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Fazenda Não Me Deixes, em Quixadá, é opção turística que resguarda vida de Rachel de Queiroz

Por Diego Barbosa, 

Em pleno Sertão Central cearense, o espaço é afetuoso relicário de histórias e conserva, imaculada, a herança da autora em nossas letras

Antes de dobrar à direita, despedindo-se do asfalto irregular, o sol ainda mora no céu. Passado o limite, confunde-se com os tons do chão. Parece lá residir, junto à poeira amarelada, alicerce das árvores de galho retorcido. A paisagem ali, ao passo que engole, também abraça. Guarda a expectativa para o lar mais à frente, avolumado por ter pertencido durante tanto tempo sob posse de pessoa ilustre, dama maior das letras cearenses e inveterada personalidade nos escritos brasileiros, de hoje e sempre.
A Fazenda Não Me Deixes, enquanto recanto preferido da escritora - falecida em 2003 e, embora natural de Fortaleza, com forte apego a Quixadá, município em que construiu a morada em questão - abriga memórias vivas da primeira mulher a adentrar a Academia Brasileira de Letras. Cada cômodo da casa sinaliza o aconchego que a autora transmitia, a paz de estar bem. Lá, é como que se o tempo, sossegado, esperasse. Senti isso de forma plena.
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Na biblioteca de Rachel de Queiroz, livros, fotografias e pinturas dividem espaço. Foto: Viktor Braga
A percepção brota desde que avisto a porteira azul, ao longe. É destaque bonito e característico: nenhuma das outras propriedades do distrito de Daniel de Queiroz possui aquela marca cromática. Quem me explica é Daniel Victor, guia da fazenda, responsável por apresentar os detalhes da habitação. É ele também - pertencente à sétima geração de famílias que trabalham ao lado de Rachel - que brada ao céu, olhando para as outras pessoas ali reunidas:
 
Visitante mui amigo/ Pode entrar, a casa é sua/ Ah! É tão bom nesta vida/ Abrir a porta da rua/ Como quem abre num abraço/ Fazendo assim como faço/ Entre a gosto, a casa é sua
Os versos, escritos outrora pela anfitriã e transmitidos gerações adentro, são onipresentes em cada canto do domicílio. A arquitetura, por exemplo, traduz esse aspecto com maestria. Quando forem lá, percebam: as portas e janelas abrem para fora. É que, na mente de Rachel, quando fossem fechadas, significaria receber, do lado de dentro, um grande e afetuoso abraço.
Tem também o alpendre, um dos mais conhecidos ambientes por quem minimamente conhecia o jeito afetuoso da literata de tratar a quem chegasse. Lá sentando, em um dos parapeitos, a brisa parece sussurrar os diálogos de outros tempos, aproximando épocas distantes, fazendo tudo ganhar mais presença. É preciso parar para contemplar.
Conhecimento
A última visita à fazenda aconteceu recentemente, no dia 28 de julho, configurando-se como uma das atividades da programação da Mostra Sesc de Culturas Sertão Central, perpetuando um projeto iniciado há cinco meses.
Intitulado "Nessa tarde não me deixes" e idealizado por Edelson Santos, funcionário do Memorial Rachel de Queiroz, busca, mediante agendamento, apresentar à população - sobretudo àqueles que residem em Quixadá, mas ainda desconhecem a casa - o refúgio primeiro de Rachel, adentrando as peculiaridades de sua produção e alcance. Na ocasião, era a quarta edição da iniciativa, com previsão de ser realizada novamente em outubro ou novembro deste ano.
O feito de tocar foi cumprido com sucesso. Com a excursão - saída do memorial dedicado à autora, no Centro do município - mais de 50 pessoas, incluindo este que vos escreve, ansiosas por explorar o relicário afetivo da artista, potencializaram o momento de caravana literária por meio de contato com o mobiliário e os aposentos do lar.
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Na casa, a memória caminha lado a lado com olhares curiosos sobre a vida de RachelFoto: Viktor Braga
Visita guiada, diálogos e apresentações artísticas permitiram a imersão. A tríade de ações tinha objetivo uno: engrossar o tecido de olhares sobre Rachel de Queiroz a partir dos espaços que ela percorreu.
No total, a fazenda - inaugurada em 1954, com área de 928 hectares e distante 30 km da sede de Quixadá - possui sete cômodos, ocupados com peças originais da mobília, fabricadas a partir de materiais retirados da própria fazenda, que deu origem também a tijolos, portas e janelas. O primeiro recinto o qual somos convidados a conhecer é a biblioteca, com estantes à direita e à esquerda.
No espaço, Daniel explica que as obras fizeram parte do acervo pessoal da escritora, e muitas delas são autografadas por grandes nomes da literatura nacional. Compõem ainda o cômodo fotografias e objetos de decoração, driblando a fronteira do tempo presente e passado.
Um dos ambientes mais significativos do domicílio é apresentado logo em seguida. A sala de estar recebia convidados de longe e de perto, pessoas de diferentes classes sociais e munidas de diversidade de apelos - desde um simples prosear até pedido de alimento. Todos e todas tinham oportunidade de sentar e comer com Rachel.
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Na cabeceira desta mesa, na cozinha da fazenda, Rachel de Queiroz gestou duas obrasFoto: Viktor Braga
Vale mencionar que, na cabeceira da mesa, junto à irmã, Maria Luíza (Isinha), a autora deu início a duas importantes obras: "Tantos anos" e "O Não Me Deixes: Suas histórias e sua cozinha". Nesta última, constam também receitas da bisavó do guia, Daniel Victor.
Mais à frente, a cozinha detém fogão a lenha ainda em funcionamento - o instrumento já preparou refeições para Luiz Gonzaga e Castelo Branco, por exemplo - e potes, moedor e utensílios de barro, que também resguardam narrativas de tantas receitas preparadas ali. Instrumentos ressignificados a partir do uso pelos sobrinhos da literata.
Recanto
Igualmente fica ao alcance do público o local geralmente utilizado para passar roupa - onde está uma mesa que abatia os animais para as festas dadas na fazenda; a prensa de queijo, famosa por traduzir o apreço de Rachel pela iguaria; e o quarto dos empregados, mantido ainda com camas e criados-mudos. Tudo praticamente intacto.
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Sentada neste banco e defronte ao açude Não Me Deixes, Rachel de Queiroz se interiorizava e escrevis. Foto: Viktor Braga
Mas é alguns metros fora da residência principal que a magia parece ganhar mais cor - a harmonia e ternura talvez provenientes do azul, respingado por todos os cantos. No recinto designado Chalé da Rachel, observamos um banquinho e uma mesa defronte ao açude Não Me Deixes. Era nesse ambiente que as inspirações fluíam, matéria-prima para a construção de várias histórias. Um recanto de repouso inquieto: por onde andava o pensamento de Queiroz quando ali, em meio ao silêncio, na intimidade das linhas?
Foi questão que dez alunos do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) de uma das escolas públicas de Quixadá levantaram, junto a mim. De distintas faixas de idade, eles estavam pela primeira vez atravessando o ambiente e queriam, a partir do contato, conhecer mais sobre a obra da escritora.
Ouvi da boca de Edinete do Nascimento, faxineira de 39 anos:
 
Na sala de aula, já vimos algumas coisas sobre ela. Mas estar aqui é diferente. Dá vontade de ficar. É muito aconchegante, um lugar gostoso. Saber da história dela é ótimo porque é uma inspiração para o ser humano.
De repente, saindo dali, caminhamos juntos para o alpendre novamente, elencando a magia de cada canto. Pensei algo diferente. Há poucos dias, tinha ficado sabendo, a casa de outro grande vulto das letras estava com risco de ser demolida, em Belo Horizonte. Guimarães Rosa possivelmente não terá mais lar físico, coisa triste demais. Rachel, não: aquela morada ainda estava ali. É preciso visitá-la, conhecê-la. Preservá-la.
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Atividades artísticas marcam projeto "Nesta Tarde Não Me Deixes"Foto: Viktor Braga
Após a passagem pelo lar, voltamos ao início, onde todos que chegam são bem-vindos. Paira uma serenidade em cada pessoa. As crianças silenciam e os adultos olham para o céu. Está quase chovendo, o sol se encobriu numa nuvem. Não está mais no chão. Parece morar agora no azul, mais reluzente. É sinal do tanto que aquela visita muda a gente. Feito aconteceu comigo e com tantos naquele dia belamente registrado na memória.
>> ROTEIRO
Como chegar
De Fortaleza, há ônibus das empresas Fretcar e Guanabara saindo da Rodoviária Engenheiro João Thomé diretamente para Quixadá. Da sede do município, são 30 minutos até chegar a fazenda. É possível acessar o local via BR-116 (vai para Quixadá e, depois de lá, segue na CE 060 sentido Canindé; no primeiro triângulo antes do município de Choró, dobra à direita) ou BR-122 (na estrada de Baturité).
Por meio do projeto
Agendamento com, no mínimo, 30 dias de antecedência. Contato: (88) 99980-8276, com Edelson Santos, idealizador do projeto “Nessa tarde não me deixes”. Também é possível agendar por meio das redes sociais da ação (Facebook e Instagram). Valor: R$ 30 por pessoa. Capacidade máxima: 50 visitantes. Duração da visita: de 13h às 18h. O pacote inclui série de atividades, saindo do Memorial Rachel de Queiroz, no centro de Quixadá. 
Por conta própria
A casa também está aberta para visitas nesse formato, embora não conte com as atividades do projeto e necessite de agendamento com, no mínimo, um dia de antecedência. O translado, nesse caso, só é possível por veículo próprio. Não há linhas de ônibus para lá e é cobrada uma taxa para entrada no espaço. Para carros pequenos, R$ 60; micro-ônibus, R$ 80, e ônibus, R$ 100. Agendamento com Aldemir Silva, por meio do número (88) 99607-3804.
>> SAIBA MAIS: POR QUE "NÃO ME DEIXES"?
A origem do nome da fazenda, “Não Me Deixes”, guarda história interessante. O tio de Rachel, Miguel, era dono do território. Ele deu a propriedade para que Rafael, seu sobrinho, pudesse exercitar a pecuária e agricultura. Certa vez, o rapaz disse que ia vender a propriedade para tentar a sorte na Amazônia. Assim o fez. Quando chegou lá, antes de conseguir investir o que tinha, contraiu doença, que o estava matando aos poucos. Miguel ficou sabendo e mandou buscá-lo.
Quando Rafael chegou, estava pobre e doente. Então, o tio o encarou e disse que ia devolver o terreno, não sem antes lhe dizer: “Eu vou lhe dar, mas não me deixes mais”. Com a morte do proprietário da fazenda, que não tinha filhos, a terra voltou para as mãos do avô de Rachel, dando-a de herança ao pai da escritora, Daniel de Queiroz Lima. Por iniciativa da escritora, parte da fazenda foi transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural e foi erguida com o marido, o médico goiano Oyama de Macedo. Caracterizado por elementos rústicos, o projeto da casa é da própria Rachel, e maquete específica foi elaborada para deixar tudo aos moldes do que a artista queria.

Diário do Nordeste

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