30 de agosto de 2019

Há 80 anos, Segunda Guerra Mundial mudou o Ceará

Há oitenta anos, a Alemanha invadia a Polônia e dava início ao segundo grande conflito mundial. No Ceará, clima pacato acabou transformado com a eclosão da Guerra

“Não ‘zepelim’ nem dirigível, ou qualquer outra coisa antiquada; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp”. O trecho, que abre o conto Tangerine-Girl, de Rachel de Queiroz, ilustra o choque que marcou a chegada, durante a Segunda Guerra Mundial, de soldados americanos ao Ceará. Na história, uma jovem da provinciana Fortaleza dos anos 1940 observa diariamente a vagarosa patrulha de um dirigível dos Estados Unidos sobre a cidade, nutrindo sonhos e idealizações apaixonadas por um de seus tripulantes.

ASSISTA | Os cearenses que lutaram na Segunda Guerra Mundial:

Há oitenta anos, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadia a Polônia, no que hoje é considerado o início do conflito. Quase três anos depois, pressionado pelo torpedeamento de barcos brasileiros, Getúlio Vargas declarou guerra à Alemanha. A entrada do Brasil no Bloco Aliado traria, no final de 1943, a instalação de bases dos EUA em Fortaleza, uma no Pici e outra no Cocorote (hoje Alto da Balança). Durante anos, circularam por aqui mais de 50 mil americanos, em um choque de cultura que moldaria a cidade por décadas a seguir.
“Fortaleza ainda era muito pequena, muito provinciana, então aquilo foi uma loucura. O americano chegou trazendo o jeans, a Coca-Cola, o cigarro. Os grandes zeppelins, que onde iam as pessoas paravam para ver”, explica o major e historiador Gustavo Augusto de Araújo Chaves, autor da obra História do Ceará na Segunda Guerra Mundial. Na época com cerca de 180 mil habitantes e ainda repleta de burros e cavalos, Fortaleza foi “tomada de assalto” pelos americanos, que traziam inédita agitação à pacata e conservadora vila cearense.
De folga, os americanos se hospedavam no Excelsior Hotel, no Centro, onde abriram no entorno “points” como o Bar Americano e lojas de artigos masculinos (na época pouco usuais) como a Casa Americana – que existe até hoje. Dançavam e confraternizavam no Estoril, onde funcionava o United States Organization (USO), ao som de música em inglês e bebendo o até então desconhecido “Cuba Libre”, mistura de rum, Coca-Cola e limão. Na época, estourou o uso de nomes americanos para crianças, animais, lojas e todo tipo de coisa.
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Notícia da invasão da Polônia pela Alemanha, no início da Segunda Guerra Mundial. O POVO noticiou em 1º de setembro de 1939
Notícia da invasão da Polônia pela Alemanha, no início da Segunda Guerra Mundial. O POVO noticiou em 1º de setembro de 1939
“A influência foi significativa: no vestuário, na música, na dança, na religião, na comunicação e na cultura (...) deixando algo de sua cultura e de seus hábitos que ainda permanecem no modo de viver dos cearenses”, destaca Gustavo Chaves. Em Tangerine-Girl, Rachel de Queiroz registra a influência, com a protagonista escutando longamente a programas de swing jazz no rádio. Ironicamente, era a guerra que aproximava dois povos até então tão distintos.

A guerra como ela era

Nem só da efervescência do intercâmbio cultural, no entanto, ficou marcado o período da Guerra no Ceará. Diante do fim do comércio com países do Eixo – a Alemanha, na época, era dos principais parceiros econômicos do Brasil – e do próprio naufrágio de navios mercantes, o Estado passou por uma forte crise econômica e de abastecimento no início dos anos 1940. Na rota das exportações marítimas para a Europa, Fortaleza foi das principais regiões atingidas – a própria principal empresa de navegação, a Boris Frères & Cia, era de origem francesa.
Em 7 de maio de 1945, O POVO noticiou a rendição alemã e o fim da guerra na Europa
Em 7 de maio de 1945, O POVO noticiou a rendição alemã e o fim da guerra na Europa
“Havia blecautes e racionamento de energia elétrica, alimentos e combustíveis”, registra Chaves. Para suprir a deficiência, a população recorria ao “gasogênio”, instalando nos automóveis uma gambiarra que convertia a combustível o gás obtido da queima de carvão. Para evitar que a cidade virasse alvo de bombardeios dos inimigos, Fortaleza reduzia a iluminação à noite, dificultando a visibilidade de navios e aeronaves alemãs que eventualmente planejassem um ataque contra a costa. “Cada quarteirão tinha voluntários que se responsabilizavam com uma vistoria para evitar luzes acesas”, diz o historiador. A proximidade com a Europa tornava Fortaleza um alvo preferencial de hostilidade nazista contra o território brasileiro.

Inquietação e crise marcaram primeiros anos da Segunda Guerra em Fortaleza, veja imagens:

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Como o naufrágio de navios era mais frequente no litoral do Nordeste – mais de dez dos 34 navios afundados foram atingidos na região, deixando centenas de mortos –, a paranoia também era constante: suspeitos de espionagem eram denunciados e vigiados, alguns até presos. Do outro lado, a Marinha promovia campanhas nacionais de arrecadação de objetos de ferro, alumínio ou outros metais para a construção de embarcações. Uma das campanhas, batizada “Pirâmides da Vitória”, teve participação destacada do povo cearense.
A inquietação começou a se espalhar entre a população, que, mesmo diante da proibição de aglomerações do Estado Novo, organizava comícios na Praça do Ferreira. A inquietação atingiu o ápice em 18 de agosto de 1942, quando estudantes e populares depredaram casas comerciais de alemães, italianos, espanhóis e japoneses no Centro. “Grande massa do povo, ontem, durante quase todo o dia, veio às ruas em manifestações coletivas de desagravo à agressão dos piratas nazistas”, registra o extinto jornal “O Nordeste” do dia seguinte.
Colaborou David Moura, do O POVO Dados

Pesquisa histórica: Fred Souza, do O POVO Dados

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