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A poesia que conversa com a vida e com o testemunho

Conhecido por sua prosa e suas memórias sobre o Holocausto, o escritor Primo Levi confronta a catástrofe e a o horror em poemas reunidos na coletânea 'Mil sóis'.
Primo Levi, sobrevivente do horror nazista, tem antologia bilíngue de poemas lançada no Brasil.
Primo Levi, sobrevivente do horror nazista, tem antologia bilíngue de poemas lançada no Brasil. (Leemage/AFP)

Por Jacques Fux*
Em 7 de junho de 1961, ao prestar o seu testemunho durante o julgamento de Eichmann, o escritor Ka. Tzetnik – Yehiel Dinur, sobrevivente de Auschwitz, protagonizou uma cena-chave nesse penoso processo. Visivelmente transtornado ao relembrar o que chamou das “crônicas de outro planeta”, Dinur desmaiou e teve que ser carregado para fora do tribunal. Anos mais tarde, em entrevista concedida ao programa 60 minutos, o escritor argumentou que o mais pavoroso durante seu testemunho foi compreender que ele próprio (ou todo ser humano) teria sido capaz de fazer o que os nazistas – na figura do temível e banal Eichmann – empreenderam: “Eu fiquei com medo de mim mesmo... Eu vi que era capaz de fazer isso. Eu sou… exatamente como ele. Eichmann está em todos nós”.
Anos antes do Holocausto, Dinur havia escrito e publicado um livro de poemas. Após a Shoah, que marcou seus escritos e sua vida, o autor disse que sua poesia não tinha mais sentido e que deveria ser destruída. Assim, o escritor foi até a uma biblioteca que continha os seus versos, pegou-os emprestado e os devolveu em cinzas. Relendo à sua maneira a famosa frase de Adorno: “Escrever um poema após Auschwitz seria um ato de barbárie”, Dinur rechaçou a própria poesia já que, para ele, todos os textos escritos antes da Segunda Guerra não significavam absolutamente nada.
Como é possível fazer poesia? É legítimo escrever versos depois do Holocausto?  O que significa testemunhar – poeticamente – após um evento de tal magnitude? A Editora Todavia – com uma bela tradução e seleção de Maurício Santana Dias – nos presenteia com Mil sóis, reunião dos poemas de um dos maiores escritores da Shoah, Primo Levi. O sobrevivente italiano, que com sua prosa levou os problemas do testemunho ao extremo, complementa seus relatos por meio de sensíveis palavras. Os leitores, sobretudo os que conhecem os tocantes livros, É isto um homem? e Os afogados e os sobreviventes, vão certamente se emocionar com a delicadeza das lembranças do autor.
Levi se debruçou no duplo paradoxo da testemunha da Shoah: a impossibilidade de expressar por meio de palavras um evento-limite, e o paradoxo da condição do sobrevivente, que testemunha, por aproximação, a experiência radical daqueles que não sobreviveram. A simultânea impossibilidade e necessidade de testemunhar habita a cisão entre o que é possível dizer e o que de fato se diz de forma falha e incompleta. Em Os afogados e os sobreviventes, o Levi escreve: “Repito, não somos nós, os sobreviventes, as autênticas testemunhas. Esta é uma noção incômoda, da qual tomei consciência pouca a pouco, lendo as memórias dos outros, relendo as minhas, muitos anos depois. Nós, sobreviventes, somos uma minoria anômala, além de exígua: somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, não tocamos o fundo. Quem o fez, quem fitou a górgona, não voltou para contar, ou voltou mudo: mas são eles, os ‘muçulmanos’, os que submergiram – são eles as testemunhas integrais, cujo depoimento teria significado geral”.
Diferente de Dinur, que antes da Segunda Guerra se dedicou à poesia, e que depois de quase ter submergido tornou-se Ka. Tzetnik (prisioneiro) e compôs o seu testemunho por meio de uma literatura que explorava a “pornografia do Holocausto”, Levi, mesmo sabendo dos limites das suas palavras, dedicou-se à prosa e à poesia. Em dois belos e tocantes poemas, vemos Levi flertando com essa górgona. Seja pelo olhar poético enfrentando a catástrofe, seja pela voz paradoxal do testemunho, é inquestionável que devemos encarar o passado – os traumas, crimes, torturas, ditaduras e perseguições – para que a onda negacionista não absorva o que resta da nossa cultura (que ainda caminha lado a lado com a barbárie).
 
Para Adolf Eichmann (20 de julho de 1960).
Corre livro o vento por nossas planícies,
Eterno pulsa o mar em nossas praias.
O homem semeia a terra, a terra lhe dá flores e frutos:
Vive em ânsia e alegria, espera e teme, procria ternos filhos.
... E você chegou, nosso precioso inimigo,
Você, criatura deserta, homem cercado de morte.
O que saberá dizer agora, diante de nossa assembleia?
Jurará por um deus? Mas que deus?
Saltará contente sobre o túmulo?
Ou se lamentará, como o homem operoso por fim se lamenta,
A quem a vida foi breve para tão longa arte,
De sua terrível arte incompleta,
Dos treze milhões que ainda vivem?
Ó filho da morte, não lhe desejamos a morte.
Que você via tanto quanto ninguém nunca viveu:
Que viva insone cinco milhões de noites,
E que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu
Encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta,
O breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte.
Shemá (10 de janeiro de 1946)
Vós que viveis seguros
Em vossas casas aquecidas
Vós que achais voltando à noite
Comida quente e rostos amigos:
            Considerai se isto é um homem,
            Que trabalha a lama
            Que não conhece paz
            Que luta por um naco de pão
            Que morre por um sim ou por um não.
            Considerai se isto é uma mulher
            Sem cabelos e sem nome
            Sem mais força de recordar
            Vazios os olhos e o ventre
Como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Vos comando estas palavras.
Gravai-as em vossos corações
Estando em casa, caminhando na rua,
Deitando, levantando:
Repeti-las a vossos filhos.
Ou que vossa casa se desfaça,
A doença vos impeça,
Vossa prole desvie o rosto de vós.

MIL SÓIS
De Primo Levi
Editora Todavia
160 páginas
R$ 54,90 e R$ 29,90 (digital)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

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