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Uma Academia de Litros

Nessa academia que não é de letras, mas de litros, fala-se de tudo, até mesmo de literatura

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

Confesso que no primeiro momento não me entusiasmou a ideia de fazer parte de uma roda de escritores. Por temperamento, não sou muito gremial – e, ao ouvir o convite, lá do fundo da memória veio a lembrança de uma confraria literária a que cheguei a pertencer, aos 18 anos, seduzido pela empolgação do Floriano, meu colega na construtora onde, mau aluno, eu fora posto para trabalhar como auxiliar de escritório. 
Vamos lá, concitou o comparsa, também ele aspirante às letras e, a meu ver, veteraníssimo, em seus 25 anos de idade. Ao contrário de mim, cuja obra publicada se resumia a um texto pretensamente jocoso em A Inúbia, o jornalzinho do Colégio Estadual, o Floriano me parecia já encaminhado na carreira, pois, embora inédito, era autor de uma penca de sonetos, que sua inspiração, torrencial, disparava ao menor pretexto, ou sem pretexto algum, e nos quais revelava uma propensão ao uso destrambelhado de reticências e pontos de exclamação, incumbidos, umas e outros, de sublinhar as rarefeitas sutilezas de um versejador que amava florear a escrita.
E eis que ali estava eu, numa saleta no centro da cidade, intrometido numa roda de gente ainda mais velha que o Floriano, enquanto lá fora crepitava uma tarde de sábado. Para complicar, vi que estava a bordo de um bonde já bastante andado: fazia semanas que o assunto era Gregório de Matos, de quem uma ensebada antologia rodava de mão e mão, para que todos lessem uma estrofe do poeta baiano do século 17. 
Quando, aproximando-se a minha vez, uma tremelicante voz feminina entoou o decassílabo “mariposa entre as chamas consumida”, aleguei alguma urgência e, feito o marido que saiu para comprar cigarro, me escafedi para nunca mais voltar. A impressão que tenho é de que, excetuados os casos de falecimento, a confraria continua reunida naquela saleta, onde o assunto segue sendo Gregório de Matos. O Floriano? A gente se perdeu de vista, e quando, num encontro casual, perguntei pelos sonetos, ele me contou, feliz da vida, que nunca mais fez um depois de se casar. Viva o casamento, pensei.
*
Mas eu dizia, antes de me dispersar, que um tempo atrás fui convidado a fazer parte de uma confraria de escritores das Perdizes.
Credencial não me falta, morador que sou nesse bairro paulistano há mais de 40 anos. A ideia de formar o grupo, soube depois, foi do Pasquale Cipro Neto, mas quem me chamou foi o Frei Betto, que além de amigo vitalício venho a ser vizinho crônico. Crescemos juntos em Belo Horizonte, eu na rua Padre Severino, ele na Major Lopes – onde, aliás, morava também a Dilma Rousseff, então Dilminha. Minha mãe e a do Betto, dona Stella, eram amigas, dessas de trocar receitas. E não é que, transplantados para São Paulo, em tempos e por motivações diversas, viemos a reincidir, nas Perdizes, em nossa condição de vizinhos? 
Ele não se lembra, mas foi o segundo convite que me fez. O primeiro, no princípio da adolescência, foi para me integrar à JEC, a Juventude Estudantil Católica. Talvez por não ser tão estudantil assim, não esquentei lugar ali. O lugar era o desativado cine São Luiz, na rua Espírito Santo, no qual, removidas as espartanas cadeiras, abriu-se espaço logo ocupado, possível como chamarisco para a JEC, por peladas vesperais de futsal, novidade uruguaia que na época ainda se chamava futebol de salão. 
Perna de pau também nas quadras, não avancei no futsal – e menos ainda na JEC, da qual uma lembrança que me ficou foi a de um camarada mais velho, o Fernandão, que nos intervalos da pelada entretinha a patuleia com um catolicismo bem mais interessante do que o ministrado no catecismo tradicional. Tinha um nariz enorme e torto – torto de tanto pensar, cochichou alguém, pois o Fernandão, ao falar, costumava apoiar nele o indicador, forçando a tromba para o lado oposto.
Foi a primeira vez que ouvi alguém chamar Jesus de “o Cristo”, íntimo, sem maior cerimônia, como se falasse de um tio bacana e jovial descido à Terra para confraternizar com os pecadores. Mais um pouco e Ele, despindo a maiúscula, pediria para entrar no futsal.
*
O que devo levar? – indaguei ao Betto quando me contou que a roda de escribas perdizianos se reuniria numa dependência do convento dos dominicanos: ouro, incenso ou mirra? Traga um vinho ou queijo, orientou ele – e aproveitou para esclarecer que se tratava de uma academia, não de letras, mas de litros, sem jetom nem mausoléu, porém divertida. E nem tão perdiziana assim, constatei ao ver entre nós, embora morador em outro bairro, o Ricardo Kotscho, praticante e expoente de algo cada vez mais raro em nossa imprensa, a “reportagem externa”, aquela em que o repórter, em vez de criar limo no bem-bom da redação, sai à rua em busca da notícia. Tampouco rígido seria o nosso calendário: uma vez por mês, com intervalos variáveis. 
Por lá têm dado as caras, além dos dois vizinhos crônicos, o Ivan Angelo, o Luiz Ruffato, o Pasquale Cipro Neto, a Juliana Loyola, o Kotscho, o Nicodemos Sena, a Marli Perim, o Mario Sergio Conti. No que tange a Lira Neto, escalado na primeira seleção, lamentavelmente não nos deu ainda o gosto de sua presença. O premiado biógrafo estará escrevendo a vida de alguém, ou, melhor ainda, desfrutando a sua.
A roda foi aos poucos se alargando. Achegaram-se a Renée e o Octavio de Barros, a Cleo Regina e o Danilo Santos de Miranda, além da Ana Massochi, restauratrice emérita. Em mais de uma ocasião, decidiu o comandante Betto que a turma deixaria a igreja (mas não a outra, com I maiúsculo) para excepcionalmente reunir-se em torno da mesa generosa da Renée e do Octavio ou da Cleo e do Danilo. 
De uns tempos para cá, brotou na confraria um ramo musical, a cargo do Tom Zé, do Renato Brás e do Celso Adolfo, e mais a voz sem jaça da Juliana. Mas pauta, gente, pauta ali não há nenhuma, nem mesmo musical. Que siga sendo assim. Na nossa Academia de Litros, jamais chata, fala-se de tudo. Se bobear, até mesmo de literatura. 
Cultura/Estadão

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