma homenagem, uma usurpação literária da obra machadiana – assim como Pierre Menard teria feito em relação à obra-mor de Cervantes. Há uma tentativa de pastiche, de um simulacro do próprio simulacro – busca utópica pelo olhar do outro, do cânone, do mestre. Ele, o autor machadiano/borgeano, Eliezer Moreira, nasceu em Cocos (BA), em 1956. É jornalista, mestre e doutor em literatura e publicou o romance Um homem querendo vender sua morte, o ensaio biográfico Jeanne Bonnot: uma vida entre guerras, a novela Florência diante de Deus e o romance Ensaio para o adeus.
A escrita é um processo difícil, árduo e solitário. Uma das grandes dificuldades da narrativa ficcional é a de pensar na recepção, em razão do conhecimento e da cultura do leitor. Quem é ele? O que ele sabe? O que nos é permitido contar? O que é melhor silenciar? O que é necessário repetir? Dar ênfase? O que se pode deixar nas mãos desse “estimado leitor”? Em Seis passeios pelos bosques da ficção, Umberto Eco nos apresenta uma autora “que fala demais” e um que torna a literatura enigmática e misteriosamente maravilhosa. Carolina Invernizio, em seu romance A estalagem assassina, escreveu: “Era uma bela noite, embora fizesse muito frio. As ruas de Turim estavam claras como se fosse dia, iluminadas pela lua alta no céu. O relógio da estação marcava sete horas. Sob o grande pórtico ouvia-se um barulho ensurdecedor, uma vez que dois trens expressos se cruzavam. Um estava partindo, o outro estava chegando”. Em A metamorfose, Kafka engendra o início da seguinte forma: “Certa manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa se viu transformado num inseto gigantesco”. Invernizio explica demais e é exageradamente redundante. Ela não permite ao leitor a capacidade de inventar e sublimar. Já Kafka incomoda e angustia. Encanto puro. Quem seria esse inseto? Quais seriam os motivos desses sonhos agitados? Que nome seria esse? Pesadelo ou realidade?
Machado de Assis – se recordamos, por exemplo, de seu Dom Casmurro – foi um mestre do silêncio, das angústias e mistérios. Ainda há enigmas e questões insolúveis e perpétuas; por isso, fascinantes. Seu copista contemporâneo – o narrador de Olhos bruxos – é, muitas vezes, exagerado em explicações e redundâncias como Invernizio. A razão do furto do pincenê é continuamente revisitada. Sua busca pela linguagem do “tempo” de Machado é meritória, as cartas que permeiam o texto são bem escritas, a trama borgeana foi pensada... porém não soa natural como deveria ser esse o projeto desse outro Menard. A leitura não é fluida e, algumas vezes, é didática demais. Entretanto, nós “letras ou signos desse livro-Universo” lemos Olhos bruxos como uma homenagem à literatura.

OLHOS BRUXOS
De Eliezer Moreira
Editora Penalux
238 páginas
R$ 45


*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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